sexta-feira, 10 de junho de 2011

O ditador e a multidão


Por António Ferro

Emil Ludwig, escritor das esquerdas, cujo feroz individualismo o forçou a abandonar a Alemanha de Hitler e de von Papen, não teve repugnância em falar com Benito Mussolini durante treze dias para dar aos seus leitores e à sua época um retrato vivo, definitivo, do grande escultor do povo italiano. Nessas entrevistas, recheadas de belas atitudes e de frases lapidares, o biógrafo de Napoleão e de Bismarck, adversário de Mussolini, não esconde a sua irresistível admiração pelo homem que tem diante de si e não desce a insinuações ou insultos quando discute com ele ou quando não concorda com a sua ideologia. Esse pedaço de História, realizado habilidosamente sem a perspectiva da História, oferece-nos vários ensinamentos e é uma grande sementeira de sugestões e de aplicações. Limito-me hoje, porém, a sublinhar e a comentar as relações constantes, inteligentes, dinâmicas, entre Mussolini e o povo, entre o ditador e a multidão.

Na sua terceira audiência, antes de começar o fogo vivo das perguntas, Ludwig teve ocasião de assistir a uma grande manifestação fascista. Vinte mil pessoas acumulavam-se, congestionavam-se, na Piazza Venezia e exigiam que o Duce chegasse à janela, que lhes falasse, que lhes arremessasse um minuto da sua vida, da sua força… Mussolini, convidando Ludwig a acompanhá-lo, debruçou-se sobre o povo, depois de delirantemente aclamado, e pronunciou um discurso breve, sacudido, nervoso, trinta palavras estimulantes, vigorosas, trinta vozes de ginástica, daquela ginástica indispensável aos sentimentos e às ideias condutoras…

Quando fechou a janela e retomou o seu lugar, atrás da larga secretária que o defende sempre, que o isola, Ludwig lembrou-lhe algumas palavras cruéis, que ele escreveu, outrora, sobre a multidão, palavras fulminantes, contidas, por exemplo, nesta formula: «Não acredito que a multidão tenha quaisquer segredos a revelar-me».

Mussolini, esgrimista notável, com aquela inteligência rápida, instantânea, que distingue a sua personalidade combativa, teve esta resposta lapidar, este mandamento indispensável da lei dos ditadores, mola deste artigo que julguei oportuno escrever:

— A multidão, para mim, não passa dum rebanho de carneiros, enquanto não está organizada. Não sou contra a multidão. Nego, apenas, que ela se possa governar por si própria. Mas se a dirigem, há que dirigi-la com duas rédeas: o entusiasmo e o interesse. Quem emprega apenas urna destas rédeas, encontra-se numa situação difícil. O aspecto político e o aspecto místico — há que afirmá-lo — condicionam-se reciprocamente. O místico sem o político é árido. O político sem o místico desfolha-se ao vento das bandeiras… Eu não posso exigir à multidão uma vida incómoda: essa exigência pode ser feita apenas a uma pequena minoria. Hoje limitei-me a pronunciar algumas palavras. Milhões de pessoas, amanhã, poderão lê-las, mas aqueles que estavam lá em baixo, na praça, acreditarão mais profundamente no que ouviram com os seus ouvidos, ia quase dizer com os seus olhos… Todos os discursos à multidão têm o duplo fim de esclarecer uma situação e de sugerir alguma coisa ao povo…

Alguns minutos depois, Ludwig insiste: — E para que serve a música? Qual o papel das mulheres, dos gestos, dos emblemas?

Resposta ¡mediata e vibrante de Mussolini:

— São os elementos de festa. A música e as mulheres tornam a multidão mais leve e maleável. A saudação à romana, todos os cantos e fórmulas, as festas e as datas comemorativas são indispensáveis para conservar o impulso a um movimento…

Benito Mussolini, técnico de ditaduras, disse a verdade a Emil Ludwig e a lição merece ser ouvida e aproveitada.

As ditaduras, abolindo o Parlamento, restringindo provisoriamente a liberdade da imprensa, devem procurar, para se prolongarem, o contacto directo com o povo, o contacto sem intermediários, sem falsos representantes, que o são apenas, muitas vezes, porque representam, porque são péssimos actores… O ditador que procura o povo, que o domina, vibrando com ele, que ausculta, constantemente, as suas aspirações, as suas tristezas e as suas alegrias, não pode nem deve ser acusado de tirano. O que se ataca, precisamente, nas ditaduras é o livre arbítrio, o alheamento da massa, a supressão daqueles órgãos que canalizam a vontade do povo, a vontade da Nação, que a conduzem aos governantes. Mas se o ditador se substitui, transitoriamente, a esses órgãos, se vai ele próprio junto da multidão, junto dos homens, indagar das suas necessidades, dos seus anseios, dos seus sentimentos, a acusação cai pela base, porque deixa de haver livre arbítrio, opressão, despotismo, para haver amor, fraternidade, comunhão…

Mas não é esse o único aspecto que justifica o pensamento de Mussolini e defende o contado directo do ditador com o povo. A fé não é a treva, mas a iluminação. Para a segurar, para lhe dar um sentido, para a desenvolver numa progressão contínua, há que cultivá-la, há que dinamizá-la, «há que conservar o impulso ao movimento», ao movimento da fé… As paradas, as festas, os emblemas e os ritos são necessários, indispensáveis, para que as ideias não caiam no vazio, não caiam no tédio… A supressão forçada, necessária, de certas liberdades, de certos direitos humanos, tem de ser coada através da alegria, do entusiasmo, da fé. Pobres das ideias sem calor, pobres das ideias que não crepitam… Podem ser muito belas, muito justas, mas apagam-se e morrem, se não houver uma tenaz a estimulá-las constantemente, a ateá-las…

Evidentemente que uma ditadura séria, sóbria, trabalhadora, não pode passar a vida a narcisar-se, a organizar manifestações, desfiles, cerimónias de apoteose. O homem que se isola, heroicamente, no seu gabinete, diante da sua Pátria, para lhe refazer o Tesouro, para a cortar de estradas, para a munir de portos, para povoar os mares, para acudir ao desemprego, para renovar a máquina do Estado, para limpar e arejar as suas engrenagens e roldanas, bem merece a gratidão, o respeito, a admiração fervorosa, a devoção dos seus compatriotas. Entravar a sua acção, ligada intimamente à renascença duma Pátria, tentar diminuir o seu prestígio, parece-me um erro gravíssimo, irremediável, de funestas consequências.

Mas há que não abandonar a fogueira das ideias em marcha… Há que abrir as janelas, de quando em quando, conhecer os homens, saber onde estão os que servem e os que não servem, vir até ao povo, saber o que ele quer, ensinar-lhe o que quer… Se a natureza do chefe é avessa a certos contactos, se é preferível, talvez, não a contrariar para não a quebrar na sua fecunda inteireza, que se encarregue alguém, ou alguns, de cuidar da encenação necessária das festas do ideal, dessas entrevistas indispensáveis, nas ditaduras, entre a multidão e os governantes…

Os povos, infelizmente, numa inquietação que nem sempre lhes traz a felicidade, não se contentam com os melhoramentos materiais, com a certeza do seu progresso. Gostam, por instinto, de se sentir viver espiritualmente, com uma finalidade, com uma bandeira. Atrás da forma rígida, do decreto maciço, da ordem seca, querem sentir a expressão, a ideia, a obediência do chefe às suas aspirações confusas… Os povos não gostam de ser arrastados; gostam de ser levados…

No último número do «Je suis partout», dedicado ao fascismo, escreveu Pierre Gaxotte estas palavras cheias de verdade e de bom senso: Os regimes banalmente conservadores imaginam que podem durar pela força dos serviços prestados e que farão esquecer os seus processos autoritários pelos êxitos materiais. É um erro grave. No momento, quando o País, cansado de anarquia, aspira à segurança e à paz, aprova tudo o que faz o ditador. Passado o perigo, esquece-se o santo. O que se achava necessário transforma-se numa tortura. À autoridade chama-se tirania. À ordem, opressão. Quanto mais a ditadura triunfa, mais ela parece inútil. No regresso à felicidade, esquecem-se facilmente ameaças e perigos.

Que deve fazer, portanto, o ditador para evitar a morte da sua obra e do seu nome, para não ser esquecido, para não ser vítima da ingratidão daqueles que serviu, daqueles que salvou? Apenas isto: martelar constantemente as suas ideias, despi-las da sua rigidez, dar-lhes vida e calor, comunicá-las à multidão… Que o ditador fale ao povo e que o novo lhe fale. Que ditador e povo se confundam de tal forma, que o povo se sinta ditador e que o ditador se sinta povo…

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