sábado, 4 de dezembro de 2010

Hugo Pratt sobre o Fascismo

"Foi de facto o fascismo que, graças aos seus movimentos de juventude, me deu a possibilidade de sair do circuito familiar. Incentivou-se o convívio entre rapazes e raparigas (...) Usávamos então uniforme, as meninas de blusa branca e saia preta, eu de camisa negra e calções verde-cinza; e não faltavam as insígnias, que ostentávamos com orgulho. Era uma espécie de escutismo pré-militar. Líamos juntos, num jornal de rapazes, Il Balilla, uma página onde as frases se concluíam com desenhos. As meninas tinham o seu prórpio jornal ilustrado, La Piccola Italiana.

O fascismo não negava a beleza dos corpos, a atracção física. Ele advogava o mens sana in corpore sano de Juvenal - «um espírito são num corpo são» - e ignorava as intenções judaico-cristãs. (...) O fascismo libertou dos tabus os jovens da minha geração, deu-nos uma certa liberdade e a possibilidade de uma aventura individual, ao passo que antes isso era vedado; a aventura era vista como ruptura, dizia-se que infrigia as leis da sociedade. O fascismo fez-nos sair da opressão da Igreja e da Família. Evidementente, o fascismo foi ao fim ao cabo uma catástrofe, mas aos dez anos ter-me-ia surpreendido bastante se alguém o denunciasse. Aderi sem reservas, até à minha estadia na Etiópia. (...) E na minha primeira infância, por estranho que possa parecer hoje em dia, não era evidente que o fascismo fosse um movimento de extrema-direita. O fascismo pretendia introduzir mudanças na sociedade, ao passo que a mentalidade burguesa é conservadora e tem horror à mudança. O regime promulgou a escolaridade obrigatória, permitindo a crianças de dez anos não trabalhar mais na fabricação do enxofre, e organizou grandes trabalhos na Siália e nos pântanos. Mussolini partira do socialismo, o pai dera-lhe o nome de Benito em honra do herói progressista mexicano Benito Juárez. Os poemas do meu avô, fundador do fascismo veneziano, têm aliás aspectos socializantes."

Hugo Pratt
in "O Desejo de Ser Inútil. Memórias e Reflexões", Relógio d’Água (2005)

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