sexta-feira, 24 de junho de 2011

Eduard Alcántara - Pode-se Iniciar um não-Indo-Europeu?

por Eduard Alcántara


Gostaríamos que as reflexões que vertemos em continuação e que correspondem a vários intercâmbios de missivas que protagonizamos na Rede com outros tantos internautas não provoquem em nenhum leitor a errônea idéia (que poderia vir provocada, em parte, pelo próprio título do presente escrito) de que a Iniciação supõe uma experiência de fácil acesso e de seguimento vivencial por parte do comum dos mortais. Essa frivolidade suporia adquirir uma idéia espúria do que representa este processo de Palingênese ou renascimento interior à realidade sutil e, em última instância, ao Incondicionado e Imperecedouro.

Fique, de antemão, claro que quanto maior é o grau de materialização e/ou de subjugação ao ínfero, às forças irracionais, aos baixos impulsos e instintos e aos sentimentos desenfreados pelos quais atravessa o homem em um determinado período do devir da humanidade, menor é, em correspondência contrária, a possibilidade de encontrar indivíduos aptos, conscientes e dispostos a adentrar-se no que conhece-se como Iniciação. E não esqueça-se, em relação a isto, que o atual e dissoluto período do mundo moderno pelo qual transitamos representa a etapa mais dissolvente e deletérea - a crepuscular ou obscura - da decadente idade de ferro ou do Kali-Yuga a respeito da qual já punha-nos em alerta os textos sapienciais e sagrados da Antiguidade.

Como não é o tema central dessas linhas o falar sobre o conteúdo essencial do processo iniciático remetemo-nos a nossos "Debates Metafísicos (II): A Iniciação", caso alguém deseje ler algumas reflexões mais ao redor dessa questão.

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Segundo muitas posturas defendidas desde o campo da Tradição, as raças não boreais (não descendentes de Hiperbórea; isto é, não-indo-européias) poderiam ser o resultado da involução, motivada por decadência espiritual, de raças similares à nossa que emanaram a partir do Princípio Supremo em humanidades ou ciclos humanos anteriores ao atual; isto é, em Manvantaras anteriores ao nosso (um Manvantara, segundo a ciclologia sagrada indo-ariana estaria formado pelas Quatro Idades das quais falava Hesíodo, ou pelos Quatro Yugas aos quais fazem referência os textos védicos). Por isso (por esta decadência que remonta-se a períodos tão remotos) as outras raças teriam chegado a uma fase de bestialização mais grosseira do que a que inclusive nossa raça atravessa e, portanto, teriam vetado o Despertar ou Iluminação.

Somente poder-se-ia fazer alguma ressalva em relação à raça amarela. Determinados indivíduos de dita raça poderia chegar à Gnose do Absoluto e à identificação ontológica com o Princípio Supremo porque, apesar de seus traços basicamente mongoloides (fenotipicamente as outras raças são dominantes, quando se realizam cruzamentos, em relação à boreal), em seu interior subsistiria todavia uma grande quantidade de aporte genético indo-europeu devido ao sangue que povos boreais como, por exemplo, os tocharianos teriam aportado em povos como o chinês. Todavia entre os ainu do Japão pode-se observar muitos traços físicos tipicamente indo-europeus; ainda que este caso seja matizável desde o ponto de vista espiritual. A raça amarela teria degenerado a partir de seu "aparecimento" no Manvantara anterior ao atual, pelo que sua queda não teria chegado a tal nível como ao que chegaram outras raças (como a negra ou a semita) cuja "aparição" dataria de Manvantaras ainda mais distantes no tempo.

De toda maneira, apesar de tudo o dito a favor da raça amarela, hoje em dia os indivíduos mais aptos espiritualmente somente poderiam chegar a iniciar-se no que o mundo grecorromano considerou como pequenos mistérios e a tradição hermético-alquímica denominou como albedo ou obra ao branco, isto é, somente poderiam chegar a experimentar essa espécie de clarão espiritual difuso de que foram, por exemplo, sujeitos passivos os grandes místicos espanhóis do Século de Ouro (São João da Cruz, Santa Teresa de Jesus, etc), ou, no máximo, unicamente seriam capazes de Conhecer a realidade composta pelas forças ou númenos sutis cósmicos porém sem ter a possibilidade de atuar sobre as causas últimas que encontram-se por trás da manifestação de ditos numens e por trás de suas diferentes dinâmicas. Longe ficará aos extremo-orientais mais aptos a possibilidade de iniciar-se nos grandes mistérios ou de chegar ao rubedo ou obra ao vermelho, isto é, de chegar ao Conhecimento nítido do Princípio Supremo e a sua identificação ontológica com Ele.

Não esqueçamo-nos de que uma pessoa como Gautama Siddharta, o Buda, era de extração racial indo-européia, já que pertencia à família dos Shamkya, que era uma das famílias com mais aura de valentia e mais aguerridas dentre as que formavam parte da casta dos shatriyas ou guerreiros. Recordemos que tanto brâmanes, shatriyas como viayshas eram castas descendentes dos conquistadores indo-europeus da Índia.

Sobre a questão de que em qual grau de transformação interior podem chegar, metafisicamente falando, alguém pertencente ao âmbito do Islã transcrevemos, a continuação, algo que escrevemos em outra época em um artigo intitulado "O Islã e a Tradição":

Não está correto aquele que quereria fazer o Islã partícipe de um tipo de Espiritualidade ativa, argumentando que em seu seio desenvolveram-se correntes de caráter esotérico e, portanto, de genuína transubstanciação interna da pessoa. E não está correto porque sempre tratou-se de correntes que, por trás da cortina de uma aparente obediência muçulmana, eram portadoras de uma cosmovisão e de objetivos alheios aos da religiosidade oficial existente nos territórios nos quais tomaram corpo. E tomaram corpo precisamente em zonas de povoação de origem eminentemente, ou consideravelmente, indo-européia nas quais poucos séculos antes o Islã ainda não havia feito ato de presença sob a forma de invasão militar e nas quais a fé maometana não teria conseguida ainda varrer alguns dos restos de uma Espiritualidade Superior e Solar que teriam subsistido até o momento de dita irrupção militar.

E referimo-nos à zona ocupada da Península Ibérica - Al-Andalus - e à Pérsia. E como alguns de seus mais destacados representantes ressaltaríamos o mestre sufi murciano Ibn Arabí (séculos XII e XIII) e ao também sufi persa Al Hallaj (séculos IX e X); o qual como dado significativo, foi torturado e executado por sair da ortodoxia marcada pela religião muçulmana (isto é, por transitar pela via Olímpica do Despertar e do Conhecimento do Absoluto). Igualmente a Pérsia foi testemunha da aparição de outra ordem de natureza esotérica e iniciática: a dos ismaelitas.

É bem significativo que estas veias de Espiritualidade Superior não desenvolveram-se no seio de etnias de extração não-indo-européia, pois temos de ter bem presente que povos como os semitas- entre os quais se expandiu majoritariamente o Islã no início - sempre aderiram, e seguem aderindo, a um tipo de religiosidade passiva e lunar; e isto é devido a sua idiossincrasia particular e a suas nulas potencialidades para empreender vias iniciáticas de elevação em direção a uma Consciência Superior."

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Para demonstrar a suposta concordância que mostraria o Islã com os parâmetros do que entendemos por Tradição há aqueles que, desde posições tradicionalsitas porém com óticas - a nosso entender - erradas, não duvidam em afirmar que o pertencimento a uma raça física determinada não teria importância à hora de calibar-se a possibilidade de que alguém possa, por exemplo, chegar a ser um Iniciado.

Quem assim pensa tenta demonstrar seus posicionamentos incidindo em que:

Não existem determinismos para o Homem Verdadeiro: para o Senhor de Si Mesmo (postura da qual compartilhamos).

Nem determinismos históricos: o determinismo histórico que postula que a história faz a si mesma: tese + antítese = síntese; ou igual a novas mudanças históricas - dialética hegeliana - (também nós repudiamos a suposta inevitabilidade do chamado determinismo histórico).

Nem determinismos religiosos concretizados em um deus onipotente que faz e desfaz a seu bel-prazer e sem que, fatalmente, o homem-animal possa fazer nada para traçar seu próprio rumo (também estamos de acordo com isso).

Nem determinismos ambiental-educativos que condicionem totalmente o caminho a escolher e seguir pelo homem - o "capaz de salvar-se ou condenar-se", como diria José Antonio Primo de Rivera (seguimos aderindo-nos a estas afirmações).

Nem determinismos cósmicos na forma de um Destino que, qual se de um fatalismo ineludível tratasse-se, tudo tem irremissivelmente programado de antemão (até aqui nada temos que objetar).

Nem determinismos raciais que condicionem a via a seguir pelo ser humano.

E é aqui (nesta última afirmação), ao contrário, onde estamos convencidos de que equivoca-se, pois uma coisa é o ser fiel e piedoso devoto de qualquer tipo de religião e outra coisa é poder seguir o árduo caminho da transubstanciação interna que supõe a via iniciática. E estamos convencidos disso porque defendemos a certeza de que não é que a raça signifique um falso determinisom na hora de recorrer à via que aspira a ascender ao Despertar do qual fala o budismo, mas sim que, o que, ao contrário, devemos postular neste âmbito é outra diferente certeza e esta é a que de que tão somente exista uma que pode sim (ainda que poucos de seus membros proponham-se a isso) estar por cima destes determinismos mutiladores da dimensão transcendente do homem e esta raça não é outra que a indo-européia. Esta sim tem a opção de escolher entre recorrer a via dos servos ou a via dos Senhores de Si Mesmos. Esta sim que pode demonstrar que, se assim o escolher, para ela não existem determinismos amputadores.

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