sábado, 11 de dezembro de 2010

Herança da Era Lula

por Marco Antônio Santos Reis

1. Uma carga tributária relativamente alta que, apesar de não a mais alta do planeta, continua massacrando o consumidor mais pobre em virtude de um sistema tributário que opta por "carregar" nos impostos indiretos. No que diz respeito à contraprestação estatal, libertários estão cansados de saber que é quase uma covardia exigir eficiência do Estado. Eu disse quase, pois o que efetivamente o Estado tem feito pelos indivíduos não tem nada de virtuoso. E para aqueles que ainda sonham com serviços públicos de qualidade, basta encarar os fatos: países escandinavos e outros arrecadam muito mais que o Brasil em relação ao PIB, mas não ocupam a 53ª posição, entre pouco menos que 70 países, no ranking de educação do ensino médio conforme recente noticiário. Tampouco se vê a quantidade de pessoas sem atendimento médico e condições materiais básicas.

2. A farra do crédito fácil foi tão grande que a única alternativa certa, simplesmente não é boa para manter o PT no poder: cortar sensivelmente os gastos do governo por um bom tempo para, quiçá, mais tarde, poder reduzir a taxa de juros, esta sim, entre as maiores do planeta. Enquanto não pensar realmente em cortar gastos, o governo estará entre a cruz e a espada: se o BC aumenta os juros, pode até frear um pouco a inflação, mas atrai a enxurrada de dólares impressos pelo FED e, ao mesmo tempo, aumenta a dívida interna. Se reduz os juros sem cortar efetivamente seus gastos, escancara as portas para a entrada súbita e aterradora da inflação. Ou seja, a única saída para o governo é fazer o que o PT sempre rejeitou: cortar gastos! O problema em desacelerar o plano de aceleração é, no entanto, um só e muito significativo: será que o PT enganou os pobres? E será que o fazia conscientemente? Na melhor das hipóteses, a era Lula lega aos mais pobres um sonho pela metade, baseado no crescimento via expansão do crédito. Um sonho que, a rigor, sempre teve data certa para virar pesadelo.

3. A era Lula também nos lega o mito da economia eficiente e a volta dos economistas infalíveis. No entanto, não seria de todo equivocado dizer que a economia da era Lula consistiu numa relação de tensão entre duas variáveis: de um lado, a injeção de dinheiro novo para aumentar o consumo e pagar milhões de vo..., digo, “projetos de mitigação da desigualdade social”; de outro, um BC que limitou a enxugar o gelo. Um BC “Ascensorista de elevador”: Juros...subindo! Juros...descendo..! Aumentar a base monetária de um país simplesmente através da digitação de mais alguns zeros à direita para os bancos lograrem emprestar dinheiro fictício não poderia dar noutra coisa. Enquanto isto, o paladino do economês, Guido Mantega, preocupa-se com a inflação dos produtos essenciais e do preço das commodities e, para tal, propõe uma nova e mirabolante forma de calcular a inflação, retirando-lhe as variáveis que não lhe interessam. Ora, alguém explique ao Sr. Mantega que inflação é um fenômeno provocado pelo governo, e que quando o aumento de preços é generalizado NUNCA, JAMAIS E EM TEMPO ALGUM pode este aumento ser atribuído exclusivamente à crise dos outros países, à crise do petróleo, às preferências individuais ou ao fluxo de capital estrangeiro. Aumento generalizado dos preços é sinal de aumento generalizado de "cagadas" político-monetárias e ponto.

4. No plano desenvolvimentista, como gostam os economistas keynesianos, um rol de obras faraônicas como a transposição do São Francisco (que muitos especialistas simplesmente consideram um projeto inviável, bem como um projeto sem qualquer apelo aos mais pobres e necessitados da água (já que, ao que parece, a maioria dos canais de irrigação deságuam  as saídas em propriedades agrícolas); a usina nuclear Belo monte, cujos custos são estratosféricos e o fabuloso trem-bala que, além das cifras indizíveis, ficará circunscrito a SP-RJ (saliente-se que o governo postergou a licitação, que já constava com um belo projeto da Coréia do Sul...).  Enquanto voc~e se pergunta por que não temos um sistema ferroviário digno do tamanho do Brasil, ou por que nossas estradas são tão ruins e tudo funciona muito mal, o governo Lula, assim como outros, gastou, e continuará a gastar, seu rico dinheirinho em embustes como esses? O mais curioso é o seguinte: se o governo terá de cortar gastos, será que realmente vão completar todas essas obras de teor duvidoso?E o que dizer ao “povo” mais uma vez? E o que dizer do “povo” mais uma vez...enrolado com satisfação.

4. A era Lula deixa de herança, ainda, uma dívida interna que, neste momento, deve ter ultrapassado a casa dos 2 trilhões e 300 bilhões. Nem é preciso dizer o quanto esta dívida cresceu desde a época de FHC, que deixou um rombo de aproximadamente 800 bilhões. E como tudo indica que o BC irá aumentar a taxa selic na próxima reunião do COPOM, e metade da dívida está a ela vinculada, esta dívida vai aumentar e muito. Assim, continuaremos a (não) pagar sequer a totalidade dos juros da dívida, para nos contentarmos com as migalhas que sobram e são comumente (mal) investidas em serviços básicos.

5. No plano político, o governo Lula lega um cenário de escândalos...todos devidamente ocultados, distorcidos e, principalmente, ENGOLIDOS pelo povo. O escândalo do mensalão e o escândalo da Casa Civil já seriam suficientes para colocar em xeque qualquerr overno minimamente sério. Mas no Brasil, país em que vale mais a pena ter apaniguados do que obedecer a lei, coisas desse calibre são apenas inconvenientes e disputas “políticas”. A era Lula, embora não tenha dado um tiro de misericórdia na liberdade de expressão, pois a econômica já foi pro espaço há séculos, deixa um projeto de controle midiático e individual que, a qualquer momento, pode ser levado a cabo.

6. Mas e a Copa do Mundo e as Olimpíadas?? – objetarão alguns apressados. A estes eu apenas lembro que a quase totalidade dos recursos para a promoção desses eventos será pública. Isto significa mais linhas de crédito a todo vapor para satisfazer a dona FIFA e o Comitê Olímpico e, naturalmente, apaniguados do governo.

7. No plano íntimo, a era Lula supostamente teria recuperado o “orgulho de ser brasileiro”. A explosão do consumo, as habilidades política e retórica de Lula e a implementação de menos da metade dos projetos sociais alardeados de auxílio para cidadãos desesperados que, caso o cenário econômico temerário se confirme, estarão mais desesperados ainda, contribuiram para esta imagem. Que não nos esqueçamos, porém, que a ascensão brasileira se deu menos em razão de seus méritos e mais em razão da derrocada das principais economias, simultaneamente algozes e vítimas do mesmo mal. Se o brasileiro está mais confiante, espero que não tenha perdido no todo a sua inteligência e seu senso de realidade a fim de não mais deixar-se convencer por projetos populistas e demagógicos.

8. Mas, principalmente, o governo Lula LEGA A SI MESMO, uma oportunidade para o RETORNO DO CHEFE, seja tal retorno de caso pensado ou não. Pois a presidenta Dilma terá que arrumar muita briga pra fazer tudo o que tem que ser feito e, além disto, sair de bem com um eleitorado mal acostumado aos “tempos gloriosos do nunca-antes-na-história-deste-país”. Como habilidoso político, Lula sabe que 2014 está logo ali...

9. O que nem a era Lula (e, vamos ser justos, nenhuma outra) e tampouco a oposição, até agora, legaram ao Brasil é a oportunidade da liberdade econômica, inseparável da liberdade individual. Que este legado possa ser construído por brasileiros que ainda acreditam no poder das ideias, conforme lição inquebrantável de Mises.


* A Legio Victrix não concorda com todo o conteúdo do texto. Ainda assim, o mesmo contém uma análise razoavelmente precisa da Era Lula.

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