sexta-feira, 29 de julho de 2011

Arthur de Magalhães Vieira - O Último Mussolini


por Arthur de Magalhães Vieira


O golpe de Estado de 25 de Julho de 1943, que pôs termo ao chamado vinténio fascista foi, como afirmou o Duce, uma “obra-prima” conspiratória. Se o régio Estado-Maior tivesse preparado com a mesma perfeição as suas batalhas» decerto teria obtido vitórias estrondosas. Até Mussolini, de começo, se deixou iludir. Ao sair do palácio do rei, depois da entrevista em que este comunica o intento de o demitir, embora afirmando-lhe a sua amizade, o Duce foi conduzido a um quartel de carabineiros, apenas para o proteger de eventuais atentados, garantiram-lhe. Aí soube que Badoglio, na sua primeira proclamação, declarara «a guerra continua, e à uma hora da manhã, recebeu uma atenciosíssima carta do novo chefe do governo, assegurando-lhe que as medidas tomadas se destinavam a garantir-lhe a segurança pessoal e perguntando-lhe para onde desejava fazer-se transportar. Perante tudo isto, Mussolini chegou a acreditar que se estava a processar tão só uma «crise no âmbito do regime» em que a sua pessoa fora sacrificada mas não o Fascismo; e imaginou que a seu respeito haviam sido tomadas, na verdade, unicamente disposições destinadas à sua protecção pessoal.

Por isso, em resposta à missiva de Badoglio ditou o seguinte:

26 de Julho de 1943 uma da manhã.

1.º Dou os meus agradecimentos ao marechal de Itália Badoglio pelas atenções que me foram dispensadas.

2.º A única residência de que posso dispor é a da Rocca della Caminate, para que estou disposto a deslocar-me em qualquer momento.

3.º Desejo assegurar ao Marechal Badoglio, como recordação do trabalho comum realizado noutras alturas, que pela minha parte não só lhe não serão criadas dificuldades de nenhuma ordem antes lhe será dada toda a colaboração possível.

4.º Agrada-me a decisão adoptada de continuar a guerra junto aos nossos aliados, conforme é exigido pela honra e os interesses da Pátria e faço votos no sentido de que o êxito coroe a grave tarefa que o marechal Badoglio se dispõe a assumir, por ordem e em nome de S. M. o Rei, do qual fui, durante vinte anos, leal servidor e continuo a ser. Viva a Itália.

Este documento, que só prova a isenção e a nobreza de alma de Mussolini, pretenderam alguns pretensos historiadores apresentá-lo como uma adesão do Duce aos propósitos anti-nazis e anti-fascistas do período badogliano. A desmenti-los encontra-se, desde logo, a clara asserção de que era preciso continuar a luta ao lado da Alemanha nacional-socialista e, também, a referência explícita ao trabalho em comum levado a cabo com Badoglio, recordando assim qualidade de fascista filiado deste último.

E permita-se-me, desde já, uma anotação marginal, chamando a atenção para o facto de o Sr. George Blond, ex-jornalista de «Je Suis Partout», que encontra, ainda, acolhimento entre alguns dos nossos camaradas não se sabe bem porquê, em livro ignóbil, intitulado «L’Agonie de l’Allemagne» (escrito, decerto, para fazer esquecer o tempo em que o autor saudava, de braço estendido, no Congresso de Nuremberga, e elaborava a antologia de textos de Hitler, intitulada «Ma Doctrine»), dá divulgação à lenda que Mussolini, depois de libertado por Skorzeny, manifestara vontade de regressar à Rocca delle Caminate. Supomos que a confusão nasceu do facto de que semelhante desejo ter sido, na realidade, expresso na epístola que transcrevemos, datada de 26 de Julho e imediatamente posterior ao encontro com Vítor Manuel III. Além de não haver nenhuma prova séria de que houvesse sido feito a Skorzeny o pedido que mencionamos, é totalmente inverosímil que o Duce, a 12 de Setembro, quatro dias após a capitulação incondicional, com uma situação caótica e fluida em Itália, pensasse ainda em voltar para a Rocca delle Caminate, e especialmente que os seus intentos fossem descansar e afastar-se da política.

Fechemos, porém, este parêntesis. O que, de qualquer modo, nos interessa acentuar em particular, é que se o golpe de Estado do rei e de Badoglio conseguiu iludir Mussolini não admira que, também, desorientasse muitos outros fascistas. A asserção taxativa «a guerra continua», e a proclamação real com a garantia «não serão consentidas recriminações», ambas da tarde de 25, fizeram crer a muitos que não se tratava de derrubar o regime, mas, unicamente, graças a uma resoluta intervenção da coroa, de intensificar o esforço bélico. É certo que surgiram, na rua, manifestações anti-fascistas não reprimidas. Era lícito, contudo, nas primeiras horas, esperar que, sem violências excessivas, as autoridades acabassem por impedi-las, dentro do espírito do “mot d’ordre” real com a garantia «não serão consentidas recriminações». E a espíritos de boa fé repugnava vir aumentar a confusão e provocar, mesmo, começos de guerra civil, quando imaginavam que se ia lançar o país num esforço desesperado.


Assim, graças a essa hábil camuflagem, foram desorientados uns, acalmados os escrúpulos de outros, lançados terceiros numa expectativa ansiosa, enquanto os traidores trabalhavam (os Federzoni, Grandi, Bottai, etc.), os cobardes abstinham-se e os trânsfugas se passavam para o adversário. Numa palavra, com habilidade a que se presta homenagem “técnica” (habilidade para a ignomínia), foram aniquiladas as possibilidades de reacção do Partido Nacional Fascista. No dia 26, já o descalabro se mostrava geral entre os fiéis, privados de direcção, a milícia entregue já pelo último chefe Galbiati a um general nomeado por Badoglio, enquanto subia, progressivamente, o tom dos ataques nas praças públicas e na imprensa. Se não era mais possível ter ilusões sobre a hostilidade do Governo às instituições vigentes e sobre o seu absoluto desinteresse pelo esforço de guerra, também não era mais possível tentar qualquer contra-ataque. Tudo se esboroava. Em 28 e 29 vieram as grandes medidas que consagraram a derrocada do vinténio. A 28, a dissolução do Partido, do Grande Conselho, do Tribunal Especial para defesa do Estado. A 29 extinção da Câmara dos Fáscios e das Corporações.

Essas disposições ultra-inconstitucionais foram o coroamento legal, ou melhor ilegal, do golpe de Estado que tirava os seu últimos véus e punha a nu, irrefragavelmente, a sua natureza hedionda (que, aliás, começou a evidenciar-se com a prisão, hipocritamente disfarçada do chefe do Governo ainda em exercício). Com o território pátrio invadido o “coup d’état badogliano” visava, exclusivamente, abater o regime fascista. Era acto de facciosismo partidário com a nação em plena batalha. Modificar, por meios irregulares, o poder licitamente constituído, em tempo de guerra costuma ser considerado traição. E por isso foi traição, nesse sentido, a atitude de Badoglio e do rei. E, ainda, traição porque os seus autores e apaniguados eram fascistas filiados e, durante anos e anos, tinham recebido benesses do regime. Simplesmente o pior está por narrar.

Mussolini, que permaneceu enganado por mais tempo graças ao isolamento em que o mantiveram e à triste comédia da partida iminente para a sua residência particular, no dia 28, ao ver que não o conduziam para a Rocca e o internavam na ilha de Ponza, deu-se perfeita conta nas suas próprias palavras «de ter sido vítima de uma miserável conjuração… Teve a convicção que tudo aquilo conduziria à capitulação e à sua entrega ao inimigo». E não se enganava em nada. Enquanto multiplicavam os seus protestos de fidelidade à aliança com o Reich, os dirigentes italianos negociavam secretamente com os anglo-americanos. E, a 8 de Setembro, consumou-se nova traição e acaso a mais vil de todas. Foi anunciado o armistício de Cassibile, que consagrava a rendição incondicional, e incitava o exército italiano a fazer uso das armas contra os aliados da véspera. A reacção alemã mostrou-se fulminante e mal se aproximaram os blindados germânicos dos arredores de Roma, Vítor Manuel, a família, Badoglio, os ministros, tomados de pânico, fugiram, precipitadamente, deixando a população da cidade inerme e abandonada, indo refugiar-se em Brindisi entre as tropas inimigas a quem tinham entregue a Itália.

Não é inútil, já que alguns tontos compararam Badoglio a Pétain, traçar um paralelo entre os dois armistícios. Ao passo que o governo legítimo do marechal de Verdun, depois de avisar lealmente os ingleses (que não podiam fornecer o mínimo auxílio), celebrava um acordo em que se conservava o Estado francês e a sua soberania, salvava a esquadra e o império, e preservava uma parte do território da ocupação, a rendição incondicional de Cassibile em 1943 era a entrega total aos vencedores do Estado italiano, cuja soberania desaparecia integralmente. Todo o território que estes conseguissem ocupar, podiam licitamente fazê-lo. A esquadra, quase intacta, foi-lhes abandonada. E, por sobre tudo isto, vergonhosamente rasgados os pactos com a Alemanha cujas tropas lutavam na península, iludidos sem pudor os chefes do III Reich, por um governo ilegítimo, fruto de um golpe de Estado, o qual, pela sua incrível conduta, justificava, à face do direito internacional, que a Wehrmatch tomasse conta das parcelas do solo italiano ainda livres de elementos anglo-americanos. Em 1940, em França, foi salvo o que podia ser salvo e sem desonra para ninguém. Em 1943, em Cassibile, a desonra foi acompanhada do mais espantoso acto de abandono voluntário que a história tem presenciado.

Conhecem-se os acontecimentos subsequentes à rendição. As divisões italianas, surpreendidas com o volte-face, sem comando supremo, deixam-se desarmar. Na audiência do poder central, o caos ganha várias das principais cidades. A 12, um golpe de teatro. Pára-quedistas sob o comando de Otto Skorzeny libertam o Duce, prisioneiro no Gran Sasso (após ter estado em Ponza e na Madalena), e que, segundo as cláusulas do armistício, devia ser entregue, como criminoso de guerra, às potências democráticas. A noite de 12 passou-a, Mussolini, já em Viena. Ao meio-dia de 13, novo voo para Munique. Em 14, acolheu-o o Führer no seu Quartel-General. Em 15, o Duce redige as suas primeiras folhas de ordens, publicadas a 16, em que anuncia retomar a suprema direcção do Fascismo em Itália, nomeia Pavolini secretário provisório do Partido Fascista Republicano e dita as primeiras providências para que a luta seja retomada, ao lado das divisões alemãs, contra o inimigo comum.

Também a propósito disto se inventou a lenda de que Mussolini só regressou ao seu posto de combate depois de enérgicas pressões de Hitler. É, por exemplo, a tese do Sr. Georges-Roux, na sua biografia do estadista italiano. Opõe-se a ela, evidentemente, em primeiro lugar a celeridade com que as novas disposições do Duce foram tomadas: encontros com o Führer a 14, redacção de folhas de ordem a 15. Em segundo lugar, o próprio Sr. Deakins no seu livro insuspeitamente parcial contra os vencidos a brutal friendshis reconhece que as entrevistas entre os dois chefes decorreram em atmosfera de grande cordialidade. Em terceiro lugar, no volume assinado e avalizado pela viúva de Mussolini, está escrito que o Duce lhe declarara, antes de falar com Hitler, que tencionava recomeçar desde o princípio. Claro que o Sr. Georges Roux não se embaraça nada com este derradeiro argumento porque, com naturalidade, coloca as afirmações de Mussolini à esposa em momento posterior à troca de impressões com Hitler. E como o criador do Fascismo, além da fidelidade aos pactos, invocara, para justificar a sua decisão de recomeçar, que conseguiria também, desse modo, evitar as justas represálias alemãs devidas à traição da Itália, invertendo calmamente a ordem cronológica dos eventos o sr. Georges Roux deixa vincada no espírito do leitor a impressão que foi após ter estado com Hitler que o Duce temeu a vingança contra o seu povo. É com processos destes que os anti-nazis escrevem a história.

A verdade, no entanto, é que Mussolini jamais hesitou em retomar o seu lugar de comando e de luta mal se encontrou em liberdade. E em 16 de Setembro de 1943, teve início um dos períodos mais caluniados do Fascismo, mas que foi, indiscutivelmente, um dos seus mais altos e belos momentos.

Tudo ruíra em redor. As esperanças de vitória pareciam já poucas. A indiferença, o duplo jogo campeavam. A máquina burocrática decompusera-se e não havia mais um poder soberano, nem de facto nem de direito, depois da rendição incondicional. Reinavam, quais senhores absolutos, o desânimo e o desespero.

No entanto, à voz do Duce, ergueram-se, aqui e além, grupos de homens dispostos a travar a batalha final, homens para quem a fidelidade à palavra dada e à ideia não eram vãs imagens retóricas e que procuravam, com o seu esforço e o seu sangue, resgatar a miséria a que tinha sido arrastada a Pátria. Não se ergueram grandes massas ao lado do Duce, porque as grandes massas preferem os triunfos fáceis ao risco, à aventura e ao sacrifício. Mas, de toda a parte, punhados de valentes acudiram para a reconquista e o contra-ataque. Intelectuais, soldados, velhos militantes do Fáscio e jovens de menos de 16 anos, sacerdotes até, escutaram o chamamento de Mussolini que lhes parecia o chamamento mesmo da dignidade e da coragem. E, pouco a pouco, por entre inúmeras dificuldades, depois da ausência de um Estado italiano, o Estado italiano ressurgiu, com uma soberania reconhecida por outras nações, em especial a Alemanha, com uma moeda própria, com uma legislação independente, com Forças Armadas autónomas, cujo chefe, Graziani, chegou a estar à frente da Armata Liguria tendo às suas ordens divisões da Wehrmatch.

Entretanto, no Sul, onde se encontravam Badoglio e Vítor Manuel, as leis não só tinham de obter a concordância dos ocupantes e que seria mais ou menos uma situação de protectorado mas até recebiam a promulgação de um qualquer general inglês ou americano, sinal certo da desaparição do mais ligeiro vislumbre de soberania; havia uma moeda especial, imposta pelos invasores; e depois da badogliana declaração de guerra à Alemanha (quando o argumento para a rendição incondicional fora que a Itália não podia mais lutar) os governos dos Srs. Churchill e Roosevelt comunicaram, imediatamente, que isso em nada implicava alteração das cláusulas do armistício de Cassibile. Não podia ser mais declarada a situação de vassalagem e submissão ao estrangeiro.

Por isso, a primeira grande razão de ser da República de Saló foi, exactamente, terem desaparecido, em abjecta obediência ao inimigo, os derradeiros vestígios de soberania política da Nação. Tratava-se do único Poder legítimo na Itália, porque era o único Poder italiano que aí existia. Para além disso, contudo, perfilava-se, igualmente, o grande imperativo moral da Fidelidade fidelidade aos tratados solenemente jurados, fidelidade aos princípios de sempre. Aqueles que, animosamente, se juntaram, em querendo, em torno de Mussolini, eram os que se recusavam a aceitar a felonia de um marechal de Itália que, na altura em que repetia por sua honra que continuava ao lado do Eixo, pactuava com o adversário a entrega do país; eram os que sentiam como vexame na própria carne os vitupérios, as calúnias, os insultos que os jerarcas, cobertos de honrarias e benefícios durante o vinténio, lançavam sobre um glorioso período da história e sobre o homem a quem deviam quase tudo; eram os que se envergonhavam com a cobardia, a hipocrisia, a indiferença, o egoísmo dos seus compatriotas e, para redimirem o nome do povo, corriam, voluntariamente, para as posições arriscadas, oferecendo-se e imolando-se.

A República Social Italiana, manteve sempre, com dignidade exemplar, a sua continuidade ideal em relação ao passado do Fascismo, embora não deixasse de apontar os erros do período anterior e de atacar, com veemência, e condenar os grandes barões do regime que dele se serviam em vez de o servir.

República Social Italiana era porque a monarquia não existia mais, se auto-dissolvera. Por esse motivo, monárquicos continuaram a ser, como o catedrático Carlos Alberto Biggini; não tiveram um minuto de hesitação e colocaram-se resolutamente ao lado do Duce. Mas, para a República Social Italiana, o ser república não constituía o essencial. Disse, magnificamente, Mussolini, no discurso do Lírico de Milão (16 de Dezembro de 1944): «Não faltaram… os elementos com a doença do oportunismo ou, talvez, em estado de confusão mental, que perguntaram se não seria mais hábil eliminar a palavra “fascismo” para pôr o acento, exclusivamente, na palavra “república”. Repeli, nessa altura, como repeliria hoje, essa sugestão inútil e vil. Teria sido um erro amainar a nossa bandeira consagrada por tanto sangue e fazer circular quase por contrabando as ideias que constituem a palavra de ordem na batalha dos continentes… Denominando-nos de fascistas, hoje e sempre, e consagrando-nos à causa do Fascismo, conforme, desde 1918, até hoje temos feito, depois dos últimos acontecimentos imprimimos novas directrizes à nossa acção quer no campo político quer social… Do ponto de vista social, o Fascismo republicano não é senão o prolongamento lógico dos anos esplêndidos da Carta del Lavoro à conquista do Império.»

E se, nos pontos programáticos de Verona, redigidos pelo Duce e aprovados pelo Congresso do Partido, nessa cidade celebrado, há disposições de carácter efémero e circunstancial, não há nenhuma mudança importante no que é substancial, nem até nenhuma transigência com as correntes, acaso bem intencionadas, que preconizavam um pouco de democratização. A esse respeito, o ponto 5 é explícito: «A organização a quem pertence a educação política do povo italiano é única. No Partido, ordem de combatentes e crentes, deve encontrar-se um organismo de absoluta pureza política, digno de ser o guarda da ideia revolucionária.»

Também as leis de socialização não pertencem à natureza universal do Fascismo, devendo medidas análogas ser deixadas ao sentido das conveniências nacionais dos governantes legítimos. Simplesmente, porque não somos pára-raios da burguesia nem do capitalismo, em nada tais disposições nos escandalizam ou chocam. Em todo o caso, o que mais importa na República Social Italiana é o «ethos» que a animou e que galvanizou os melhores italianos. «Ethos» de sacrifício do particular à causa universal do Estado, de absoluto desdém das contingências e circunstâncias quando se tratava de cumprir o dever, em prol do comum. No meio de dezenas de milhões de cépticos, representantes do célebre estado de espírito que levava um diplomata a considerar que era um axioma dizer “L’Italie volera au secours du vainqueur”, rodeados da mais cega das incompreensões, tombando em cobardes emboscadas, os militantes da República de Saló seguiam impávidos e firmes. Intelectuais da craveira de um Gentile, um dos maiores filósofos do nosso século, assassinado pelos partigiani, de um Coppola, de um Ercole, de um Soffici e tantos outros, soldados que se recusavam a aceitar a derrota e alguns dos quais, desde o dia 8 de Setembro, se tinham colocado ao lado dos aliados para prosseguir o combate, consoante sucedeu com a célebre Decima Flotiglia Mas (Decima, Flotiglia nostra che beffasti l’Inghilterra… Vitoriosa ad Alessandria Malta, Suda e Gibilterra), velhos políticos como o senador Rolando Ricci e ex-secretário do partido comunista Bobacci, rapazes completamente desconhecidos, a todos os ligava uma mesma vontade e uma mesma fé vontade de resgatar o opróbrio da Itália, fé na nova ideia e nos destinos da Europa.

Chegaram ao número de 780.000 os exércitos da República Social, desde a Décima já referida, até ao grupo blindado Leonesa, ao Contro Guerriglia (Cogu), à Guardia Nazionale Republicana, às divisões treinadas nos läger San Marco, Littoria, Italia, Monterossa. Lembro-me de ter lido, já há alguns anos, versos que eram cantados pelos homens dessas divisões, de uma poesia profundamente trágica pelo seu estoicismo. Diziam que eles que bem se sabiam solitários e que, até, as mulheres preferiram guardar os seus sorrisos para os emboscados e velhacos mas que, mesmo assim (as maiorias, em todos os países, nas horas de confusão e desalento, são cobardes e oportunistas) também houve as que, braço estendido, se iam alistar nos centros das auxiliaris do exército. Muitas delas foram, depois, massacrados e os seus cadáveres contam-se entre os dos trezentos mil fascistas que juncaram as ruas e praças, assinalando que a era da liberdade tinha principiado.

Durou dois anos, ou quase, a República de Saló e ainda as suas tropas se batiam, na altura em que Vietinghoff, pela Wehrmacht, e Wolff, pelos SS, desobedecendo às ordens de Hitler e traindo a sua pátria, pactuaram na Suíça a rendição das forças alemãs na península itálica, que começaram a retirar sem combater. O próprio Duce seguia para o último reduto de Valtelina, no momento em que foi aprisionado e ignobilmente assassinado.

Quem tiver o culto da dignidade, do aprumo, da coragem, não pode deixar de sentir veneração profunda pela arrancada sem esperança dos fiéis do último Mussolini, o Mussolini que, deliberadamente, enveredou pelo rumo do perigo, da amargura, da impopularidade, preferindo quebrar a torcer e mostrando-se, na adversidade do seu dramático e respeito do que nas horas triunfantes das vitórias e dos êxitos estrondosos.

Conforme escreveu Julius Evola (que também esteve com a República Social): «O valor do segundo fascismo está no seu aspecto combatentístico e legionário; como já muito justamente se disse, talvez pela primeira vez na… história, número importante de italianos escolheu, resolutamente, a vida do sacrifício, da derrota, em nome do princípio da fidelidade a um chefe e à honra militar. O seu valor esteve, de uma forma geral, na disposição heróica a lutar ainda que por posições perdidas já.

Neste plano… deve reconhecer-se a continuidade revolucionária entre o primeiro e o segundo Fascismo e tomar-se, deste último, a palavra de ordem ideal. De facto, dado o ambiente e as forças predominantes na Itália e no mundo, ter a audácia das “afirmações soberanas”, ser capaz de pronunciar-se em favor… do conteúdo… tradicional do Fascismo, não pode significar, hoje, senão um testemunho de vocação idêntica à dos combatentes do Norte: defender uma ideia e manter posições mesmo que sejam posições de antemão perdidas ou, melhor dizendo, mesmo que seja em extremo problemático que quantos estão, agora, de sentinela, pela noite fora, possam vir a encontrar-se com os que surgirão no novo amanhecer.»

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.