domingo, 16 de janeiro de 2011

A Civilização Americana

por Julius Evola

O recentemente falecido John Dewey foi declarado pela imprensa norte-americana a figura mais representativa da civilização americana. Isto é bastante correto. Suas teorias são representativas do conceito de homem e da vida que tem o americanismo e sua “democracia”.

A essência destas teorias é esta: todos podem converter-se no que querem, dentro dos limites que marquem os meios tecnológicos disponíveis. Igualmente, uma pessoa não é o que dita sua verdadeira natureza, porque não há diferenças reais entre as pessoas, só diferenças em qualificações. Segundo esta teoria todos podem ser como outra pessoa se sabem como formar a si mesmos.

Este é o ideal do “sel-made-man”; em uma sociedade que perdeu todo sentido da tradição o ideal de engrandecimento individual se estende a todos os aspectos da existência humana, reforçando a doutrina igualitária da democracia pura. Se aceitarmos tais idéias, então toda a diversidade natural tem que ser abandonada. Assim, cada pessoa pode presumir de possuir o mesmo potencial que outra e os termos superior e inferior perdem seu significado; também toda noção de distância e respeito; já que todos os estilos de vida estão abertos a todos. Frente a todas as concepções orgânicas da vida, os americanos opõem uma concepção mecanicista. Em uma sociedade que “começou desde baixo”, tudo tem a característica de ser fabricado. Na sociedade americana as aparências são máscaras e não rostos. Ao mesmo tempo, os proponentes de “American way of life” são hostis ao ideal da personalidade.

A “abertura mental” dos americanos que às vezes é citada a seu favor, é simplesmente a outra face de seu vazio interior. Igual sucede com seu individualismo. O individualismo e a personalidade não são a mesma coisa: o primeiro pertence ao mundo sem forma da quantidade, o outro ao mundo da qualidade, da diferença e hierarquia. 

Os americanos são a refutação vivente do axioma cartesiano “penso, logo existo”: os americanos não pensam, entretanto, existem. A mentalidade americana, pueril e primitiva, não tem uma forma característica e assim esta aberta a todos os tipos de estandardização.

Em uma civilização superior, como por exemplo, aquela dos indo-ários, o ser que carece de uma forma característica ou casta (no sentido original da palavra), é um pária. Neste aspecto, a América é uma sociedade de párias. Houve um papel para os párias: submeter-se a seres que tem forma e leis próprias definidas. Entretanto, os párias modernos se emanciparam e desejam exercer seu domínio sobre todo o mundo.

Há uma idéia popular que sustenta que os Estados Unidos é uma nação jovem com um grande futuro pela frente. Assim, os defeitos americanos são descritos como “erros de juventude” ou “dores do crescimento”. Não é difícil observar como o mito do progresso teve uma grande influência em tal juízo de valor. Segundo a idéia de que tudo que é novo é bom, a América teria um papel privilegiado entre as nações civilizadas. Os Estados Unidos interviu na primeira guerra mundial como o defensor do “mundo civilizado” por excelência. A nação mais “evoluída” não só se viu com o direito, se não também com o dever de intervir nos destinos dos outros povos. Porém, a estrutura da histórica é cíclica e não evolutiva. A maioria das civilizações recentes não são necessariamente “superiores”. São na verdade senis e decadentes. Há uma correspondência entre a etapa mais avançada de um ciclo histórico e a mais primitiva. A América é a etapa final da trajetória histórica da Europa moderna. René Guénon chamou a América de “o último Ocidente”, no sentido de que os Estados Unidos representam a reductio ad absurdum dos aspectos mais negativos e senis da Civilização ocidental. O que na Europa existe de forma diluída é magnificado e concentrado nos Estados Unidos revelando-se como os sintomas da desintegração e de regressão cultural e humana. 

A mentalidade americana só pode ser interpretada como um exemplo de regressão, que se manifesta em sua incapacidade e incompreensão de toda sensibilidade superior. A mente americana tem horizontes limitados, reduzidos a tudo que é imediato e simplista, com a conseqüência inevitável de que tudo o que existe é banalizado, reduzido e nivelado até que perca todo seu caráter espiritual. A vida em sentido americano é inteiramente mecânica. O sentido do “eu” na América é reduzido inteiramente ao plano físico-material da existência. O americano típico, não tem dilemas nem complicações espirituais: é um conformista natural que se integra facilmente ao resto do sistema sem rosto.

A primitiva mentalidade americana só pode ser comparada a uma mentalidade infantil. A mentalidade americana é característica de toda sociedade regressiva.

A moralidade americana

É fictício o tão admirado sex appeal da mulher americana que é mostrado nos filmes e revistas. Uma recente investigação médica nos Estados Unidos, mostrou que 75% das jovens americanas carecem de uma forte sensibilidade sexual e que em vez de satisfazer sua libido preferem buscar o prazer narcisista no exibicionismo, na vaidade do culto do corpo e na saúde no sentido estéril. As moças americanas não têm “problemas com o sexo”, são fáceis para o homem que vê o processo sexual como algo isolado e por conseqüência pouco interessante. Assim, por exemplo, logo de ser convidada a ver um filme ou a dançar, é positivo, segundo os costumes americanos, que uma moça se deixe beijar sem que tal ato signifique nada no plano sentimental. As mulheres americanas são frias, frígidas e materialistas. O homem que “tem algo” com uma moça americana obriga-se materialmente, financeiramente com ela. A mulher lhe concedeu um favor material. No divórcio a lei americana favorece majoritariamente a mulher. As mulheres americanas pedem o divorcio quando conseguem um candidato melhor. Na América, o matrimônio não é mais que uma relação monetária, uma forma de prostituição legal. 

 “Nossos” meios de comunicação americanos

A americanização da Europa se estende e se faz cada vez mais evidente. Na Itália, é um fenômeno que se desenvolveu rapidamente nestes anos pós-guerra e que é considerado pela maioria das pessoas, se não de forma entusiasta, ao menos como algo natural. Faz algum tempo que escrevi que dos dois grandes perigos que confronta a Europa - o americanismo e o comunismo - o primeiro era mais negativo. O comunismo só é um perigo pelas conseqüências repressivas que acompanhariam a imposição da ditadura do proletariado. Enquanto que a americanização se impõe por meio de infiltração gradual, que modifica as mentalidades e os costumes, e que parece inofensivo, mas realiza uma perversão e degradação contra o qual é impossível lutar diretamente.

Os italianos são débeis para começar uma luta como esta. Ao esquecer sua própria herança cultural, rapidamente vêem os Estados Unidos como uma espécie de guia no mundo. Qualquer um que deseja ser moderno tem que medir-se segundo o critério americano de vida. É triste ver uma nação européia desvalorizar-se a si mesmo. A atual veneração da América não tem nada que ver com o interesse cultural a respeito como outro povo vive. Ao contrário, o servilismo até os Estados Unidos leva implícita a idéia que não há outra forma de vida aceitável que não a americana.

Nossos programas de rádio se americanizaram. Sem nenhum critério do que é superior ou inferior, só seguindo os temas da moda do momento e do que é considerado “aceitável” - ou seja, aceitável para o segmento mais americanizado do público, o qual também é o mais degenerado. O resto é simplesmente arrastado pela onda. O estilo de apresentação de rádio também se americanizou. “Quem depois de escutar um programa de rádio americano, não pode se não considerar que a única forma de escapar ao comunismo é americanizando-se?”. Essas não são palavras de um observador externo se não de um sociólogo norte-americano, James Burnham, professor na Universidade de Princeton. 

Tal juízo de parte de um americano deveria envergonhar os radialistas italianos.

Uma das conseqüências da “democracia” é a intoxicação de grande maioria da população, que não é capaz de discriminar e que quando não esta guiada por um poder e um ideal, é rapidamente perde todo sentido de identidade.

A ordem industrial na América

Werner Sombart resumiu em seu estudo clássico sobre o capitalismo, o significado da última etapa do capitalismo no adágio “Fiat producto et pereat homo” ("Produza-se e que pereça o homem"). Assim, o capitalismo é um sistema em que o valor do homem é estimado segundo a quantidade de mercadoria que produza ou invente. As doutrinas socialistas nasceram como reação a inumanidade deste sistema.

Uma nova fase se inicia nos Estados Unidos, onde há um incremento do interesse nas chamadas relações laborais. Os empresários e os patrões terminaram por reconhecer a importância do “fator humano” em uma economia produtiva, sendo um erro ignorar o indivíduo implicado na indústria: seus motivos, seus sentimentos, sua vida no trabalho. Assim, pois, se desenvolveu toda uma escola que estuda as relações humanas na indústria, baseada no condutismo. Estudos como Human Relations in Industry por B. Gardner e G. Moore proporcionam uma análise esmiuçada do comportamento dos empregados e de suas motivações com o objetivo preciso de definir os melhores meios de fazer frente a todos os fatores que podem obstaculizar a maximização da produção. As investigações sociológicas chegam até a analisar o ambiente social entre os empregados. Esta classe de estudo tem um objetivo prático: a manutenção da satisfação psicológica do empregado é tão importante como a física. Nos casos onde um trabalhador está vinculado a um trabalho monótono que não exige uma grande concentração, os estudos chamaram a atenção sobre o “perigo” que seu espírito possa extraviar-se em uma direção que pode finalmente refletir-se negativamente em sua atitude em relação ao trabalho. 

As vidas privadas dos empregados não são esquecidas, por isso o aumento da denominada assessoria pessoal. Chamam-se especialistas para dissipar a ansiedade, as perturbações psicológicas e os “complexos” de não adaptação, até o extremo de se dar conselhos relativos a os problemas mais pessoais. Utiliza-se muito a técnica psicanalítica para fazer “falar livremente” o indivíduo e por em destaque e relevo os resultado obtidos por esta “catarsis”.

Nada disso, busca a melhora espiritual dos seres humanos ou a solução dos problemas verdadeiramente humanos, tal como os compreenderia um europeu nesta “idade da economia”. Do outro lado da cortina de ferro, se trata o homem como uma besta de carga e sua obediência é garantida pelo terror e pela fome. Nos Estados Unidos se vê o homem também como um fator de trabalho e consumo, cada fator de sua existência tem a mesma finalidade. No “país da liberdade”, por todos os meios de comunicação, se diz ao homem que alcançou um grau de felicidade inigualada. Convida-se a esquecer quem é, de onde veio, e simplesmente gozar o presente.

A “democracia” americana na indústria

Há uma contradição significativa e crescente nos Estados Unidos entre os valores da ideologia política dominante e as estruturas efetivas da nação. Há muitos estudos consagrados sobre “a morfologia do trabalho”. Os estudos corroboram a impressão de que a empresa americana está muito longe de ser uma organização que corresponda ao ideal democrático assinalado pela propaganda americana. As empresas americanas têm uma estrutura “piramidal”. Constituem o cume de uma hierarquia articulada. As grandes empresas americanas são dirigidas da mesma maneira que os Ministérios governamentais e são organizadas segundo linhas similares. Têm corpos de coordenação e controle que separam os dirigentes da empresa da massa dos empregados. Com o passar dos anos, a “elite gerencial” (Burnham) se faz cada vez mais autocrática, sintonizando-se bem com a política externa americana. 

É o fim de outra ilusão americana. América: “o país onde todo mundo tem sua oportunidade”, onde todas as possibilidades existem para todo aquele que saiba aproveitá-las, um país onde cada um pode elevar-se da miséria a riqueza. No princípio havia uma “fronteira aberta” que poderia ser conquistada por todos. Aquela foi fechada e a próxima “fronteira aberta” era o céu, o potencial ilimitado da indústria e do comércio. Como Gardner, Moore e muitos outros mostraram, também alcançaram seus limites, e as oportunidades vão reduzindo-se. Pela especialização do trabalho, sempre crescente no processo produtivo , e da insistência na valoração das “qualificações”, é evidente para os americanos que seus filhos não chegaram mais longe que eles. Assim é que a democracia política dos Estados Unidos, a força e poder do país, ou seja, a indústria e a economia, são cada vez mais manifestamente anti-democráticos. O problema é então: a realidade deve adaptar-se a ideologia, ou vice-versa? Até uma data recente, se demandava-se a solução antiga, ou seja, o retorno a “verdadeira América” igualitária da empresa sem obstáculos e do indivíduo emancipado de todo o controle central. Entretanto, há também os que preferiram eliminar a democracia para poder adaptar a ideologia política a realidade comercial. Retirando-se a máscara da “democracia” americana,se vê claramente até que ponto a “democracia” na América(e em outras parte) é somente o instrumento de uma oligarquia que utiliza um método de “ação indireta”, garantindo-se a possibilidade de abusar e enganar a grande maioria daqueles que em outras circunstâncias aceitariam um sistema hierárquico porque é simplesmente o único que funciona. Este dilema da “democracia” nos Estados Unidos poderia um dia dar lugar a um interessante evolução.

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