sábado, 2 de julho de 2011

Totalitarismo Hipotecário

por Rafael Leonisio

Nos tempos que correm o poder encontrou um novo mecanismo para controlar os cidadãos: atar-lhes ao longo da vida a uma hipoteca que impede-lhes não somente de protestar e reclamar seus direitos mais básicos mas também que submete sua vida quotidiana até limites insuspeitos. É, em definitiva, um novo totalitarismo que à diferença dos do século passado não está dirigido pelo Estado mas sim pela grande Banca ajudada por este último.

Em termos sociológicos poderíamos definir o controle social como uma série de mecanismos reguladores do statu quo imperante. Mediante eles, por uma parte, pressiona-se ao indivíduo para aderir-se às normas e, por outra, reprimem-se as manifestações de condutas desviadas. Ao longo da história existiram muitas e variadas formas de controle social: escravismo, sujeição à terra, religião ou a própria polícia. Através destes instrumentos a minoria privilegiada e poderosa exerceu seu controle sobre a maioria para seguir desfrutando de sua posição privilegiada.

Neste século alguns destes mecanismos são mais sutis. Na Espanha temos um claro exemplo disso nas hipotecas vitalícias. Assim é que se na Idade Média existiam os servos da gleba agora o que existem são os servos do banco.

As classes não detentoras de poder (as massas poderíamos chamá-las) passaram de estar adscritas a uma terra da qual dependia seu sustento a estarem adscritas a uma hipoteca da qual depende seu bem-estar material. Seria este tipo de dúvida um tipo de controle social? Pode parecer exagerada esta definiçãop orém o hipotecado a longo prazo, assim como o camponês medieval ou o escravo na Idade Antiga, deixou de ser livre e sua vida fica submetida a algo alheio a si mesmo. Não falamos já de que um pseudo-proprietário como o hipotecado vitalício, devido a sua situação, tenda ideologicamente de maneira inexorável ao polo conservador (é duvidoso que alguém com água no pescoço torne-se excessivamente revoltoso com o poder) mas sim que esta situação afeta aos aspectos mais pessoais de sua vida quotidiana: Ele é livre para protestar no trabalho? E para abandoná-lo e buscar outra coisa melhor? E para mudar de cidade? Atrever-se-à a divorciar-se? Terá todos os filhos que deseja?

A verdade é que a questão das hipotecas ad aeternum está dando e dará no que falar por constituir o grande problema dessa geração que agora mesmo encontra-se ao redor dos trinta anos. Gente que para poder emancipar-se teve que endividar-se até o limite, despojando-se de uma grande parte do que ganhará em sua vida para dividi-lo, quase em partes iguais, entre o pequeno ou grande especulador da vez e o banco ou caixa que teve a crueldade (e o bom olho para seus interesses) de atar-lhe a sua entidade para sempre. Pessoas que arrastarão durante toda a sua vida uma dúvida que impedir-lhes-á atuar com a pouca liberdade que permite nosso sistema atual; e que sem dúvida ver-se-ão frustrados ao não estarem ao seu alcance muitos dos bens materiais que, como membros ativos dessa sociedade consumista, sem dúvida ansiarão. Estes atuais jovens hipotecados em grau variado verão subir sua dívida em uma velocidade maior que seus soldos e ver-se-ão privados das férias pelas quais tanto ansiam, da tranquilidade de ter um seguro completo para o carro ou de simplesmente sair para jantar ou tomar uma cerveja com os amigos.

E não apenas isso. O nível de endividamento cresceu a tais limites que quiçá não seria ousadia falar de uma nova classe de pobres-proprietários: pessoas, em sua maioria jovens desta geração maldita, cujo soldo chega somente praticamente para cobrir sua dívida hipotecária com o banco. Estes neo-pobres, com uma espada de Dámocles em forma de despejo sobre sua cabeça, somente poderiam "consumir" uma residência e portanto ficariam fora da dinâmica de nossa sociedade comercial e de consumo. Ademais, dependeriam não somente do banco mas também de suas famílias (ou outros próximos) para satisfazer certas necessidades muito básicas (luz, água, comida) ou nem tanto (cuidado de crianças, cultura, saúde privada) porque simplesmente não tem com que pagar. Atados por toda a vida a um nicho de ladrilhos logo dar-se-ão conta de que se democracia significa "poder do povo" é irônico dizer que encontramo-nos em uma. Eles mais do que ninguém saberão bem quem tem a faca e o queijo na mão: as entidades financeiras, donos e senhores do que, estirando até o limite o argumento, poderíamos definir como bancocracia.

Nos totalitarismos do século XX o Estado tratava de controlar todos os aspectos da vida nacional, de maneira que ninguém era livre. Não somente para atentar de alguma maneira contra o regime mas mesmo tampouco para atuar em sua vida quotidiana de uma maneira que desagradasse à ideologia das autoridades. Como acabamos de ver, os projetos vitais dos que são agora jovens (que serão anciãos quando saiam de suas dívidas) estão submetidos a sua precária situação financeira (ao que se une sua precária situação laboral, a outra face da moeda deste assunto). Quer dizer, sua vida privada, seus sonhos ou sua capacidade de prosperar como pessoas vê-se atada a um totalitarismo de novo cunho. Porque já não é um Estado onipresente, um ditador caprichoso ou um governo tirano. Agora não são os poderes públicos que exercem o controle mas sim o mercado e os grupos econômicos de poder os que tem mais capacidade de decisão sobre a vida dos indivíduos. Pode ser esta inclusive uma situação pior que a anterior já que neste novo totalitarismo o verdadeiro poder, resguardado por trás do parapeito desse Estado que parece que manda, é mais diguso e portanto mais difícil de combater.

Dificuldade a que se acrescenta o fato de que nossos governantes ajudam a quem de verdade detenha o poder em exercer seu controle sobre a cidadania. E é que entre as hipotecas vitalícias, o futebol constante, os programas favoritos e a Fórmula 1 (nova devoção induzida pelas televisões) os grandes poderes econômicos, políticiso e midiáticos (se é que é correto usar o plural) estão tratando de vulgarizar os cidadãos que se não são potencialmente revolucionários (seria muito pedir na opulenta sociedade do bem-estar material) são potencialmente reivindicadores de seus direitos mais básicos. Abandonada, portanto, uma das mais básicas obrigações do poder público, defender os indivíduos dos abusos do mercado, ficam os Movimentos Sociais como únicos garantidores de fazer a pedagogia necessária para que pouco a pouco fiquemos por completo alienados e a grande Banca converta-se em nosso novo Grande Irmão. O orwelliano, é claro.


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