quarta-feira, 23 de março de 2011

Debate Olavo de Carvalho x Aleksandr Dugin

Caros leitores 

Esse debate surgiu de uma idéia que tivemos em uma discussão virtual. Novas ferramentas tecnológicas geram novos gêneros discursivos, e muitos pensadores tem se tornado mais conscientes da importância já marcante da internet como veículo de divulgação de suas idéias, o que inclusive temos tido a oportunidade de comprovar diante das notícias recentes da relação direta entre a internet e as manifestações populares que estão ocorrendo no Egito (sem entrar aqui no mérito da natureza dessas manifestações). 

Tivemos a iniciativa de entrar em contato com dois eminentes pensadores, de diferentes origens e pontos de vista políticos completamente opostos, mas que compartilham o fato de exercerem parte de sua atividade intelectual através desse meio e cuja acessibilidade e cordial disposição para realizar um debate escrito pela internet nos foi especialmente propícia. 

Temos sim a expectativa de, a partir dessa experiência inicial, realizar outros debates nessa linha, no entanto, ser-nos-ia já critério de sucesso suficiente o transcurso apropriado deste primeiro. Estamos seguros de que os temas aqui tratados não são tratados atualmente em nenhum outro espaço midiático e que são justamente os temas mais fundamentais para a reflexão do mundo em que vivemos. 

Os dois autores, como veremos, são filósofos de experiência e com longa carreira em publicações e, portanto, os mediadores desse debate não pretendem tê-los abarcado ou compreendido em sua integralidade. Contamos com a compreensão dos senhores diante de nossas limitações e inexperiência na elaboração e veiculação do presente debate e esperamos que a discussão seja proveitosa aos interessados no assunto aqui em pauta. 

Observamos ainda que compusemos uma breve e reconhecidamente modesta apresentação dos debatedores em português e disponilizamos o resumo de ambos ao público de língua inglesa. Entretanto, o debate transcorrerá inicialmente somente em inglês. As traduções ocorrerão gradualmente na medida de nossas possibilidades. Também tivemos alguns problemas de formatação e visualização em alguns navegadores; cremos a questão já foi solucionada, no entanto, caso alguma problema seja notado, solicitamos a gentileza de reportar-no-los.

A moderação

Estrutura 

1) O debate será realizado em língua inglesa e será postado simultaneamente neste blog, no sítio http://www.olavodecarvalho.org/ e no sítio http://evrazia.info/ e também nos sítios secundários dos dois autores. 

2) Os debatedores inicialmente enviar-nos-ão um artigo introdutório com tamanho limitado a 24 mil caracteres com espaços inclusos, respondendo a pergunta central do debate: 

"Quais são os fatores e atores históricos, políticos, ideológicos e econômicos que definem atualmente a dinâmica e a configuração do poder no mundo e qual a posição dos Estados Unidos da América nisso que é conhecido como Nova Ordem Mundial?" 

3) A essa etapa inicial em que serão postados os dois artigos simultaneamente proceder-se-á duas etapas de respostas alternadas, que se iniciarão com o comentário do filósofo Alexandre Dugin ao artigo de Olavo de Carvalho. Em seguida haverá as réplicas na ordem Olavo, Dugin, Olavo. Nessa fase de réplica não há delimitação de caracteres, mas estabeleceu-se a título de sugestão o número de 120 mil caracteres. 

4) Por fim haverá um espaço de conclusão de 18 mil caracteres. As conclusões serão postadas simultaneamente.

5) O calendário previsto do debate será o que segue abaixo (sujeito a alterações):

7 de Março - Apresentação

21 de Março - Dugin

4 de Abril - Olavo (foi entregue no dia 06/04)

22 de Abril - Dugin (foi entregue no dia 24/04)

10 de Maio* - Olavo (foi entregue no dia 23/05)

5 de Julho* - Conclusões

*O calendário foi adaptado em função do atraso no texto dos Profs. Olavo de Carvalho e Alexandr Dugin.


Introdução - Dugin

"Quais são os fatores e atores históricos, políticos, ideológicos e econômicos que definem atualmente a dinâmica e a configuração do poder no mundo e qual a posição dos Estados Unidos da América nisso que é conhecido como Nova Ordem Mundial?" 

A TRANSIÇÃO GLOBAL E SEUS INIMIGOS 

A Ordem Mundial questionada 

A “Nova Ordem Mundial” como conceito foi popular num ímpeto histórico concreto — precisamente o do fim da Guerra Fria (final dos anos 80, na era Gorbachev) quando a cooperação global entre os Estados Unidos e a União Soviética foi considerada próxima e muito provável. A base da Nova Ordem Mundial era, presumivelmente, a realização da teoria de convergência que predizia a síntese das formas políticas do socialismo soviético e do capitalismo ocidental e uma estreita cooperação da União Soviética e os Estados Unidos nas questões regionais, como por exemplo, a Guerra do Golfo, no começo de 1991. Uma vez que, logo depois a União Soviética veio a se dividir, esse projeto de Nova Ordem mundial foi naturalmente posto de lado e esquecido. 

Depois de 1991, considerou-se que outra Ordem Mundial estava surgindo diante de nossos olhos – a de um mundo unipolar com uma aberta hegemonia global do Estados Unidos. Isso fica bem descrito na utopia política do “Fim da História” de Fukuyama. Essa Ordem Mundial ignorava quaisquer outros pólos de poder que não os EUA e seus aliados (Europa e Japão, primeiramente) e era concebida como a universalização da economia de livre mercado, da democracia política e da ideologia dos direitos humanos como padrão aceito globalmente por todos os países do mundo. 

Os céticos pensavam que essa ordem era deveras ilusória e que as diferenças entre os países e os povos apareceriam sob outras formas (por exemplo, no famoso choque de civilizações de S. Huntington ou então em conflitos religiosos ou étnicos). Alguns especialistas consideravam que a unipolaridade não era exatamente uma Ordem Mundial, mas um ímpeto unipolar (J.Mearsheimer). De qualquer maneira, o que se questiona em todos esses projetos é o Estado Nacional. Novos atores de escala transnacional ou subnacional afirmaram sua crescente importância e ficava claro que o mundo necessitava de um novo paradigma de relações internacionais. 

Portanto, nosso mundo contemporâneo não pode ser considerado como uma Nova Ordem Mundial. Atualmente não há nenhuma ordem mundial definitiva em vigência. O que há é uma Transição da ordem mundial que conhecemos no século XX para algum outro paradigma cujos traços ainda não estão definidos. O futuro será realmente global? Ou vencerão as tendências regionalistas? Haverá uma ordem única? Ou teremos diferentes ordens locais e regionais? Ou talvez teremos de lidar com o caos mundial? Nada disso está claro ainda. Vivemos no meio de uma Transição que ainda não se cumpriu. 

Se a elite global (primordialmente a elite política dos Estados Unidos) tem uma visão clara do futuro desejado (o que é bem duvidoso) ainda assim as circunstâncias podem obstruir a realização desse futuro na prática. Se a elite global não tem um projeto consensual, a questão fica bem mais complicada. 

Assim, somente o fato da Transição em direção a um novo paradigma é certo; o paradigma em si mesmo é deveras incerto. 

A Nova Ordem a partir do ponto de vista Norte-Americano 

A posição dos EUA nessa mudança está assegurada, mas o futuro dos Estados Unidos está em questão, uma vez que eles têm atualmente de lidar com muitos desafios e estão sendo submetidos ao crivo de um teste de seu império global. Alguns desses desafios são um tanto novos e originais e os Estados Unidos têm a possibilidade de seguir três vias distintas diante da atual situação: 

1) Criar um Império Americano stricto sensu, com a consolidação técnica e social de uma área central desenvolvida (Cerne Imperial), ao passo que os espaços externos permaneceriam divididos e fragmentados em estado de permanente perturbação (próximo ao caos); parece que os “neocons” são a favor de tal padrão. 

2) Criar uma unipolaridade multilateral em que os Estados Unidos cooperariam com os poderes amistosos na resolução de problemas regionais (Canadá, Europa, Austrália, Japão, Israel e possivelmente outros países) e fariam pressão nos «países canalhas» (Irã, Venezuela, Bielorússia, Coréia do Norte) ou também em países hesitantes que estão lutando para assegurar sua independência regional (China, Rússia, etc.); Os democratas e Obama parecem inclinados a agirem assim. 

3) Promover a globalização acelerada com a criação do Governo Mundial e uma rápida destituição da soberania dos Estados Nacionais em função da criação dos Estados Unidos do Mundo que seria governado pela elite global em termos legais. Esse é o projeto do Conselho de Relações Internacionais (CFR) representado pela estratégia de George Soros e suas fundações; As chamadas “revoluções coloridas” nesse caso são as armas mais efetivas para desestabilizar e finalmente destruir os Estados. 

O que parece é que os Estados Unidos tentam adotar essas três vias e promover as três estratégias ao mesmo tempo; essa estratégia de três direções cria o contexto das relações internacionais em que os Estados Unidos é o ator principal em escala global. Apesar das diferenças evidentes entre essas três imagens de futuro há alguns pontos essenciais em comum: em qualquer dos casos os Estados Unidos têm interesse em afirmar sua dominação estratégica, econômica e política; Há um reforço do seu controle e enfraquecimento dos outros atores globais; há uma gradual ou acelerada destituição da soberania dos Estados atualmente mais ou menos independentes; há uma promoção de valores “universais” que refletem os valores do mundo ocidental: democracia liberal, parlamentarismo, livre mercado, direitos humanos, etc. 

No mundo contemporâneo, portanto, nos encontramos num campo geopolítico permanente e forte em cujo cerne se situa os Estados Unidos e cujos raios de influência — seja estratégica, econômica, política, tecnológica, da informação, etc. — permeiam todo o resto do mundo dependendo da vontade de aceitá-los nos diferentes países ou atmosferas étnicas ou religiosas. Forma-se uma espécie de “rede imperial global” operando em escala planetária. 

Esse campo “americanocêntrico” pode ser descrito em diferentes níveis: 

Historicamente: Os Estados Unidos se consideram como a conclusão lógica e o pico da Civilização Ocidental. Nos termos antigos isso era apresentado como o destino manifesto dos EUA. Atualmente fala-se em termos de direitos humanos, promoção da democracia e da tecnologia, instituições de livre Mercado, etc. Mas, essencialmente, estamos lidando com uma nova edição do universalismo ocidental que passou pelo Império Romano, pela cristandade medieval, pela modernidade (com a colonização e o iluminismo) até chegar aos dias atuais com o pós-modernismo e o ultra-individualismo. Considera-se a história como sendo um processo unívoco (monótono) de progresso tecnológico e social e o caminho da crescente libertação dos indivíduos de todas as identidades coletivas. A tradição e o conservadorismo são considerados obstáculos à liberdade e deveriam ser rejeitados e os EUA estão na vanguarda desse progresso histórico e têm o direito e a obrigação (missão!) de fazer a histórica seguir adiante pois a existência histórica dos EUA coincide com o curso da história humana, de maneira que “americano” significa “universal”. Portanto, as outras culturas terão um futuro americano ou nenhum futuro. 

Politicamente: há tendências muito importantes na política mundial que definem a Transição. Assistimos a passagem do liberalismo (convertido na única e global opção política uma vez que o cume do pensamento político da modernidade venceu as alternativas políticas como o fascismo e o socialismo) em direção a um conceito pós-moderno e pós-individual da política geralmente descrito como pós-humanismo. E novamente os Estados Unidos desempenham aqui um papel fundamental: a política promovida globalmente pelos EUA é a democracia liberal e os Estados Unidos dão suporte a globalização desse liberalismo, preparando o próximo passo para o pós-modernismo político tal qual descrito no famoso livro de A. Negri e M. Hardt “Império”. Há alguma distância entre o liberalismo ultra-individual e o pós-humanismo pós-moderno propriamente dito (criação de ciborgues, modificação genética, clonagem e mutantes) ,mas na periferia do mundo temos a tendência à acelerada destruição de qualquer entidade social holística, assim como à fragmentação e à atomização da sociedade, que é incluída na tecnologia (internet, telefones celulares, etc.) onde o ator principal é estritamente individual e retirado de seu contexto natural e social. Temos testemunho importante do uso dual da promoção da democracia explicitamente descrito no artigo do especialista político e militar Americano Stephen R. Mann[1] onde ele afirma que a democracia pode funcionar com um vírus auto-gerativo que, pode funcionar no sentido de reforçar muitas sociedades historicamente democráticas, mas que, por outro lado, pode destruir e imergir no caos as sociedades tradicionais que não têm preparação para ela. De maneira que a democracia é concebida como uma arma efetiva para criar o caos e para governar, desde o centro, as culturas do mundo que estão em estado de desintegração, emulando e instalando em todos os cantos os códigos democráticos. Pudemos ver nos últimos eventos nos países árabes como isso funciona. Após obter a fragmentação completa das sociedades em átomos individuais, começará uma segunda fase em que os próprios indivíduos serão divididos em partes e em novas combinações (genéticas, por exemplo) no sentido da criatividade pós-humana. Isso poderia ser descrito como pós-política e como o último horizonte do futurismo político. 

Ideologicamente: A tendência dos Estados Unidos é vincular à periferia a sua ideologia e política. Antigamente os EUA agiam tendo como base o realismo puro, ou seja, se os regimes eram a favor dos Estados Unidos, eles eram tolerados independentemente de seus princípios ideológicos, do que teríamos um exemplo claro no caso da Arábia Saudita. Portanto, havia alguma margem para um duplo padrão moral. Parece que recentemente os EUA estão tentando aprofundar a democracia, dando suporte às revoltas no Egito e na Tunísia, países cujos líderes políticos, eram ao mesmo tempo em que ditadores corruptos, amigos dos EUA. O duplo padrão ideológico está perdendo lugar ao passo que o aprofundamento da democracia tem progredido. O ponto culminante desse processo será alcançado no caso de uma provável revolta na Arábia Saudita, pois nesse momento a tendência de promoção da democracia com bases ideológicas, ainda que em circunstâncias políticas adversas, será testada. 

Economicamente: A economia americana é desafiada pelo crescimento chinês, pela questão energética e pela desproporção crítica entre o setor financeiro e o setor produtivo real. O crescimento excessivo das instituições financeiras americanas e a remoção da indústria têm criado uma descontinuidade entre a esfera monetária e a esfera do equilíbrio clássico do capitalismo entre a produção e a demanda. Essa foi uma das principais causas da crise financeira de 2008. A política econômica chinesa tenta reafirmar sua independência diante da estratégia americana e isso pode tornar-se novamente o principal fator de competição. A Rússia, o Irã, a Venezuela e alguns outros países relativamente independentes dos EUA têm controle de uma grande quantidade de recursos naturais, o que coloca um limite na influência americana. A economia da Comunidade Européia e o potencial econômico japonês representam os dois pólos de competição entre os parceiros estratégicos e militares dos EUA. Os Estados Unidos tentam resolver esses problemas usando instrumentos não somente econômicos, mas também políticos e algumas vezes, o poder militar. Poderíamos interpretar nesse sentido a intrusão no Iraque ou no Afeganistão e a possível intervenção na Líbia, Irã e Síria, a promoção indireta da oposição na Rússia, Irã e China e as tentativas de causar problemas com a Turquia e com o islamismo radical em geral. Na Europa, as metas são as mesmas, mas essas são apenas soluções técnicas. O principal desafio é como organizar a economia pós-moderna e centrada nas finanças com um crescimento assegurado que supere a disparidade cada vez maior entre o setor real e os instrumentos financeiros cuja lógica se torna cada vez mais autônoma. 

Portanto, observamos, no centro do presente estado de Transição das questões mundiais, os Estados Unidos como ator principal e assimétrico. Esse ator representa a hiper-potência (H.Vidrine) e o seu campo geopolítico mais forte, que inclui todos os níveis vistos anteriormente se estrutura em torno do Núcleo Americano, representando suas redes multi-niveladas. A questão pode ser levantada aqui: Há uma consciência plena por parte desse ator sobre suas ações ou ele compreende bem o que obterá no fim? Qual é o tipo de ordem que será obtida? As opiniões parecem estar divididas nesse ponto crucial: os neocons proclamam um novo século americano, sendo otimistas a respeito do futuro do império Americano e, ainda que em seu caso seja óbvio que eles tenham uma visão clara do futuro (futuro americano ou mais precisamente norte-americano), isso não significa que seja uma visão realista. Nesse caso, a Ordem Mundial será uma Ordem Imperial Americana baseada numa geopolítica unipolar. Ao menos teoricamente esse ponto de vista tem algo de positivo: é claro e honesto. 

Os multilateralistas são mais cuidadosos e insistem na necessidade de convidar outras potências regionais para compartilhar com os EUA o ônus do império planetário. Somente sociedades similares aos Estados Unidos, obviamente, podem ser parceiras, de forma que o sucesso da promoção da democracia se torna aqui o cuidado essencial. Os multilateralistas agem não só em nome dos EUA, mas também em nome do Ocidente, considerado como algo universal. A imagem da ordem mundial futura é obscura, o destino da democracia global é nebulosa e não tão claramente definida como a imagem do Império Americano. 

Ainda mais obscura é a versão extrema dos promotores da globalização acelerada. Essa versão poderia efetivamente demolir os estados nacionais vigentes, mas, em alguns casos, o que ocorrerá será somente a abertura do caminho para forças muito mais arcaicas, locais, religiosas ou étnicas. Portanto, uma sociedade aberta em escala global é uma perspectiva tão fantástica que é muito mais fácil imaginar o caos completo e a guerra generalizada de todos contra todos. 

Dessa forma, a imagem da Ordem Mundial futura difere dependendo do grupo de ideólogos americanos ou de quem toma a decisão. A estratégia mais consistente é ao mesmo tempo a mais etnocêntrica, abertamente imperialista e hegemônica: é a ordem mundial unipolar. As duas outras versões são muito mais incertas e turvas. Elas podem até mesmo, até certo ponto, dar lugar à desordem mundial e são chamadas sumariamente de “não-polares” (R. Haass). 

A Transição em qualquer dos casos, é americanocêntrica por natureza e o campo geopolítico global é estruturado de maneira que os principais processos globais sejam moderados, orientados, dirigidos e algumas vezes controlados por esse único ator que executará sua tarefa sozinho ou com a assistência dos aliados ocidentais e essencialmente pró-americano (ou ao menos pró-ocidente). 

A Ordem Mundial de um ponto de vista não americano 

A perspectiva “americanocêntrica” descrita anteriormente, ainda que seja a tendência global mais importante e central não é a única possível. Pode haver, e há visões alternativas da arquitetura mundial que podem ser levadas em consideração. Existem atores secundários e terciários que, no caso de sucesso da estratégia americana, sairiam inevitavelmente perdedores. Há países, Estados, povos, culturas que perderiam tudo e não ganhariam nada com a realização da estratégia norte-americana. Esses atores são múltiplos e heterogêneos e poderíamos agrupá-los em diferentes categorias: 

1) A primeira categoria é composta por Estados nacionais mais ou menos bem sucedidos e que não se contentam em delegar sua independência a uma autoridade supranacional exterior, nem na forma de uma hegemonia norte-americana aberta, nem na forma de um governo mundial centralizado no ocidente, nem na dissolução caótica. Há vários desses países, a começar pela China, Rússia, Irã, Índia e incluindo aí muitos Estados sul-americanos e Islâmicos. Não lhes agrada de forma alguma a Transição, pois temem, com boas razões, da perda inevitável de sua soberania. Portanto, eles estão eles inclinados tanto a resistir às principais tendências do campo geopolítico planetário centrado nos EUA como a adaptarem-se a ele de tal maneira que fosse impossível evitar as conseqüências lógicas do sucesso da estratégia geral dos Estados Unidos, não importando aqui se a estratégia é imperialista ou globalista. O desejo de conservação da soberania representa a contradição natural e o ponto de resistência diante das tendências pró-americanas ou globalistas. Esses países dificilmente têm uma visão alternativa da futura Ordem Mundial, o que eles querem é preservar na forma atual o seu status quo de Estados nacionais e fazer ajustes ou modernizar se for necessário. Entre os membros desse grupo de Estados nacionais há quatro tipos de atores: 

1) Aqueles que tentam adaptar suas sociedades à padrões ocidentais e manter relações amigáveis com o ocidente e com os EUA, mas no sentido de evitar a perda direta de soberania: Índia, Turquia, Brasil, e até certo ponto, a Rússia e o Cazaquistão. 

2) Aqueles que estão dispostos à cooperar com os Estados Unidos sob a condição de não interferência em seus assuntos internos: Arábia Saudita, Paquistão, etc. 

3) Aqueles que, ainda que cooperando com os EUA, observam estritamente as particularidades de suas sociedades, realizando um filtro permanente do que é e do que não é compatível entre a cultura ocidental e sua própria cultura, ao mesmo tempo em que tentam usar os dividendos recebidos nessa cooperação para fortalecer a independência nacional, como a China. 

4) E há aqueles que tentam oferecer oposição direta aos Estados Unidos rejeitando valores ocidentais, a unipolaridade e a hegemonia Americana: Irã, Venezuela e Coréia do Norte. 

Todos esses grupos carecem de uma estratégia global alternativa que poderia ser simetricamente comparável à Americana. Não há nem mesmo uma visão de futuro consensual ou clara. Todos agem por si mesmos e em seus próprios interesses, de forma que a diferença consiste somente no nível de radicalismo na rejeição da americanização. Poderíamos definir a posição desses países como reativa. Essa estratégia de oposição reativa, variando da rejeição à adaptação é efetiva algumas vezes, em outras vezes não é. No fim das contas ela não fornece nenhum tipo de visão de futuro. A futura Ordem Mundial é considerada como uma conservação eterna do status quo, ou seja, modernidade, Estados Nação, sistemas vestfalianos, atual configuração da ONU, etc. 


A segunda categoria de atores que rejeitam a Transição é formada por grupos subnacionais, movimentos e organizações que se opõem, como estruturas do campo geopolítico, ao americanismo por razões ideológicas, religiosas e/ou culturais. Esses grupos são muito diferentes entre si e variam em seus estados concretos. Em sua maioria são baseados em fé religiosa que é incompatível com a doutrina secular da americanização, ocidentalização ou globalização, mas alguns são motivados por doutrinas étnicas ou ideológicas (como no caso do socialismo ou comunismo), ainda há outros que agem tendo como base o regionalismo. O paradoxo é que num ambiente de globalização que tem o objetivo de uniformizar todas as particularidades e identidades coletivas na base da identidade individual pura, esses atores sub-nacionais se tornam transnacionais, uma vez que as mesmas religiões e ideologias estão presentes em diferentes países e Estados nacionais. Portanto, nesses círculos seria possível encontrar alguma visão alternativa de Ordem Mundial futura que poderia se opor à Transição e as suas estruturas. 

Podemos resumir grosso modo as diferentes idéias dos mais importantes grupos subnacionais e transnacionais da seguinte forma: 

1) A mais famosa idéia é a do mundo islâmico que representa a utopia do Estado Mundial Islâmico (Califado Mundial). Esse projeto é oposto tanto à arquitetura Americana como ao ´ dos Estados nacionais modernos. Bin Laden é o símbolo dessa tendência de idéias e a queda das torres gêmeas do “World Trade Center” em 9/11 em Nova Iorque são a prova da importância e da seriedade dessa rede. 

2) Um outro projeto poderia ser definido como o plano neo-socialista representado na esquerda sul-americana e pessoalmente por Hugo Chavez. Esse projeto é grosso modo uma nova edição da crítica marxista ao capitalismo fortalecida pelo sentimento nacionalista ou em alguns casos, étnico (zapatistas, Bolívia). Alguns regimes árabes poderiam ser considerados da mesma linha (Como a Líbia de Kaddhafi até recentemente). A Ordem Mundial vindoura nesse caso é apresentada como uma revolução socialista global precedida por campanhas anti-americanas em cada país. Esse grupo identifica a Transição como a encarnação do imperialismo clássico criticado por Lênin. 

3) O terceiro exemplo pode ser encontrado no Projeto Eurasiano, também conhecido como projeto multipolar ou dos "Grandes Espaços", que propõe justamente um modelo alternativo de Ordem Mundial baseado no princípio das civilizações e de grandes espaços. Esse projeto pressupõe a criação de diferentes entidades políticas, estratégicas e econômicas transnacionais unidas pela comunidade de civilização e valores principais, em alguns casos religiosos e em alguns, seculares e culturais. Esses blocos seriam formados por Estados integrados que representariam os pólos do mundo multipolar. A União Européia poderia ser um exemplo formal disso. Teríamos também a União Eurasiana (Projeto do Presidente N. Nazarbayev do Cazaquistão), União Islâmica, União Sul-Americana, União Chinesa, União Indiana, União de todo o Pacífico, etc. O grande espaço Norte-Americano seria considerado como um dos vários pólos mais ou menos iguais, nada mais.

Poderíamos acrescentar outras teorias, mas elas são de menor escala.

Há, nas atuais condições, operando em diferentes níveis, um vácuo entre os Estados nacionais e os movimentos ideológicos mencionados anteriormente . Os Estados nacionais carecem de visão e os movimentos carecem de infraestrutura suficiente para colocar suas idéias em prática. Se imaginarmos que em algumas circunstâncias, esse vácuo poderia ser preenchido, a alternativa à Transição (dado o peso estratégico, econômico e demográfico do mundo não ocidental) e às tendências centralizantes americana e ocidental obterá um contorno realista e poderá ser considerada seriamente como um plano conseqüente e teoricamente fundamentado de uma Ordem futura concreta.

[1] Stephen R. Mann Chaos Theory and Strategc Thought/ Parameters 2U3, Autumn, 1992.