terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Apologia da Intolerância

por Antonio José de Brito

Se há ideia que, hoje em dia, receba os aplausos tanto da Direita como da Esquerda, essa é a de tolerância. A Direita entende que só pela tolerância se atinge a união, o sossego nas ruas e se evitam as perturbações revolucionárias. A Esquerda considera que o respeito de todas as opiniões é uma espécie de imperativo ético racional, indiscutível, categórico, absoluto. De qualquer modo, direitas e esquerdas aparecem amplexadas no repúdio firme dos sectarismos, dos extremismos, dos totalitarismos que perturbam as boas digestões à mesa do orçamento e desviam os homens do culto tão respeitável do bem-estar e da tranquilidade para a aventura das lutas e dos sacrifícios ilimitados por uma ideia. Direitas e esquerdas preferem, unânimes, à intransigência alicerçada no ideal, a pacatez do oportunismo e dos desejos de comodidade e liberdade.

Simplesmente acontece que os sectarismos, os totalitarismos, os extremismos também são opiniões. Se se perfilha o respeito de todas as opiniões, então há que respeitar, igualmente, a opinião sectária, extremista, totalitária, dos sectários, extremistas e totalitários. Mas qual é a opinião dos sectários, extremistas e totalitários? Precisamente a de que nem todas as opiniões devem ser respeitadas, que o respeito de todas as opiniões é absurdo e que a intolerância é que um imperativo racional absoluto.

Logo o respeito de todas as opiniões envolve o respeito da opinião de que o respeito de todas as opiniões é absurdo; pela aceitação da tolerância tem de se aceitar a intolerância. Ora respeitar a tese de que o respeito por todas as ideias é absurdo, aceitar a intolerância, é considerar legítima a negação da tolerância. Donde se segue que o ideal de tolerância implica, por força, a licitude da sua própria negação, sendo, por consequência, plenamente inaceitável. O ponto de vista da esquerda, de acordo com o qual a tolerância é imperativo ético da razão, revela-se, desta maneira, radicalmente contrário à verdade. 

O inverso é que está certo. A tolerância é racionalmente indefensável, opõe-se às mais elementares regras da inteligência.

E que dizer da perspectiva direitista em que a tolerância é simples instrumento de união e paz pública? Apenas o seguinte. Se são respeitadas as opiniões dos intolerantes, a intolerância ganha foros de cidade e entra em luta com a tolerância. E lá se vão a tranquilidade pública e a união. Querendo fazer predominar a tolerância em nome da ordem exterior, a Direita só tem um caminho: — banir, afastar, reprimir os intolerantes. E ei-la, a fim de promover a tolerância, a praticar uma política da mais firme, rígida e autêntica intolerância — a intolerância contra os totalitários, sectários, etc., numa palavra o extremismo do anti-extremismo.

Note-se, aliás, que a esquerda acaba, também, por adoptar semelhante linha de conduta, e compreensivelmente. Desde que não abdique da sua doutrina pelo absurdo que a vicia, apenas lhe resta tomar um caminho: — para fazer desaparecer o argumento da auto-destruição da tolerância, fazer desaparecer, definitivamente, a intolerância. E para fazer desaparecer, definitivamente, a intolerância, tenta varrer da face da terra os adeptos de semelhante ideia. Por isso, é, precisamente, nos regimes que pregam a tolerância e a elevam a dever incontrovertível, que se verificam as mais rudes, ferozes, impiedosas tentativas de extermínio do intolerante, do totalitário, do extremista, etc. Na sua raiva, tais regimes julgam eliminar a ideia que os obriga a contradizerem-se eliminando os homens que nela acreditam. É claro que não é possível conseguir que uma ideia desapareça, que uma possibilidade lógica deixe de ser possibilidade lógica. Não pensam, assim, no entanto, os cultores da tolerância e procuram matar o ilogismo da sua própria doutrina nos corpos dos adversários. Estes são proclamados inimigos da Humanidade e monteados quais lobos ou feras piores que lobos. 

Não têm direitos nem opiniões, representam tão-só incarnações do diabo, monstros horrendos que importa ver sumir-se, para sempre, da superfície do globo. Deste modo, e só deste modo (inexequível a priori, porque se a ideia de intolerância, enquanto ideia, é inelimitável, nunca deixará de haver quem possa vir a declarar-se em seu favor, mesmo entre os próprios entusiastas da tolerância), serão alcançadas a felicidade, a harmonia, o respeito mútuo das crenças em todo o género humano.

Recordemos o que se passou, na Revolução Francesa, com o Rei, os aristocratas, os contra-revolucionários em geral, acusados de sectários, de inimigos da tolerância e conduzidos ao patíbulo, aos milhares, exactamente pelos que bramiam em discursos, a sua fé na bondade natural da pessoa e no direito de cada um perfilhar as teorias que entendesse.

E também é esclarecedor o panorama dos nossos dias, com o fascista e o nazi acossados, perseguidos com fereza, abatidos sem perdão, porque intolerantes, extremistas (extremistas do Estado, da Pátria, da Autoridade, da Honra) por quantos apregoam a liberdade de pensamento sob qualquer forma.

A Revolução, num curto período, matou mais gente do que a Inquisição portuguesa em séculos. Vinte anos de Fascismo e doze de Nacional-Socialismo nunca na realidade (e não nas propagandas mentirosas dos vencedores) ficaram assinalados pelos horrores que acompanharam as Cruzadas das Democracias, em cinco anos: bombardeamentos com fósforo de populações civis de cidades como Hamburgo, Colónia, Dresden e tantas outras, emprego da bomba atómica em Hiroshima e Nagasaki, matança de 105.000 colaboracionistas na França e de cerca de 300.000 partidários da República Social Italiana no Norte da Itália, etc. E ainda prossegue na actualidade a montaria ao fascista e ao nazi vencidos. Um vinténio não desarmou o ódio e o rancor dos seus carrascos. 

Percebe-se isto, todavia. Os entusiastas da tolerância só sossegam quando julgam que nem um só mais oponente existe e que, por essa maneira, conseguiram suprimir o paralogismo que anula a sua ideologia. Daí que estejam em permanente tensão, em perene pavor de heréticos que bem desejariam exterminar pela raiz, banir radicalmente.

Não esqueçamos que, se o uso da violência é própria dos totalitarismos e extremismos, o terror é a arma habitual dos apóstolos democráticos, libertadores de oprimidos e instauradores de paraísos de tolerância e fraternidade.

Convém esclarecer que na crítica que formulamos à tolerância não está, logicamente, implícita, de maneira nenhuma, a atitude atribuída no século XIX aos reaccionários franceses. Diriam eles: aos liberais, exigimos a tolerância, em nome dos seus princípios, e negamos-lha a eles, em nome dos nossos princípios.

Nada mais afastado dos pontos de vista aqui expostos. Entendemos, de certo, que o inimigo tem o dever, imposto pela sua doutrina, de ser tolerante com toda a gente. A intolerância com base no ideal de tolerância é hipocrisia repelente ou ilogismo reprovável. Todavia, não lhe exigimos tolerância alguma, em função dos seus próprios princípios. Não nos escandaliza nada que pratique a intolerância, mas unicamente que o faça invocando a tolerância. Deixe de fazer tal invocação que já estaremos de acordo, visto que, nessa altura, só poderá ser intolerante em nome da verdade da sua própria opinião e não do respeito que todas as opiniões merecem. E é precisamente essa a nossa posição!

Sim, porque nós, se reclamamos algo, o que reclamamos é a nossa liberdade, exclusivamente e por ela mesma, não a liberdade, em geral, para aí enquadrarmos a nossa liberdade. É a nossa liberdade, apenas, que exigimos, na medida em que temos a convicção de que estamos a servir a Verdade — e que, portanto, os adversários erram. As nossas exigências são, pois, inteiramente fundadas nos nossos princípios, nunca implicando uma chamada a princípios antagónicos. 

Somos, por isso, rigorosamente, coerentemente intolerantes. A intolerância, para nós, é a expressão da destrinça entre o Bem e o Mal, entre as ideias sãs e as ideias daninhas. Nem todas as opiniões são dignas de respeito. Pelo contrário! Há opiniões que não merecem respeito, são falsas e maléficas e, por conseguinte, merecem combate (1), por quaisquer meios adequados — desde a propaganda e a censura à acção policial.

É óbvio que, imediatamente, nos dirão, com bonomia, que se é muito belo estabelecer, em tese, que só a Verdade merece respeito, quem poderá arrogar-se de possuir a Verdade? Quem poderá estar certo de que as suas ideias são verdadeiras? Simplesmente, se ninguém pode estar certo de que as suas ideias são verdadeiras, também não pode estar certo disso quem assevera tal incerteza. Se semelhante asserção não for senão uma muito incerta hipótese, com que direito a contrapor, como estritamente válida, aos que pensam de maneira oposta?

E se aceitarmos, como válido, que, efectivamente, ninguém pode estar certo de que as suas ideias são verdadeiras, então esse ponto de vista é verdadeiro e, se é verdadeiro, podemos estar certos de que há opiniões verdadeiras. Seria por causa da verdade de uma opinião — a de que não há opiniões verdadeiras — que nos quereriam forçar a aderir à opinião de que ninguém pode estar seguro da verdade das suas opiniões. O contra-senso é manifesto!

Abandonemos, assim, a zona pérfida e absurda dos relativismos, dos cepticismos e da descrença. A verdade é conhecida, tem de ser conhecida e isto é a primeira verdade. E pela verdade sejamos, sem hesitações e cobardias, inflexivelmente fanáticos e intolerantes.

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