domingo, 13 de fevereiro de 2011

A Besta Eficiente

(por José Javier Esparza)

"(…) Tudo, porém, faz parte do mesmo: um processo geral de tecnicização do ensino, onde a instrução “prática”, isto é, imediatamente traduzível em termos laborais ou técnicos (Inglês, Informática, etc), marginaliza primeiro e expulsa depois os conhecimentos “teóricos”, isto é, aqueles que “só” servem para estudar o sentido da vida. O bom, o belo, o justo, são desterrados das salas de aulas em benefício do útil. Mas se não sabemos onde está o bom, o belo e o justo que sentido dar a essa utilidade? Para que serve o útil? A tragédia do utilitarismo é que acaba por ser inútil.

A pergunta “para que serve estudar filosofia” admite sempre uma só resposta: Estudar filosofia serve para não fazer perguntas tão tontas. Isto haveria que explicá-lo – ainda que talvez seja inútil – a quem se empenhou em converter os centros de ensino em simples dispensários de instrução “prática”. A finalidade da educação – que é algo mais que simples instrução – não é só formar seres úteis para a sociedade, isto é, fabricar bons sistemas; criar bestas eficientes é um horizonte bem pouco prometedor. A educação serve para coisas muito mais altas. Os gregos, por exemplo, viam a formação do cidadão como uma obra de arte. Por isso ensinavam coisas tão pouco “práticas” que projectaram a sua sombra durante milénios. Os egípcios, pelo contrário, limitavam o ensino à pura instrução técnica da casta dos escribas; a sua civilização, que obteve êxitos surpreendentes, desapareceu sem deixar rastro vivo na História. Hoje o caminho da Europa, paradoxalmente, afasta-se da Grécia clássica e abraça o modelo do Egipto dos faraós. A poeira engolir-nos-á nas nossas faustosas pirâmides.

Uma velha piada relata que um automóvel avança pela auto-estrada a toda a velocidade. Dentro vão dois tipos. Pergunta um ao outro: «Onde vamos?». O outro olha o seu relógio e responde: «Não sei, mas levamos uma média excelente». Não há dúvida de que a nossa civilização leva uma média excelente. Mas, efectivamente, há tempo que deixou de nos interessar saber para onde vamos."

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