quinta-feira, 30 de junho de 2011

Poesia e Política

por Juan Pablo Vitali

É inevitável que a política atual careça de uma dimensão poética, porque é parte do materialismo que domina-a. Não há espiritualidade quando o que busca-se é ocupar posições para benefício próprio. Posições manejadas por outros, que são os que exercem o domínio real sobre as condutas, e sobre as coisas. Em lugar do antigo sentido de pertencimento, de luta espiritual, rege a ficção numérica, o indiferenciado, o discurso igual, sob o olhar do poder material cru.

As condutas desenvolvem-se longe dos valores, dos princípios, do elevado, do que encontra-se mais além do meramente material. Por isso, hoje, poucos movimentos políticos atrevem-se a reivindicar para si uma verdadeira dimensão poética. Isso seria ir contra o tempo, contra tudo que a política atualmente pressupõe: o superficial, a submissão ao que os meios de comunicação e os políticos chamam consenso.

Porém ainda que fosse aceite formalmente a poesia, não seria fácil dar com poetas que entendam e sintam a dimensão poética da política. Possivelmente a realidade tenha-os destruído, porque eles resultam duas vezes malditos, uma vez por serem poetas, e outra por responderem a uma cosmovisão elevada, unívoca, suprior. Somente serão promovidos publicamente como poetas aqueles que isolam a poesia do importante, os que respondem ao sistema, disfarçados de diferentes, de sensíveis, de artistas, porém que em última instância representam sempre um papel escrito sob medida por seus mandantes.

Apesar de tudo, não existe outra poesia que aquela que expressa o superior. O demais é um exercício menor, decorativo, que descreve-nos os problemas psicológicos, de patéticos mercenários a serviço da decadência. Porém o elevado, o que é profundo e verdadeiro, ainda isolado sob camadas e camaras de uma realidade adversa, continua sendo verdadeiro.

Sabemos que na antiguidade a linguagem poética tinha outro valor. Não é um segredo que o homem tenha mudado, que tenha apequenado-se, limitando-se a sua dimensão mais grosseira, menos espiritual. Com argumentos falaciosos, derrubaram-se os limites que impediam a descida ao abismo, cortaram-se um a um os laços com o que é elevado, superior, espiritual, com tudo o que faz-nos ser homens, e não sub-homens, meras feras sem espírito, sem cultura, sem identidade, carentes de uma ordem que enfrente a destruição do valioso.

O idioma poética tornou-se incompreensível e desnecessário para o homem atual, do mesmo modo, para os movimentos políticos que buscam consenso, em um meio que valoriza somente o superficial, o material, o prescindível, o capricho, o submetido ao poder econômico, tecnológico e financeiro do supercapitalismo.

O que atualmente denomina-se poesia, é em geral uma forma a mais de degradação. É-o pelo fundo e pela forma, ambos necessários para que exista a criação poética. E ao referir-me à forma, não penso nas rígidas estruturas estéticas de um determinado tempo e lugar, mas sim ao modo apropriado em que deve expressar-se o elevado, que deve ser também elevado, ainda que como é natural, não faça-se sempre do mesmo modo. Porém nada disso é possível sem um espírito de acordo.

A poesia é maldita, quando responde a uma cosmovisão contrária ao atual sentido do mundo, quando seus símbolos expressam uma militância superior, uma grande luta, não do homem abstrato, ou do mero animal numérico, que não pode levá-la a cabo por estar fora de suas possibilidades, mas sim do homem superior, com um espírito elevado, com uma personalidade, orgânico à ordem política justa que garanta sua identidade, seu pertencimento, através do qual sua alma imortal relaciona-se com o universo desde sua morada terrena.

Nesse sentido, nossos poetas responderão sempre ao arquétipo do poeta-guerreiro, porque são parte de uma luta que é em si mesma poética. Não existe entre o simbolismo transcendental do poema e a ação combatente da espada, mais que uma distinção de forma. Animadas ambas por um espírito elevado, orgânico, próximo ao núcleo mais denso da luz, da compreensão e da ação.

O poeta somente pode compartilhar seu destino com os de sua classe, que podem não ser outros poetas, porém devem levar em sua consciência a dimensão poética das coisas. Quando um movimento político representa algo transcendental, busca naturalmente integrar-se, encontrar-se com essa dimensão. Ela dar-lhe-á palavras ao espírito, um verdadeiro nome, uma verdadeira voz. Então, por mais que o sistema cubra-os com camadas e camadas de anonimato, os símbolos poéticos transmitir-se-ão, de espírito a espírito, enquanto sobrem homens habitando uma mesma pátria espiritual, com uma identidade e uma alma, com uma essência primordial que identifique-os, e remeta-os a um território mais além do quotidiano, do que propõe o vazio, a nivelação, o percurso à angústia mediante uma lógica falsa.

A poesia não é para o sub-homem, mas sim para o super-homem, é para o habitante de uma nação mítica, primordial, mas além do vazio quotidiano. A poesia expressa mediante símbolos os caminhos do outro lado das coisas. É um mapa traçado por homens que assumem a militância outorgada pelos deuses, e que em ocasiões, torna-se insuportavelmente solitária. Acaso a imagem mais clara do supracitado seria Ezra Pound, encerrado em sua jaula de ferro rumo ao manicômio, sendo possivelmente o mais são de todos nós. Possivelmente o único são.

Não é a quantidade de leitores nem a publicidade que faz um poeta, mas sim a capacidade de expressar uma realidade superior, que perdura enquanto existe o continente mítico a que pertence sua estética. A alma exerce assim seu domínio e aspira a permanecer, a justificar sua passagem pelo mundo, seu pertencimento ao supra-mundo. Essa consciência é o que diferencia os homens superiores, e às vezes converte-os em líderes, em heróis, em santos, em poetas. Essa direção vertical coloca-nos em um eixo ascendente de consciência, e leva-nos a viver o autêntico, o elevado, o transcendental, o sagrado.

Para esses homens escreve um poeta; para esses, e para nenhum outro.


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