domingo, 13 de março de 2011

Debate Olavo de Carvalho x Aleksandr Dugin: Introdução de Aleksandr Dugin

por Aleksandr Dugin


"Quais são os fatores e atores históricos, políticos, ideológicos e econômicos que agora definem a dinâmica e a configuração de poder no mundo e qual é a posição dos Estados Unidos no que é conhecido como a Nova Ordem Mundial?”

A Transição Global e Seus Inimigos

A Ordem Mundial questionada

A Nova Ordem Mundial como conceito  foi popular em um momento [momentum] histórico concreto -- precisamente quando a Guerra Fria terminou (fim dos anos 80, era Gorbatchev) e a cooperação global entre os Estados Unidos e a União Soviética era considerada próxima e muito provável. A base da NOM era, supostamente, a realização da teoria da convergência, prevendo a síntese das formas políticas do socialismo soviético e do capitalismo ocidental e a cooperação estreita da União Soviética e dos EUA no caso de problemas regionais – por exemplo, a Primeira Guerra do Golfo, no começo de 1991. Consequentemente, quando a União Soviética se fragmentou, logo depois, este projeto da NOM foi naturalmente posto de lado e esquecido.

Depois de 1991, considerou-se a outra Ordem Mundial como algo sendo criado diante de nossos olhos -- um Mundo Unipolar, com uma aberta hegemonia global dos EUA. Ela está bem descrita na utopia política de Fukuyama, "O Fim da História." Esta Ordem Mundial ignorava quaisquer outros polos de poder além dos Estados Unidos e seus aliados (antes de mais nada, a Europa e o Japão) e era entendida como a universalização da economia de livre mercado, da democracia política e da ideologia dos direitos humanos como um padrão global aceito por todos os países do mundo.

Os céticos acharam que isto na verdade era uma ilusão e que as diferenças entre os países e as povos reapareceriam em outras formas (por exemplo, no famoso choque de civilizações de S. Huntington ou em conflitos étnicos ou religiosos). Alguns especialistas consideraram a unipolaridade, não como a Ordem Mundial propriamente dita, mas como o momento [momentum] unipolar (J.Mearsheimer). De todo modo, o que se questiona em todos estes projetos é o Estado Nacional. O sistema vestfaliano não correspondia mais ao presente equilíbrio global de poderes. Novos atores em escala nacional ou subnacional afirmavam sua crescente importância e estava claro que o mundo necessitava de um novo paradigma de Relações Internacionais.

Então, nosso mundo contemporâneo real não pode ser considerado como uma NOM propriamente realizada. Não há qualquer tipo de Ordem Mundial definitiva no instante. Há uma Transição da Ordem Mundial que conhecíamos no século XX para algum outro paradigma cujas características completas ainda estão por se definir. O futuro será realmente global? Ou as tendências regionalistas vencerão?  Haverá uma Ordem única? Ou haverá diferentes ordens locais, regionais? Ou, talvez, vamos nos haver com o Caos Mundial? Ainda não está claro, a Transição não está completa. Vivemos no meio dela.

Se a elite global (antes de tudo, a elite política dos Estados Unidos) tiver um claro projeto para o futuro desejado (e isto é bastante duvidoso), ainda assim as circunstâncias podem, na prática, impedir sua realização; se a elite global não possui projeto consensual, aí o problema é muito mais complicado.

Então, só o fato da Transição para algum novo paradigma é certo. O paradigma como tal, por outro lado, é muito incerto.

A Ordem Mundial do ponto de vista dos EUA

A posição dos EUA nesta mudança está ablosutamente assegurada, mas o futuro dos EUA está em questão. Os EUA passam agora pelo teste do poder imperial global e eles têm que  lidar com muitos desafios -- alguns deles bastante novos e originais. Eles podem agir de três modos:

1) Criar um Império Americano stricto sensu com uma área central consolidada, desenvolvida técnica e socialmente (Núcleo Imperial), enquanto os espaços exteriores seriam mantidos divididos e fragmentados, em estado de permanente instabilidade (próximo ao caos); parece que os neo-conservadores são a favor de tal modelo.

2) Criar uma unipolaridade multilateral em que os EUA cooperariam com outras potências amigas (Canadá, Europa, Austrália, Japão, Israel -- e possivelmente outros países) na resolução de problemas regionais e fazendo pressão sobre os "países canalhas" [rogue countries] (Irã, Venezuela, Bielorússia, Coréia do Norte) e os países hesitantes que tentam garantir sua própria independência regional (China, Rússia e assim por diante); parece que os democratas e Obama estão inclinados a fazer isto;

3) Promover uma globalização acelerada, com a criação de um Governo Mundial e uma rápida de-soberanização dos Estados Nacionais, em favor da criação dos Estados Unidos do Mundo, governados pela elite global em termos legais (ou seja, o projeto do Council of Foreign Relations, representado pela estratégia de George Soros e suas fundações; as revoluções coloridas são vistas, aqui, como a arma mais eficaz para desestabilizar e por fim destruir os Estados).

Parece que os Estados Unidos tentam seguir estes três caminhos simultaneamente, promovendo todas as três estratégias ao mesmo tempo. Esta estratégia de três direções dos EUA cria o contexto global das Relações Internacionais, sendo os EUA o ator principal na escala global. Para além das diferenças evidentes nestas três imagens do futuro, elas têm alguns pontos essenciais em comum. Em todos os casos, os EUA estão interessados em afirmarem seu domínio estratégico, econômico e político; em fortalecer o controle dos outros atores globais por meio de seu enfraquecimento; na gradual ou acelerada de-soberanização do que agora são Estados mais ou menos independentes; na promoção de valores "universais" que reflitam os valores do mundo ocidental (democracia liberal, parlamentarismo,  liver mercado, direitos humanos e assim por diante).

Então, estamos, no mundo contemporâneo, em um forte e permanente campo geopolítico, no centro do qual se situam os EUA e no qual os raios de suas influências (estratégicas, econômicas, políticas, tecnológicas, de informação e assim por diante) permeiam todo o resto do Mundo, dependendo do nível de vontade de se aceitar isto, no caso de diferentes países e ambientes étnicos e religiosos. É uma espécie de "rede imperial global", operante em escala planetária.

Este campo geopolítico americanocêntrico global pode ser descrito em diferentes níveis:

Historicamente: Os EUA se consideram a conclusão lógica e o ápice da civilização ocidental. Nos termos antigos, isto se apresentava como o Destino Manifesto dos EUA. Agora eles falam em termos de direitos humanos, promoção da democracia e da tecnologia, instituições de mercado e assim por diante. Mas em essência, estamos lidando com uma nova edição do universalismo ocidental, que passou pelo Império Romano, Cristandade Medieval, Modernidade (com o Iluminismo e a colonização), até o pós-modernismo e o ultra-individualismo de hoje em dia.  Considera-se a história como um processo unívoco (monotonal) de progresso tecnológico e social, o meio de se cultivar a liberação dos indivíduos em relação a todo tipo de identidades coletivas.  A tradição e o conservadorismo são considerados como obstáculos à liberdade e devem ser rejeitados. Os EUA são a vanguarda deste processo histórico e têm o direito e a obrigação (a missão!) de mover a história cada vez mais adiante. A existência histórica dos EUA coincide com o curso da história humana. Então, "americano" significa "universal." As outras culturas só têm ou um futuro americano ou futuro nenhum.

Politicamente: Há tendências muito importantes na Política Mundial que definem a Transição. Nós assistimos a transição do liberalismo para se tornar a única opção política global (na medida em que o ápice do pensamento político da modernidade vencia as doutrinas políticas alternativas -- o fascismo e o socialismo) para o conceito pós-moderno e pós-individual de política (geralmente descrito como pós-humanismo). Os EUA desempenham aqui o papel principal. A política promovida globalmente pelos EUA é a democracia liberal. Então, os EUA apoiam a globalização do liberalismo, preparando assim o próximo passo para a pós-modernidade política (descrita no famoso livro de A. Negri e M.Hardt "Império”). Há alguma distância entre o ultra-individualismo liberal e o pós-humanismo propriamente dito (promover [sic] ciborgues, modificações  genéticas, clonagem e quimeras [sic]) , mas, na periferia do Mundo, temos a tendência mais comum -- a acelerada destruição de todas as entidades sociais holísticas, a fragmentação e a atomização da sociedade incluída na tecnologia (internete, celulares e assim por diante), onde o principal ator é estritamente individual e está desconectado do contexto natural e social. Há um importante testemunho do uso duplo da promoção da democracia descrito explicitamente no artigo do especialisa militar e político americano Stephen R. Mann[1], que afirma que a democracia pode funcionar como um vírus auto-replicante que fortalece as sociedades histórica e plenamente democráticas existentes mas destrói e submerge no caos as sociedades tradicionais que não estão preparadas para ela. Então, considera-se a democracia uma arma eficaz para se criar o caos e se gorvernar as culturas mundiais em dissipação a partir do Núcleo, emulando e instilando [sic] em toda parte os códigos democráticos. Vemos como isto funciona nos últimos acontecimentos nos países árabes. Depois de [se] completar a total fragmentação das sociedades até os átomos individuais, começará uma segunda fase: a divisão dos próprios indivíduos em partes e novas combinações (genéticas, por exemplo) dos elementos, ao modo da criatividade pós-humana. Isto pode ser descrito como a pós-política [,] como o último horizonte do futurismo político.

Ideologicamente: Há a tendência, no caso dos EUA, de se ligar mais ideologia e política na zona da periferia. Antes, os EUA agiam na base do puro realismo: se os regimes fossem pró-EUA, eles eram tolerados, sem se considerarem seus princípios ideológicos. A Arábia Saudita representa o exemplo cristalino disto. Então, algumas características da dupla moralidade eram ideologicamente aceitas. Parece que recentemente os EUA começaram a tentar aprofundar a democracia, apoiando revoltas populares no Egito e na Tunísia, cujos chefes eram amigos de confiança dos Estados Unidos, sendo ao mesmo tempo ditadores corruptos. Os duplos critérios desta ideologia estão desaparecendo e o aprofundamento da democracia progride. O ponto culminante será alcançado no caso de prováveis agitações na Arábia Saudita. Neste momento, esta tendência de se promover a democracia em bases ideológicas -- inclusive em circunstâncias politicamente difíceis -- será testada.

Economicamente: A economia dos EUA enfrenta o desafio do crescicmento chinês, da questão energética, da desproporção crítica entre o setor financeiro e o real setor produtivo.  O crescimento excessivo das instituições [institutes] financeiras americanas e o deslocamento da produção criaram a descontinuidade entre a esfera do dinheiro e a esfera do equilíbrio capitalista clássico entre produção e demanda. Esta foi a principal causa da crise financeira de 2008. A politica econômica chinesa tenta reafirmar sua independência frente à estratégia global dos EUA e um dia pode se tornar o principal fator da competição [sic]. O controle russo, iraniano, venezuelano e [de] outros países relativamente independentes (dos EUA) sobre a imensa quantidade [sic] dos recursos naturais [im]põe os limites à influência econômica americana. A economia d[a] Comunidade Européia e o potencial econômico japonês representam os dois polos de competição dentre os parceiros estratégicos e aliados militares dos EUA. Então, os EUA tentam resolver todos estes problemas usando não só instrumentos puramente econômicos mas também a política e às vezes o poderio militar. Podemos interpretar deste modo a intrusão no Iraque e Afeganistão, a possível intervenção na Líbia, no Irã e na Síria. Promovendo a oposição na Rússia, no Irã, na China e tentando criar alguns problemas com a Turquia e o Islamismo radical para a Europa, os EUA querem alcançar os mesmos objetivos. Mas estas são apenas soluções técnicas. O principal desafio é como organizar a economia pós-moderna e centrada nas finanças com [um] crescimento assegurado que sobrepuje a disparidade cada vez maior entre o setor real [sic] e os instrumentos cuja lógica se tornam cada vez mais autônoma.

Então, obsrvamos o ator principal e assimétrico, os EUA, situados no centro do atual estado de Transição dos assuntos mundiais. Este ator representa a verdadeira hiper-potência (H.Vidrine) e o mais forte campo geopolítico (que inclui todos os níveis passados em revista antes) está estruturado em torno do Núcleo americano, representando suas redes em múltiplos níveis. A pergunta pode ser levantada aqui: está este ator plenamente consciente do que faz e [,] se [é que] entende bem o que obterá no fim; [sic] que tipo de Ordem vai obter?  Parece que as opiniões sobre esta importantíssima questão estão divididas: os neoconservadores proclamam o Novo Século Americano, sendo otimistas em relação ao futuro Imério Americano. Mas, em seu caso, é óbvio que eles têm [uma] clara (isto não quer dizer necessaria[mente] realista) visão do futuro (americano, mais precisamente do futuro norte-americano [sic]). Neste caso, a Ordem Mundial será [uma] Ordem Imperial americana baseada na geopolítica unipolar. Pelo menos teoricamente, [ela] tem algum [sic] ponto positivo: é clara e honesta.

Os multilateralistas são mais cautelosos e insistem na necessidade de se convidarem outros poderes regionais para compartilharem com os EUA do ônus do governo planetário. É óbvio que apenas sociedades similares (aos EUA) podem ser parceiras, então o sucesso da promoção da democracia torna-se aqui a preocupação essencial. Os multilateralistas não agem só em nome dos EUA, mas também em nome do Ocidente, considerado como algo de universal. A imagem do futuro da Ordem Mundial é mais obscuro. O destino da democracia global é nebuloso e não está tão claramente definido quanto a imagem d[o] Império americano. 

Ainda mais envolta em névoas está a versão extremada dos promotores da globalização acelerada. Ela pode, de fato, derrubar os estados nacionais existentes, mas, em alguns casos, só abrirá o caminho para forças muito mais arcaicas, locais, religiosas ou étnicas. Então, a versão em escala planetária da sociedade aberta é uma perspectiva tão fantástica que é muito mais fácil se imaginarem o caos total e a guerra de todos contra todos.

Então, a imagem da futura Ordem Mundial difere em relação ao grupo de ideólogos e governantes americanos. [Uma] estratégia mais coerente é ao mesmo tempo mais etnocêntrica, abertamente imperialista e hegemônica. É [uma] Ordem Mundial unipolar. As outras duas versões são muito mais vagas e incertas. Até certo ponto, podem dar margem a uma desordem mundial. Elas podem ser sumariamente chamadas de "não-polares" (R. Haass).

Então, a Transição em questão, em todo caso, é americanocêntrica por natureza e o campo geopolítico global está estruturado de modo a que os processos globais fossem moderados, orientados, dirigidos e às vezes controlados pelo único ator executando seu trabalho sozinho ou com a ajuda dos aliados ocidentais pró-americanos/ocidentais (ou pelo menos pró-ocidentais).

A Ordem Mundial do ponto de vista não-americano

A perspectiva de mundo americanocêntrica descrita acima, mesmo sendo a mais importante e central como tendência global, não é a única possível. Pode haver e há as concepções alternativas de arquitetura de Mundo que podem ser levadas em consideração. Há atores secundários e terciários que serão perdedores inevitáveis no caso do sucesso da estratégia dos EUA: os países, estados, povos, culturas que perderiam tudo e não ganhariam nada quando a estratégia se realizasse. Eles são vários e heterogêneos. Podemos agrupá-los em diferentes categorias.

1) A primeira categoria compõe-se de Estados nacionais que não estão felizes em deixar [sic] sua independência para a autoridade supra-nacional exterior -- não na forma de uma hegemonia americana aberta, nem em um tipo ocidentocêntrico de Governo Mundial, nem na dissolução caótica. Há muitos de tal [sic] países -- a começar pela China, pela Rússia, Irã, Índia, incluindo-se muitos Estados sul-americanos e islâmicos.  Eles não gostam de forma alguma da Transição, suspeitando [sic] (com boas rações) a inevitável perda da soberania.  Então, eles estão inclinados a resistirem às principais consequências lógicas do sucesso d[a] estratégia geral americana (não faz diferença se imperialista ou globalista). A vontade [sic] da conservação da soberania representa a contradição natural e o ponto de resistência diante das tendências pró-americanas (ou globalistas). Estes países em geral mal possuem a concepção alternativa da Ordem Mundial futura. O que eles querem é preservar seu status quo e [seus] Estados nacionais na forma atual, ajustando-os e modernizando-os, se necessário. Entre os membros destes clubes de Estados nacionais, há três tipos de atores: 1) os que tentam se adaptar aos padrões ocidentais e manter relações amigáveis com o Ocidente e os EUA, mas também evitar a de-soberanização direta (Índia, Turquia, Brasil [e] até cento ponto a Rússia e o Cazaquistão);

2) Os que estão prontos a cooperar com os EUA, mas sob condições de não-interferência em seus assuntos internos (Arábia Saudita, Paquistão e assim por diante);

3) Os que, cooperando com os EUA, observam estritamente a particularidade de sua sociedade, fazendo [uma] filtragem permanente do que é compatível na cultura ocidental com a cultura doméstica ou o que [sic] não é, ao mesmo tempo tentando usar os dividendos obtidos com esta cooperação para o fortalecimento da independência nacional (China);

4) Os que tentam se opor aos EUA, rejeitando diretamente os valores ocidentais, a unipolaridade e a hegemonia dos EUA (Irã, Venzuela, Coréia do Norte).

Todos estes grupos carecem da estratégia alternativa global que pudesse ser simetricamente comparável ao projeto (não há sequer uma que seja consensual ou clara) de futuro. Todo mundo age sozinho e em seu próprio interesse direto. A diferença consiste apenas no radicalismo da rejeição à americanização. Podemos definir suas posições como reativas. Esta estratégia de oposição, variando da rejeição à adaptação, é às vezes eficaz, às vezes não. Em resumo, ela não dá nenhum tipo de projeto de futuro. Considera-se o futuro da Ordem Mundial como a conservação eterna do status quo -- Modernidade, Estado nacional, sistemas vestfalianos, configuração atual da ONU e assim por diante.

A segunda categoria de atores que rejeitam a Transição consiste em grupos subnacionais, movimentos e organizações que se opõe ao americanismo (enquanto estruturas do campo geopolítico global) por razões ideológicas, religiosas ou culturais. Estes grupos são muito diferentes e variam de um estado concreto [sic] para outro. Eles estão na maior parte baseados na fé religiosa incompatível com a doutrina secular da americanização, ocidentalização e globalização. Mas eles podem ser motivados pelas doutrinas étnicas ou ideológicas (por exemplo, socialista ou comunista). Alguns outro [sic] agem pelas razões regionalistas.  O paradoxo é que no ambiente de globalização que visa uniformizar todas as particularidades e identidades coletivas na base de identidade puramente individual, tais atores subnacionais facilmente se tornam transnacionais -- estando as mesmas religiões e ideologias presentes em diferentes países e Estados nacionais.  Então, nestes círculos, podemos encontrar algum projeto alternativo para a Ordem Mundial que pode ser contraposto à Transição e suas estruturas.

Podemos resumir aproximativamente as diferentes idéias de alguns dos mais importantes grupos sub- e transnacionais:

1) O mais famoso é o plano do mundo islamista, que representa a utopia do Estado Mundial Islâmico (Califado Global). Este projeto opõe-se tanto à arquitetura americana quanto ao status quo dos modernos Estados nacionais. Bin Laden é o símbolo de tal tendência de idéias e as duas torres do World Trade Center de Nova Iorque, no 11 de setembro, são a prova da importância e seriedade de tal rede.

2) O outro projeto pode ser definido como [o] plano neo-socialista representado pela Esquerda latino-americana e pessoalmente por Hugo Chavez. Esta é aproximadamente uma nova edição de [uma] crítica marxista  d[o] capitalismo, fortalecida por emoções nacionalistas e, em alguns casos (Bolívia, Zapatistas), sentimentos étnicos. Alguns regimes árabes (como [a] Líbia de Kaddhafi, até recentemente) podem ser considerados na mesma linha. A próxima Ordem Mundial aqui é representada como [uma] revolução socialista global, precedida pelas campanhas de libertação anti-EUA em todos os países. A Transição é identificada por este grupo como a encarnação d[o] imperialismo clássico criticado por Lênin.

3) Pode-se encontrar o terceiro exemplo de tal espécie no Projeto Eurasiano (ou "multipolar', ou "de grandes espaços"), que propõe o modelo alternativo de Ordem Mundial baseado no princípio de civilizações e grandes espaços.  Ele supõe a criação de diferentes entidades transnacionais políticas, econômicas e estratégicas unidas por comunidade de civilização e valores (em alguns casos, religiosos [,] em outros, seculares e culturais) principais. Elas deveriam consistir em Estados integrados e representar os polos do mundo multipolar. A União Européia pode ser um exemplo de tal formato. Também pode haver [uma] União Eurasiana (projeto do presidente do Cazaquistão, N. Nazarbayev), [uma] União Islâmica, a União Sul-Americana, [uma] União Chinesa, a União Indiana, [uma] União do Pan-Pacífico e assim por diante. O grande espaço norte-americano pode ser considerado um dos vários outros polos mais ou menos iguais, nada mais.

Poderíamos acrescentar algumas outras teorias, mas elas são de menor envergadura. 

Há, no atual estado das coisas, um grave hiato entre os Estados nacionais e os movimentos ideológicos mencionados acima, operantes nos diferentes níveis. Então, os Estados nacionais carecem de estratégia e os movimentos carecem de infraestrutura suficiente para porem suas idéias em prática. Se imaginarmos que,  sob algumas circunstâncias, este hiato pudesse ser fechado, a alternativa à Transição e às tendências americano- ou ocidentocêntricas (levando-se em consideração o peso demográfico, econômico e estratégico do mundo não-ocidental) tomará a forma realista [sic] e pode [sic] ser considerada seriamente como [um] plano coerente e teoricamente embasado de [uma] Ordem futura concreta.

[1] Stephen R. Mann Chaos Theory and Strategc Thought/ Parameters 2U3, Autumn, 1992.

Tradução por Dextra
 
 

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