domingo, 14 de agosto de 2011

Com Ezra Pound

por Miguel Serrano

Há anos, em Veneza, frente a essa estátua de pedra, que não falava - houve um tempo em que as rochas falaram - comecei a deixar correr palavras e palavras, e, entre outras coisas, disse: "Em setecentos anos mais o laurel florescerá de novo. Seja feliz, em setecentos anos mais você voltará a perder...".

Sabia que Ezra Pound era seguidor do deus dos perdedores nesse mundo, no período escuro do Ferro, chamado pelos hindus Kaliyuga. Ele era também um acólito do mal-tratado e desprestigiado Lúcifer, talvez ainda que não soubesse, do Lucibel dos cátaros, Apollo, Abraxas, Krishna, Siva, e também Quenós, dos selknam; o portador, o Anunciador da Luz, da Estrela da Manhã, a que avisa a chegada do novo Sol e retira-se de pronto, à espera de um mundo mais nobre, mais puro, para onde foram-se os heróis e os gigantes.

Comecei a narrar a Pound minha peregrinação a Montségur e falei-lhe de Sierra Maladetta, por onde Bertrand de Born, trovador que ele amara e traduzira, deixou-se morrer por congelamento, segundo conta-nos Otto Rahn, em seu livro "A Corte de Lúcifer". Foi nesse momento quando a rocha fez um gesto, e uma luz de alegria envolveu-a. É que Ezra Pound havia escalado Montségur. Também ele era um herege e um guerreiro.

Tive uma idéia, algo assim como se um segredo fosse-me revelado: Ezra Pound encontrava-se incorporado em uma tradição luciferina que vinha das origens. Através de suas mãos, sem que ele fosse totalmente consciente disso, passava o Cordão Dourado dessa tradição viril e guerreira. O interesse de Pound, em sua juventude, pelo Poema do Cid, pelo Cantar de Orlando, por Parsifal, pelas canções e a civilização dos trovadores do Languedoc, fê-lo representante em nosso tempo dos que combateram por um mundo não assentado na usura, assim como os templários lutaram uma vez para organizar as bases de um sistema econômico mais espiritual e justo. Não tivesse sido destruída prematuramente esta tentativa, poderia ter levado à Terra na Era de Peixes um desenvolvimento muito distinto, em outra direção, redescobrindo uma técnica espiritualizada, capaz de transfigurar a Terra, sem destruí-la no cataclismo que vê-se vir, como efeito de uma tecnologia grosseira, mecanicista, enredada nas engrenagens satânicas da usura e da sociedade de consumo, do racionalismo e do materialismo coletivista do universo de massas.

Ezra Pound apoiou na Segunda Guerra Mundial ao fascismo italiano e ao nazismo alemão, acreditando ver neles um sistema econômico social não assentado na usura, também com uma tecnologia e ciência diferentes, um organismo que encontra suas raízes metafísicas em uma Terra purificada e vital. Agora bem, sabe-se, porque há documentos que provam-no, que a organização das SS do Hitlerismo (SS é abreviatura da palavra alemã Schutzstaffel, originalmente Grupo de Proteção) estava inspirada na Ordem Templária. Em suas camadas dirigentes secretas havia um tipo de iniciação esotérica, ademais de vários centros de instrução em castelos distribuídos em distintas zonas, à maneira das Gendarmarias templárias. As SS pretendiam construir cidades nos confins da Europa, no Cáucaso, em la Rochelle, no Meio-Dia francês, talvez em Montségur, ao finalizar a Guerra, liberando-as de impostos e onde o dinheiro não tivesse valor e o comércio constituísse um vínculo espiritual como na Antiguidade. Hoje pretende-se desconhecer o sistema social e econômico novo, melhor dito velhíssimo, que tentaram estabelecer o fascismo e o nazismo e chama-se tendenciosamente fascista a qualquer regime autoritário ou ditadura, que não seja de tendência marxista, que entronize-se no poder em algum ponto da Terra.

Por esse tipo de razões, Ezra Pound pôs-se ao lado da Itália e Alemanha na grande guerra e contra seu próprio país de nascimento, no qual viu o símbolo do oposto, de uma economia, uma técnica, um sistema de vida baseados na usura, como ele mesmo disse. Ezra Pound perdeu, e foi encerrado em uma jaula e ferro, em Pisa, como besta feroz, e manteve-se-lhe à intempérie, sob frio e sob Sol. Logo foi levado a um sanatório e loucos nos Estados Unidos da América, onde permaneceu treze anos, os melhores da vida de um homem. Ao maior poeta de seu tempo, que apresentou Joyce, que ajudou Elliot a escrever, que traduziu Confúcio e interpretou o I Ching! O mesmo fez-se na Noruega, e por idêntica razão com Knut Hamsun. Também seu Guia, perdedor em uma batalha de extraterrestres, foi torturado, caluniado e, por último, aprisionado nos gelos do Polo Norte, onde um dia fizera florescer a Última Thule. Os perdedores são sempre transformados aqui nos demônios históricos legendários; assim é-o Ravana, derrotado por Rama; assim é-o Luzbel.

Se Ezra Pound equivocou-se, bem, já disse-o Platão: "Todas as grandes coisas edificam-se no perigo". E Heidegger: "Quem pensou grande, deve errar grande."

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