sábado, 29 de janeiro de 2011

Liberais: o Inimigo dentro dos portões

por C.J. Carnacchio

A guerra filosófica entre os conservadores e os liberais começou há duzentos anos quando a primeira cabeça de um aristocrata francês foi colocada numa estaca como declaração de guerra à sociedade prescritiva. Os liberais são discípulos do iluminismo e ferozes apoiantes da Revolução Francesa. São os filhos bastardos de Jean-Jacques Rousseau e Thomas Payne.

Os conservadores, por outro lado, são os discípulos do estadista britânico do século XVIII, Edmundo Burke. Foi a sua ardente diatribe contra a Revolução Francesa, na obra “Reflections on the Revolution in France”, que deu aos conservadores a sua substância filosófica para os próximos dois séculos. Burke falou contra as atrocidades dos revolucionários jacobinos bem como contra filósofos do iluminismo como Rousseau, que ele viu como responsáveis pela revolução.

Infelizmente a maioria dos conservadores e liberais de hoje ignoram esta querela de 200 anos. A maioria acredita que a aliança baseada em interesses comuns superficiais constitui uma prática política sólida. Mas o pacto dos conservadores com os liberais tem sido muito prejudicial para a causa do verdadeiro conservadorismo, tal como exposto por Burke. Demasiado frequentemente ouvimos pretensos conservadores a cantarem constantes loas ao livre-mercado e ao individualismo em vez de falarem de tradição e espírito comunitário. Os liberais poluíram de tal modo as águas intelectuais do verdadeiro conservadorismo com o seu lixo ideológico que muitos conservadores têm agora dificuldade em distinguirem entre as duas coisas. À luz disto, queria aproveitar esta oportunidade para lembrar aos conservadores como eu os extremos abismos filosóficos que sempre separaram o homem conservador da besta liberal. 

A mais fundamental diferença entre o conservadorismo e o liberalismo é de ideologia. O liberalismo é uma ideologia baseada em ideias e doutrinas abstractas como o livre-mercado, liberdade absoluta, e individualismo radical. O liberal acredita tolamente que se os seus ingredientes abstractos forem apropriadamente misturados no caldeirão social, uma utopia terrestre brotará.

O conservadorismo, como H.Stuart Hughes declarou, é a negação da ideologia. A ideologia é fundada sobre ideias abstractas que não possuem qualquer relação com a realidade, enquanto o conservadorismo é fundado sobre a história, a tradição, o costume, a convenção e a prescrição. Como Russel Kirk afirmou:”o conservadorismo …é um estado de espírito, um tipo de carácter, uma maneira de olhar para a ordem social civil. A atitude a que chamamos conservadorismo é sustentada por um conjunto de sentimentos, em vez de um sistema de dogmas ideológicos.” O conservador põe a sua fé na sapiência dos seus antepassados e na virtude da experiência, em vez de no jargão abstracto dos “sofistas, calculadores e economistas”. Ele sabe que não existem fórmulas políticas simples aplicáveis a todos os problemas do mundo.

Depois, os conservadores e os liberais divergem sobre o que une a sociedade civil. Os liberais vêem a sociedade civil como algo artificial – um acordo dissolúvel feito para fomentar os interesses próprios individuais. Na sua visão repugnante, a sociedade é “uma parceria de coisas apenas subserviente à grosseira existência animal de natureza temporária e perecedoura”. A sociedade é apenas uma máquina com partes inter-permutáveis e separáveis, diz o liberal. 

Em contraste, o conservador declara que a sociedade não é um mísero acordo económico ou um funcionamento mecânico, é uma entidade espiritual e orgânica. O conservador, imbuído com o espírito de Burke vê a sociedade como uma parceria entre os vivos, os mortos e os que estão ainda por nascer – uma comunidade de almas. Cada contrato social, em cada Estado particular “ não é senão uma cláusula no grande contrato primevo de eterna sociedade, ligando as baixas e altas naturezas…”.

Não é verdade que a legitimidade do Estado seja dependente apenas do consentimento tácito, como os liberais querem que acreditemos. A legitimidade do contrato social é fruto da história e das tradições que vão muito para além de qualquer simples geração. O presente não é livre, como os racionalistas nos dizem, de redesenhar a sociedade em função de doutrinas abstractas ou dogmas teóricos. Como Russel Kirk disse:” a sociedade é muito mais do que um mecanismo político…se a sociedade for tratada como um simples mecanismo para ser gerido com preceitos matemáticos, então o homem será degradado em algo muito mais baixo do que um parceiro no contrato imortal que une os mortos, os vivos e os ainda por nascer, o laço entre Deus e o homem”.

O próximo ponto filosófico em que os conservadores e os liberais cruzam espadas é no conceito de liberdade. Os liberais acreditam que a liberdade é a primeira prioridade de qualquer sociedade. Mas a liberdade que eles tanto valorizam é solitária, desligada, individual e egoísta. A sua é uma liberdade abstracta divorciada da ordem e da virtude. O liberal vê a liberdade como algo bom em si e de si e procura constantemente maximizá-la, seja qual for o custo. 

O conservador acredita que a ordem é a primeira prioridade da sociedade, pois é apenas no quadro de uma ordem social duradoura que uma verdadeira e estável liberdade pode ser alcançada. Para o conservador, a única liberdade é “uma liberdade ligada à ordem: que existe não apenas a par da ordem e da virtude mas que não pode existir de todo sem elas”. Quando considera os efeitos da liberdade, o conservador ouve as palavras de Burke a ecoarem:” O efeito da liberdade para o indivíduo é que eles podem fazer o que quiserem: devíamos ver o que eles querem fazer, antes de arriscarmos congratulações, que podem rapidamente ser transformadas em lamentações.”

O individualismo é o próximo campo de batalha onde os conservadores e os liberais soltam os cães de guerra. Os liberais possuem uma ideologia de individualismo que nega que a vida tenha algum significado para além da gratificação do ego. Eles imaginam uma utopia de individualismo onde o homem existe para o seu próprio fim e os seres humanos são reduzidos a átomos sociais. O egoísmo é uma virtude, diz o liberal.

Os conservadores reconhecem que a unidade social básica não é o individuo mas o grupo – grupos autónomos como a família, a igreja, a comunidade local, a vizinhança, a escola, o sindicato, a guilda, etc. Estes grupos intermedeiam entre o indivíduo e o Estado e ajudam a preservar a ordem social. Como Robert Nisbet assinalou:” Libertem o homem do contexto da comunidade e não terão liberdade e direitos mas intolerável solidão e sujeição a demoníacos medos e paixões”. O conservador valoriza o espírito de comunidade e concorda com Marco Aurélio que dizia que “nós somos feitos para a cooperação, como as mãos, como os pés”. 

Tanto os liberais como os conservadores apoiam a economia de mercado, mas diferem no grau da sua devoção. Muitos liberais idolatram o mercado como se fosse uma religião – de facto muitos não têm qualquer problema em substituir a cruz pelo símbolo do dólar. Mas os liberais não confinam o seu zelo pelo mercado à arena económica. Eles acreditam que o mercado é uma doutrina abstracta aplicável a todas as facetas da vida e dos problemas sociais. Na verdade os liberais são apenas marxistas invertidos, que substituem o livre-mercado ao socialismo não só como o sistema económico dominante mas também como a influência social e politica determinante.

Os Conservadores sabem que a sociedade é demasiado complexa para ser reconstruída de acordo com doutrinas económicas abstractas. Têm o homem e a sociedade em demasiada consideração para rebaixar toda a existência à produção e consumo de bens materiais – o nexo dos fluxos de caixa é de facto um fraco elo social. As leis do comércio não são substitutas para as leis da convenção.

Em conclusão, o liberalismo é tanto um anátema para o verdadeiro conservadorismo burkeano quanto o marxismo e deve ser enfrentado com a mesma ferocidade. Como Russel Kirke uma vez disse:” A adversidade une por vezes estranhos amantes, mas os actuais feitos dos conservadores, desaconselham a que se deitem, quais carneiros, com os leões liberais”

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