quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Assim não é, porém parece

por Adriano Scianca



Em um bom artigo de uns anos atrás, Charles Champetier identificava o novo rosto do inimigo em um triplo sistema de domínio composto por técnica, mercado e espetáculo. As figuras tradicionais do enfrentamento político, explicava Champetier, ficaram já obsoletas; ao dia de hoje o poder exerce-se mediante mecanismos impessoais que não executam-se em momentos e lugares simbólicos, senão em todo instante e em todas as partes.



Mais que por uma estrutura de poder, o sistema está hoje constituído por uma dimensão existencial, na qual todos estamos imersos. Assim é, porque a nova forma do domínio não prevê uma imposição externa, senão mais exatamente uma absorção em seu interior. Nós vivemos na técnica, no mercado, no espetáculo.



Todo aspecto de nossas existências que não possa-se redirigir a tal esquema é "normalizado" ou suprimido: o que não é eficaz é superado, o que não é rentável é absurdo, o que não é visível é inexistente. O resultado é o mundo sem sentido: a economia produz por produzir, a técnica progride por progredir, o espetáculo mostra por mostrar. O que em seu momento era um meio submetido a oturos fins, agora é fim em si mesmo. Volta à nossa mente a frase de Nietzsche sobre o niilismo como ausência de resposta ao porquê. Pois bem, a profecia cumpriu-se. Vivemos em um mundo que, como diria Alain de Benoist, não sabe para onde ir, porém não deixa de afirmar que somente há um modo para dirigir-se.



Espetáculo e Realidade



O espetáculo está formado por aspectos individuais do mercado e da técnica que constituem um conjunto autônomo que engloba o âmbito da informação e das representações coletivas. Observaram-no já Adorno e Horkheimer em tempos insuspeitos: "os filmes, a rádio e os semanários constituem, em seu conjunto, um sistema. Todo setor é harmonizado em seu interior e todos são entre si". E tudo isso apesar do tão ostentado pluralismo: "as distinções enfáticamente afirmadas" entre os diferentes produtos culturais, continuavam os dois filósofos judeus, "mais que estar fundadas sobre a realidade e derivar desta, servem para classificar e organizar aos consumidores, e para tê-los em um punho mais sólidamente. Para todo o mundo está previsto algo para que ninguém possa escapar; as diferenças são inculcadas e difundidas artificialmente".



O que vemos muda continuamente, porém segue sendo constante o domínio da visão da imagem espetacularizada. Em nossa sociedade, de fato, a visão substituiu tanto a ação como a reflexão. Não crê-se mais do que naquilo que vê-se. O que é visto suplanta o que é vivido. O espetáculo, diz Guy Debord, não é outra coisa que "o empobrecimento, a submissão e a negação da vida real". A visão espetacularizada converte-se na única possibilidade de existência dos entes.



Daí deduz-se que a sociedade do espetáculo não é somente o reino da mentira (ainda que mentiras puras e simples há aos montes), senão mais exatamente a autêntica dimensão da não-verdade absoluta, a dimensão em que é impossível ter uma experiência da verdade, o mundo em que existe somente o que situa-se sob a luz dos refletores, enquanto que o que demora-se em sua existência autêntica é como se ficasse em uma escuridão originária. Como moscas diante de um cristal, damo-nos cabeçadas para alcançar uma realidade que não captamos sem entender quem e o quê interpõe-se entre nós e ela.



Deste modo, não obstante, nossa capacidade de compreensão e de comunicação fica irremediavelmente comprometida. A sociedade do espetáculo entra em nós e transforma-nos desde o interior. Em particular, nossa personalidade é desarticulada em três níveis distintos: nível informativo, nível social e nível psíquico.



Ver e Não Entender



O nível informativo é aquele no qual o espetáculo atua deformando nossa percepção do mundo. "Tudo o que sabes é falso", escreveu recentemente alguém, e resulta difícil discordar.



Hoje nós já não estamos em condições de compreender o que sucede ao nosso redor sem recorrer às respostas pré-fabricadas ou a paradigmas simplestas que são-nos administrados deliberadamente. O esquema moral dos "bons" e dos "maus" já foi inserido à força entre nossas estruturas mentais implícitas, e nossa "liberdade de pensamento" consiste simplesmente em assignar a cada figurante a posição à qual está destinado a pertencer. As peças do quebra-cabeças é-nos dada pela televisão e o encaixe é necessariamente o estabelecido, porém a final de contas, quando juntamos as peças ninguém põe-nos uma pistola na nuca: para a maioria isso basta-lhe para autoproclamar-se "livre". A multiplicação dos canais informativos acabou por coincidir com a total ausência de informação real.



Um símbolo eloquente a respeito é o ataque às torres gêmeas, ao mesmo tempo o acontecimento e o anti-acontecimento por excelência. O 11 de Setembro é o momento da transparência absoluta, da informação global realizada, o espetáculo que reúne ao mesmo tempo toda a humanidade diante do aparelho de televisão para assistir em tempo real ao mesmo acontecimento registrado por milhares de câmeras. Porém ao mesmo tempo, estamos diante de um anti-acontecimento, diante da mistificação mais absoluta da realidade, da ficção completa. É certo, todos nós vimos. E não obstante, ignoramos todos os seus aspectos. Sabemos com absoluta certeza que algo aconteceu, porém este algo estã tão próxima da essência mesma do mecanismo espetacular que é um concentrado de falsidade em estado puro. Não há nenhuma imagem que tenhamos visto tantas vezes como a dos aviões chocando-se; porém ao mesmo tempo, não há nenhum fato histórico do qual saibamos menos. Ver e não entender é já nosso destino. A compreensão ou a análise resultam-nos inacessíveis; fica-nos somente o estupor e a indiferença, o medo e a diversão, a histeria e a apatia, administrados em doses alternadas, segundo as exigências do sistema.



Desestruturação do Social



O nível social é aquele no qual a personalidade dos indivíduos e seu vínculo com os outros são desestruturados e remodelados com base em uma lógica mercantil. "O espetáculo não é um conjunto de imagens senão uma relação social entre indivíduos, intermediada pelas imagens", observava já Debord.



Não vivemos mais que relacionando-nos com os outros, porém hoje não existe vínculo social que não esteja submerso no espetáculo. Aqui, mais que os telejornais, o que vale são as séries de ficção, os reality shows e o "star system" em geral. Ao propôr determinados modelos, a sociedade do espetáculo penetra nas relações interindividuais e reproduz-se. A competição darwinista, o moralismo hipócrita, o individualismo decadente, o etnomasoquismo, a vaidade narcisista, a pequena mesquinhez, o conformismo mais vazio, a superficialidade mais desconcertante e a ignorância mais abismal elevados a norma: é em tudo isso que estamos imersos quotidianamente graças ao bombardeio midiático. Predomina a banalidade como linguagem, o que significa não tanto que diz-se coisas banais como que não é-se capaz de comunicar mais do que através da banalidade. Quer dizer: fala-se e não diz-se nada.



É a culminação da alienação: "a consciência espetacular, prisioneira em um universo degradado, reduzido pela tela do espetáculo por trás da qual foi deportada sua própria vida, não conhece mais que os interlocutores fictícios que falam-lhe unilateralmente de sua mercadoria e da política de sua mercadoria".



A Grande Família



Tal mecanismo alienante, para fazer-se sedutor, não pode mais que travestir-se de fingida autenticidade. A tendência ao "realismo" da televisão atual na realidade trata de criar uma espécie de "familiaridade" com a ficção da tela, tentando apaixonar o público com pequenos casos insignificantes com os que possa identificar-se. "Dizem que com uma segunda tela mural tens à Família ao teu redor constantemente" diz Julie Christie em Fahrenheit 451 de Truffaut.



É assim precisamente: a "Grande Família" envolve-te e engloba-te. Descobres-te chamando pelo nome uns desconhecidos que viu na tela como se fossem teus amigos íntimos. Sente-os próximos, parecem-se a ti. Porém em realidade és tu o que estás começando a ser como eles. Estes shows, de fato, não representam a realidade. Constroem-na. Não são descritivos senão normativos. Não mostram o que é senão o que deve ser. O mesmo pode-se dizer do culto dos famosos e dos aspectos mais privados de suas existências: o indivíduo "normal" vê-se empurrado às fofocas sobre a vida sentimental dos milionários ignorantes e viciados divinizados pelos meios e fantasia dessa maneira sobre uma vida que nunca poderá ter porém que servir-lhe-á como modelo para orientar a sua. Vivemos em um mundo de famosos truncados, que ao sonhar somente com o estilo de vida dos tediosos astros de aparência que estão podres de dinheiro, mostram que já interiorizaram um certo desprezo por si mesmos, por suas próprias origens sociais e culturais.



Graças à sociedade do espetáculo começamos a odiar a parte de nós que segue sendo autêntica, verdadeira, enraizada, a parte que se não fosse desintegrada impedir-nos-ia de ter acesso ao Olimpo midiático, tal e como prevê o classismo pós-moderno que separa quem aparece de quem não aparece.



A Devastação dos Cérebros



O nível psíquico, ademais, é o da autêntica desarticulação da personalidade a um nível inclusive fisiológico. Somente há que pensar na ação desestruturante que pode exercer no cérebro.



Como sabe-se, o cérebro funciona graças à sinergia do hemisfério esquerdo e do hemisfério direito. Os dois hemisférios elaboram as informações de modos distintos destinados depois a entrelaçar-se harmonicamente: o hemisfério esquerdo raciocina de um modo que poderíamos definir analítico, linear, consequente, científico, digital, o direito, de modo intuitivo, simbólico, imaginativo, sintético, analógico.



Agora, revelou-se como o uso das novas tecnologias midiáticas está em condições de criar estruturas mentais prioritárias, favorecendo determinadas faculdades (as "digitais") em detrimento das centrais para o pensamento simbólico e relacional. Outros identificaram em tal separação a origem da barbarização de nossa sociedade e da extensão da violência niilista como fim em si mesma.



Aqui não falamos de atitudes ou de mentalidades, senão de organização cognitiva e inclusive neuronal. Somente há que pensar que a televisão modificou já o modo em que usamos nossos olhos e está contribuindo inclusive para desequilibrar nossoas valores hormonais.



E isso não é tudo: a autorizada revista especialista Pediatrics, por exemplo, levou a cabo estudos que demonstraram como nos Estados Unidos o cérebro das crianças forma-se de acordo com os tempos televisivos - nos quais tudo sucede rápidamente, como relâmpagos breves e repentinos - tanto que já não logram concentrar-se quando não recebem o mesmo tipo de estímulo veloz. Um número cada vez maior de crianças já não é capaz de concentrar-se nunca, nem sequer durante algum minuto. Estamos dando vida ao zumbi global, único cidadão possível do mundo pós-humano que estamos preparando.



A Rebelião Espetacular



Assim as coisas, como enfrentar-se à tirania do espetáculo? O caminho empreendido pela maioria é o do extremismo. O extremismo é a excessividade efêmera do gesto, a disposição a conferir aos próprios discursos uma visibilidade que supere durante um momento em intensidade a monotonia do já-visto, sem sair, não obstante, do paradigma da visão espetacularizada. Este encontra-se, como pode-se intuir, totalmente dentro da sociedade do espetáculo.



A nível macro-histórico e macropolítico, o extremismo converte-se em terrorismo: a final de contas, o mito do "choque de civilizações" (Ocidente vs. Terrorismo Islâmico) não é mais que a versão global e atualizada do mito dos "extremismos opostos" (anticomunismo reacionário vs. antifascismo reacionário). Muda a intensidade (e o caráter trágico) porém não os resultados. O potencial revolucionário do extremismo é, de fato, igual a zero.



É mais: jogando um papel no interior da sociedade do espetáculo, o extremista e o terrorista não somente não põem em questão nada, senão que convertem-se inclusive em elementos funcionais do sistema que de palavra queriam combater, adotam o semblante de figurantes em uma representação maior que eles. E muitas vezes nem ao menos são necessários os elencos dirigidos por outros: estes encontram por si mesmos seu próprio lugar na comédia, espontâneamente assumem a parte que foi-lhes assignada.



O Pensamento Radical



Fora da comédia, e, ao contrário, disposto a incendiar todo o teatro, encontra-se, por sua vez, quem saiba assumir posições radicais.



O radicalismo é a antítese do extremismo. O primeiro é silencioso, vivido, de longo alcance, operativo; o segundo é ruidoso, encenado, míope, inútil. Não centrado nos gestos senão nas ações, o radicalismo é, etimilógicamente, a capacidade de ir à raiz. À raiz de si mesmo acima de tudo: o pensamento radical está sempre enraizado. Ou melhor, deve está-lo: quem aventura-se no reino do nada deve ter uma identidade forte para não assumir ele mesmo as aparências do inimigo. Porém o pensamento radical significa também ir à raiz dos problemas, compreender os acontecimentos em profundidade, sabendo colocá-los em perspectiva.



Escola de autenticidade e de realismo, o pensamento radical é hoje a única via transitável que com razão pode-se definir revolucionária. Assim é, porque a primeira obrigação de toda vontade revolucionária é o de descer concretamente à realidade, mais além da histeria e da utopia, as duas únicas alternativas que a sociedade do espetáculo oferece-nos. Portanto, atuar para voltar ao real. Gerar novas consciências. Redespertar consciências adormecidas. Sair da capa sufocante da novidade para voltar, finalmente, a ver as estrelas.



O mundo no qual vives não existe.



Tudo o que sabes é falso.



Abra os olhos.



Agora.

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