sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Mística e Ação

por Alfred Rosenberg

No Viking nórdico, no cavaleiro germânico, no oficial prussiano, no pescador báltico, no soldado alemão e no campesino alemão. Em todos reconhecemos o conceito de honra gerador da vida em suas mais distintas manifestações telúricas. Na poesia, vemos aparecer desde as velhas epopéias, passando por Walther von Vogelweide, os santos dos cavaleiros, até Kleist e Goethe, a questão honra e a liberdade interior como as mais importantes leis configuradoras. Agora bem: ainda há outra nobre ramificação, na qual podemos perseguir a atuação do ser nórdico: o lado místico alemão.

Este místico se esforça por demonstrar-se cada vez mais desapegado do mundo material. Reconhece o instintivo de nossa existência humana, o gozo, o poder, mas também as assim chamadas boas ações como não-essenciais para a alma; mas quanto mais supera todo o terreno pesado, tanto maior, rico, em divino, sente um dever interno. Descobre uma força puramente anímica e sente que esta sua alma representa um centro de força puramente anímica à qual decididamente nada é comparável. Esta liberdade e despreocupação da alma frente a tudo, também frente a Deus, e o afastamento de toda compulsão, que é também de parte de Deus, mostra a mais profunda penetração até onde podemos seguir adiante com o conceito nórdico de honra e liberdade. Ela representa o “castelo-fortaleza da alma”, aquela “pequena fagulha” da qual com assombro Meister Eckardt fala sempre com renovada admiração; representa também a essência mais íntima, mais terna e, sem dúvidas, mais forte de nossa raça e cultura. Eckardt não designa com um nome a isto, o mais íntimo, dado que o sujeito puro de conhecimento e da volição deve ser inanimado, sem qualidades, separado de todas as formas do tempo e espaço. Mas hoje nós podemos ousar designar esta “pequena fagulha” que, não obstante, mostrou-se como uma chama devoradora, tal qual uma alegoria metafísica das idéias de honra e liberdade. 

Pois estas não são em última instância qualidades exteriores, mas essenciais fora do tempo e espaço, que formam aquela “fortaleza” desde a qual a genuína vontade e razão empreendem suas saídas “ao mundo”, seja para vencê-lo ou para utilizá-lo como expediente provisório para a realização da alma.


A boa nova da mística alemã foi estrangulada com todos os meios pela igreja inimiga da Europa, antes que chegasse a sua floração completa. Esta mensagem, no entanto, nunca havia perecido por completo; o grande pecado do protestantismo foi que no lugar de guiar-se por ela, fez do Velho Testamento o livro do povo, tornando os judeus como seus ídolos. A época atual do restabelecimento de disposição da alma ou bem prestará atenção (mesmo que sob novas formas) à mensagem de mística alemã, ou fenecerá sob pistões das velhas potências diante da sua militaria. Isto já ocorreu, com mais de uma tentativa de restabelecimento de nosso ser, após o envenenamento romano-judaico tê-lo realizado. Para a “mente esclarecida e ao espírito elevado” que Meister Eckardt exigia de seus ouvintes, deve somar-se hoje uma vontade dura, que seja o suficientemente valente como para extrair todas as conclusões de seu conhecimento. “Se queres ter a amêndoa, deves romper com a casca” – Eckardt.

Seiscentos anos se passaram desde que o maior apóstolo do ocidente nórdico trouxe-nos novamente nossa religião, dando-lhe uma vida rica – desintoxicando nosso ser e dever, superando o dogma sírio que avassalava o corpo e alma, despertando o próprio Deus no peito, trazendo-nos o “Reino dos céus dentro de nós mesmos”.

Na busca por um novo vínculo anímico com o passado, não são os piores do movimento atual de renovação os que retrocedem somente às Eddas e aos círculos de idéias germânicas com elas aparentados. 

A eles, em primeira instância, nossas sagas e lendas voltaram a ser vistas com riqueza, sob os escombros e a cinza das fogueiras. No entanto, as comunidades religiosas germânicas, ao ganharem poder, passaram a perseguir a sede de busca de gerações passadas e suas alegorias religiosas, pois Wotan, neste sentido, está morto. Não morreu a causa de “Bonifácio” senão por ele mesmo; levou, ao final, a realização dos deuses em uma época mitológica, de um simbolismo despreocupado e desapegado da natureza. Já era possível pressentir sua queda nos cânticos nórdicos, mas dentro do inevitável ocaso dos deuses se teria, diante de tudo, esperança na “poderosa chegada”. Mas, para a desgraça da Europa, em seu lugar se colocou o Javé Sírio; na figura do seu “Lugar tenente”, o papa etrusco-romano. Wotan estava e está morto; em sua poderosa chegada, entretanto, descobriu o místico alemão em sua alma. O divino Valhalla baixou, em meio à névoa distante, ao peito do ser humano. O descobrimento da alma deu-se através daquela ação salvadora e heróica que até hoje nos protegeu contra todas as tentativas de estrangulamento. A história religiosa do ocidente é, conseqüentemente, quase exclusivamente feita das rebeliões religiosas.

Uma religião genuína existiu dentro da igreja apenas enquanto a alma nórdica não pôde ser impedida de sua força (como São Francisco e Fra Angélico), pois seu eco na humanidade ocidental consistia em tudo o que havia de mais poderoso.

No místico alemão, manifesta-se primeira vez e conscientemente – ainda que na roupagem de seu tempo – o novo homem germânico, ressuscitado. Nem na época do chamado Renascimento ou na Reforma se consumiu o nascimento anímico de nossa cultura – estas épocas representam melhor uma eclosão exterior de luta desesperada – senão nos séculos 13 e 14, quando emerge a idéia da personalidade anímica. 

A idéia básica de nossa história chega a ser, pela primeira vez, uma religião e uma doutrina vital; nesta época, também é antecipada, de modo consciente, a essência da nossa filosofia crítica posterior, e do ocidente nórdico, a que, tendo atuado através das almas de muitas gerações, não pôde ser solucionada em forma geral, até que o tempo lhe fosse maduro. “Os poços mais profundos têm as mais altas águas”. Nosso tempo destinou-se às mais longínquas profundezas para alcançar a luz, o mais elevado. Depende dele mesmo se irá mostrar-se digno desta missão. Mais de trezentos anos se passaram desde que o nome de Cristo significou algo aos povos do mar mediterrâneo; aproximadamente mil tiveram se transcorrer até que penetrasse em todo ocidente.

Confúcio morreu louvado apenas por poucos. Recém trezentos anos depois de sua morte, teve-se início sua veneração; quinhentos anos mais tarde, foi erguido o primeiro templo. Hoje em mais de mil e quinhentos templos se reza a ele como a um “Santo perfeito”. Também sobre o túmulo do Meister Eckardt tiveram de passar seiscentos anos até que a alma alemã pudesse compreendê-lo. Hoje, parece como se uma elevação passasse pelo povo, indicando-lhe o caminho para uma possível maturidade que o faz apreciar este apóstolo dos alemães, “O mestre santo e bem-aventurados”.

Um comentário:

  1. "E Bonifácio sacudiu com punhos brutais essas coisas sagradas de outrora! Queria negar aos germanos a verdade desse saber e declara-lo falso." (Ver Na Luz da Verdade, O reconhecimento de Deus, Abdruschin, 1875-1941)

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