quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Episódio da Guerra Civil Espanhola

publicado na revista «Política», pág. 20, nº 20/21, 15.08/15.09.1973

Estava escrito que o coronel Moscardó, comandante da guarnição de Toledo a data da sublevação nacionalista e, depois, defensor-mor do Alcazar, havia de ser protagonista do episódio mais célebre e mais atroz, ocorrido durante o cerco a fortaleza.

Pouco mais ou menos na altura da insurreição, o coronel encontrara, em Madrid, o seu filho José, então aspirante da Escola Militar, e demovera o rapaz do projecto de ir até à Alemanha assistir as Olimpíadas. Regressou depois a Toledo, onde vivia com a mulher, Dona Maria Guzman, e dois filhos. (Ao todo, o casal contava cinco descendentes: quatro rapazes e uma jovem de vinte anos, Marichu, que estava então a férias em casa de uns parentes. O mais velho, dos varões, Miguel, era oficial dos Regulares em Marrocos. José, dissuadido da viagem, seguira para Barcelona: foi morto ali pelos marxistas. Em Toledo, ficara Luís, de dezassete anos, e Carmelo, de catorze). Quando o coronel se encerrou no Alcazar, tamanha confusão se gerou, que não houve maneira de Moscardó se fazer acompanhar da mulher e dos filhos. Dona Maria refugiou-se, então, na residência de um tenente-coronel amigo do marido, mas os vermelhos a breve trecho descobriram o seu paradeiro. Avisada a tempo, logrou escapar-se com o pequeno Carmelo. Luis caíu em poder dos rojos. 

Volvidos dois dias, o chefe das milícias comunistas de Toledo telefonou a Moscardo, a comunicar-lhe que o filho estava preso, havia quarenta e oito horas. E ameaçou:

«— Se o senhor não capitular dentro de dez minutos, fuzilaremos o rapaz!»

«— Você não é um militar nem um homem digno — retorquiu Moscardó —. De contrário, saberia que a honra de um oficial não cede a ameaças.»

«— Pensa assim, porque não dá crédito ao que Ihe digo — replicou o outro, E acrescentou:—Pois bem, falará pessoalmente com o seu filho. (O coronel ouviu-o gritar para dentro: "Moscardó, venha aqui!")»

A voz de Luís chegou aos ouvidos do comandante do Alcazar:

«— Oiga, papa!?

— Que se pasa, filho?

— Nada de especial. Dizem que me fuzilarão, se não resolveres entregar-te.»

O comissário marxista reiterou a ameaça. Moscardó inteirou-o de que uma série de acontecimentos concorrera para que o Alcazar Ihe estivesse confiado. Logo, não poderia abandonar a fortaleza, sob pena de faltar ao cumprimento do dever.

O coronel conseguiu falar, de novo, com o filho, e este procurou tranquilizá-lo.

«— Não farão o que dizem.»

Mas logo perguntou:

«— Que conselho me dás?»

Moscardó, sem nenhumas ilusões acerca da benevolência daqueles que praticavam uma chantagem tão ignóbil, respondeu:

«— Sabes como penso. Se é certo que vão fuzilar-te, encomenda a tua alma a Deus, e envia os teus pensamentos para a Espanha e para Cristo-Rei.

— É simples, meu pai. Pensarei em ambos.»

Por fim, exclamou:

«— Um abraço muito apertado, papá.»

«— Adeus, meu filho! Um grande abraço!»

A 12 de Agosto, os milicianos prenderam Dona Maria e Carmelo, e enfiam com ambos na mesma cadeia de Luís.

A 14, chamaram o rapaz e ordenaram-lhe que formasse ao lado de outros condenados. Toda a gente sabia que iam levá-los à Sinagoga del Transito para fuzilá-los. 

O pequeno Carmelo gritava:

«— Quero ir com o meu irmão!»

«— Está descansado — dizia-lhe Luís —. Não me farão mal. Levam-me para que eu fale outra vez com o papá.»

Beijou a mãe e, minutos depois, tombava varado pelas balas dos marxistas.

É provável que, nos subterrâneos do Alcazar, todos os sitiados tivessem sabido da chantagem e do sacrifício. A verdade, porém, é que o coronel Moscardó, a tal respeito, jamais comunicou oficialmente fosse o que fosse, enquanto durou o assédio ao glorioso baluarte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.