quarta-feira, 8 de junho de 2011

Espíritos Livres - Novos Filósofos

44. Depois de tudo isso, ainda preciso dizer expressamente que esses filósofos do futuro também serão espíritos livres, muito livres – tão certo quanto eles também não serão meramente espíritos livres, mas algo ainda mais, mais elevado, maior e fundamentalmente distinto, que não quer ser mal-interpretado e confundido com outra coisa? Mas, ao dizer isso , sinto quase tanto em relação a eles quanto em relação a nós, que somos seus arautos e precursores, nós, espíritos livres! – sinto a obrigação de varrer para longe de nós todo um velho e estúpido preconceito e mal-entendido que turvou como um nevoeiro o conceito de “espírito livre” por tempo demasiado. Em todos os países da Europa, assim como na América, há quem hoje cometa abusos com esse nome, uma espécie de espíritos muito estreita, aprisionada, agrilhoada, que quer mais ou menos o contrário daquilo que se encontra em nossos propósitos e instintos – para não falar que, em vista desses novos filósofos vindouros, eles devem ser antes de tudo janelas fechadas e portas aferrolhadas. Eles pertencem, para dizê-lo numa só e horrenda palavra, aos niveladores, esses falsamente denominados “espíritos livres” – como eloqüentes e escrevinhadores escravos do gosto democrático e de suas “idéias modernas”: todos eles homens sem solidão, sem solidão própria, rapazes toscos e bem-comportados, aos quais não se deve negar coragem nem costumes respeitáveis, só que eles são acanhada e ridiculamente superficiais, sobretudo na sua inclinação fundamental de ver nas formas da sociedade antiga até agora existente mais ou menos a causa de toda miséria e fracasso humanos: no que, felizmente, a verdade vem a estar de pernas para o ar! O que gostariam de obter com todas as forças é a felicidade campestre do rebanho, universal, verde, com segurança, inofensividade, bem-estar, facilitação da vida para todo mundo; as duas cantilenas e doutrinas mais cantadas chamam-se “igualdade de direitos” e “compaixão para com tudo que sofre” – e o próprio sofrimento é tomado por eles como algo que se deve eliminar. Nós, os contrários, que abrimos um olho e uma consciência para a questão de saber onde e como até agora a planta “homem” cresceu nas alturas com mais vigor, somos da opinião de que isso ocorreu toda vez sob as condições contrárias, que para isso a periculosidade de sua situação teve antes de crescer até a exorbitância, sua força inventiva e dissimuladora (seu “espírito” – ), de desenvolver-se sob prolongada pressão e coação até tornar-se algo sutil ou ousado, sua vontade de vida, de elevar-se até chegar a ser absoluta vontade de poder: – somos da opinião de que a dureza, a violência, a escravidão, o perigo na rua e no coração, o ocultamento, o estoicismo, a arte de tentador e a diabolice de toda espécie, de que tudo que no homem é mau, terrível, tirânico, rapinante e ofídico serve tão bem para a elevação da espécie “homem” quanto o seu contrário: – nós até mesmo dizemos o bastante quando apenas dizemos isso, e nos encontramos, em todo caso, com o nosso falar e calar nesse aspecto, na outra ponta de toda a moderna ideologia e aspiração de rebanhos: como seus antípodas, talvez? Será de admirar que nós, “espíritos livres”, não somos exatamente os espíritos mais comunicativos? Que nós não desejamos, em cada aspecto, revelar do que um espírito que pode se libertar e para onde ele talvez seja então impelido? E quanto à importância da perigosa fórmula “além do bem e do mal”, com a qual, pelo menos, nos resguardamos de ser confundidos com outros: nós somos algo diverso dos “libres-penseurs”, “liberi pensatori”, “livres pensadores” ou seja lá como for que todos esses honrados porta-vozes das “idéias modernas” gostam de se denominar. Estivemos em casa em muitos países do espírito, pelo menos na condição de hóspedes; esgueirando- nos sempre outra vez do recanto abafado e agradável em que a afeição e desafeição , a juventude, a origem, o acaso de pessoas e livros, ou mesmo a fadiga das andanças pareciam nos cativar ; cheios de maldade para com os chamarizes da dependência que se encontram escondidos em honras, ou dinheiro, ou cargos, ou entusiasmos dos sentidos; gratos inclusive à privação e às vicissitudes da doença, pois sempre nos livraram de alguma regra e de seu “preconceito”, gratos para com deus, diabo, cordeiro, e verme entre nós, curiosos que chegam ao ponto do vício, investigadores que chegam ao ponto da crueldade, com dedos que não hesitam diante do inapreensível, com dentes e estômagos para o mais indigesto, prontos para todo ofício que exija agudeza e sentidos aguçados, prontos para a ousadia, graças a um excesso de “livre-arbítrio” com almas de fachada e de fundos, às quais ninguém vê facilmente seus propósitos últimos , com fachadas e fundos que nenhum pé deveria percorrer até o fim, ocultos sob o manto da luz, conquistadores , ainda que pareçamos, ordenadores e colecionadores desde manhã até a noite, avarentos de nossa riqueza e de nossas gavetas abarrotadas, econômicos no aprender e no esquecer, inventivos em esquemas, às vezes orgulhosos de tábuas de categorias, às vezes pedantes, às vezes corujas do trabalho mesmo em dia claro; e até, caso seja necessário inclusive espantalhos – e hoje é necessário: ou seja, na medida em que somos os amigos natos , jurados, ciumentos da solidão, a nossa própria, mais profunda, mais noturna, mais meridiana solidão: – semelhante espécie de homem somos nós, nós, espíritos livres! E talvez vós também sejais algo disso, vós, vindouros? Vós, novos filófosos?


Trecho de: Friedrich Nietzsche - Além do Bem e do Mal

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