quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Dostoiévski como Platão


De Vera Fisogni.

Isto mesmo: há muita filosofia nos escritos do escritor russo, autor de obras-primas como “Crime e Castigo” e “Os Demônios”. O sustenta o professor Giovanni Reale, insígne estudioso da filosofia antiga – ele escreveu dezenas de volumes e uma fundamental “História”, sempre reimpressa, para uso das Universidades – hoje docente na faculdade de filosofia de San Raffaele. Reale antecipa, com grande clareza, à “La Provincia”, porque a literatura de Doistoiévski está ao nível dos “Diálogos” platônicos. Não por acaso a Bompiani (Nota: Editora Italiana), com a supervisão do mesmo Reale, inseriu o autor russo na coletânea “Os clássicos do Ocidente”, ao lado de Aristóteles, Kant, Hegel e Heidegger. Sobre isto se discute em Parolario, em 30 de agosto, na abertura dos encontros filosóficos do festival, sob os cuidados de Alfredo Tomasetta.

Por que, professor Reale, [você] considera Dostoiévski um grande filósofo, além de um grande escritor?

Compreendi isto conversando com a tradutora russa dos volumes que escrevi com Dario Antiseri, a qual me explicou que para os russos Dostoiévski é considerado precisamente um filósofo de grande estatura, de modo bem diverso de nós ocidentais que o consideramos um grande romancista. Berdiaev, em seu livro “O conceito de Dostoiévski”, precisa bem esta convicção: “Talvez a Filosofia o tenha ensinado pouco” (mas se entenda filosofia em sentido técnico e acadêmico e não em sentido verdadeiro e vital), “Mas a filosofia tem muito a falar dele”. Antes, Berdiaev acrescenta: “Dostoiévski foi verdadeiro filósofo”, e até mesmo não hesita em afirmar que “foi o maior filósofo russo”. Os seus romances são história das idéias personificadas nos vários personagens. Idéias vivas em sua profundidade e em sua complexa dinâmica e em sua força destrutiva. Berdiaev precisa: “A obra inteira de Dostoiévski é a solução de um grande problema das idéias [...]. Todos os seus heróis são literalmente absortos de idéias: não são ébrios… Tudo gira em torno a estas “malditas questões eternas”.

Isto não quer dizer que Dostoiévski tenha escrito romances em tese, para comunicar esta ou aquela idéia. As idéias são imanentes à sua arte: ele revela sua existência unicamente em modo artístico… Dostoiévski concebeu idéias originais, mas as concebeu sempre em movimento, dinâmicas, em seu trágico destino”. Dostoiévski mesmo precisa que as idéias são aquela força que move o mundo e em seu “Diário” escreve: “Na história aquilo que triunfa não são as massas de milhões de homens nem as forças materiais, que parecem tão fortes e irresistíveis, nem o dinheiro nem a espada nem a potência, mas o pensamento, quase imperceptível no começo, de um homem que parece mesmo sem importância”. Eu estou profundamente convicto que Dostoiévski faz com os seus romances o que Platão fez com os seus diálogos, que são – como os mais atentos estudiosos reconheceram – a transposição sobre o plano dialético das duas grandes formas da arte dos seus tempos, ou seja, da tragédia e da comédia.

As reflexões de Dostoiévski sobre niilismo e sobre almas entorpecidas, penso particularmente no romance “Os Demônios”, podem dizer algo ao homem de hoje?

Na Itália, Luigi Pareyson, em seu livro “Dostoiévski. Filosofia, romance e experiência religiosa”, recebeu bem e desenvolveu a interpretação de Dostoiévski como verdadeiro filósofo. Dostoiévski é muito mais do que aquele grande e sutilíssimo psicólogo que muitos reconheceram, enquanto se coloca além da mera análise da alma humana ao nível psicológico, “a sua análise vai além, e é em virtude deste ulterior aprofundamento que ele se tornou um dos zênites da filosofia contemporânea e um inevitável ponto de referência no debate especulativo do mundo de hoje”. Pareyson anima-se mesmo a afirmar que o personagem Ivan d“Os Irmãos Karamazov” exprime o conceito de niilismo de modo completo e perfeito, ao ponto que mereceria um capítulo em qualquer manual de filosofia sobre este tema, e escreve: talvez mais que Nietzsche merece representar a alma niilista hodierna, e escreve.

“E, com efeito, onde se pode hoje encontrar o niilista típico, o teórico da negação pronto a entrar como um capítulo em uma história da filosofia contemporânea, o filósofo que pensou até o fim e com extrema coerência o conceito de niilismo levando-o às extremas consequências, o pensador que das doutrinas mais tradicionais soube exprimir o êxito mais niilístico e destruidor? A resposta me parece evidente: não tanto nas labirínticas ambiguidades de um Nietzsche quanto na retilínea e implacável lucidez de Ivan”. Se se lesse atentamente os seus romances se saberia muito bem isto que muitos recusaram compreender, ou seja, que os maiores males do século passado e deste nosso século derivam propriamente daquele terrível buraco negro que se criou nas almas dos homens, que é como um abismo no qual tudo precipita. Saberia muito bem em que sentido os pseudo-valores que vem sendo ostentados não são senão são máscaras douradas da nulidade.

Há a impressão que a filosofia russa seja focada na literatura, e que deixa à poesia muito mais espaço que na Europa. É assim mesmo?

Isto é uma característica peculiar da alma russa, e é uma característica que eu aprecio muito. Penso, com efeito, que seja absurdo considerar que apenas a razão em sentido iluminístico ou mesmo científico seja a fonte da verdade. Dostoiévski fazia dizer a um personagem seu: “A razão, senhores, é uma coisa bela, é indiscutível, mas a razão é só a razão e satisfaz apenas a capacidade de raciocínio do homem, enquanto a vontade é a manifestação de toda a vida, isto é, de toda a vida humana…”

Este modo particular de sentir dos russos faz portanto compreender como nunca, por exemplo, [porque] muitos deles preferem Schelling a Hegel, ou a razão pela qual até a queda do muro, do pensamento contemporâneo italiano conheceram somente Croce, do qual apreciavam muito a “Estética”. De resto, sua grande arte do ícone é uma prova eloquente da verdade disto que estamos dizendo. Se trata, de fato, de um “pensar por imagens” assaz profundo. Os ícones são como idéias platônicas representadas em modo fantástico-poético.

Em que sentido e em que medida o pensamento cristão influenciou Dostoiévski?

Dostoiévski chegou à fé e a reforçou através do niilismo e indagando a sua autodestruição. A fé (a verdadeira fé) pressupõe a dúvida, e é verdadeira fé somente se é uma contínua e dinâmica superação da dúvida mesma. Dostoiévski escreve: “Os senhores dirão que eu sou filho do século, filho da incredulidade e da dúvida: o sou hoje e o serei até a morte. Quantos atrozes tormentos me custam esta sede de crer, mais forte na minha alma quanto mais encontro em mim argumentos contrários”.

E em resposta aos críticos que censuravam a sua fé em Cristo, dissera: “De fato, de dúvida nenhum me vence. Não é como uma criança que eu professo Cristo. O meu Hosanna é passado através de um crisol de dúvidas”. E em uma carta de 1854 escrevera: “Chego a dizer que se alguém me demonstrasse que Cristo está fora da verdade e se fosse efetivamente verdadeiro que a verdade não está em Cristo, tudo bem, eu preferiria ficar antes com Cristo que com a verdade”. Creio que esta seja a resposta mais forte à pergunta que ela me fez.



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