segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Para uma Historiografia de Direita

 por Julius Evola

A propósito de considerações sobre o significado europeu que pode ser atribuído a Donoso Cortés, interessante figura de homem político e de pensador espanhol, cujas atividades se situam no período dos primeiros movimentos revolucionários e socialistas da Europa, Carl Schmitt, conhecido historiador alemão, salientou o seguinte: embora, desde então, as esquerdas tenham elaborado sistematicamente e aperfeiçoado uma historiografia própria como fundamento geral da sua ação destrutiva, nada de semelhante se verificou no campo oposto, isto é, no campo da Direita, no seio da qual tudo se reduziu a alguns ensaios esporádicos, que em nada são comparáveis, pela coerência, pelo radicalismo e pela largueza de horizontes, àquilo que, desde há muito, propõem o Marxismo e a Esquerda em semelhante domínio.

Esta observação é em grande parte justa. Com efeito, a única história, conhecida universalmente e com autoridade, à exceção da história de inspiração marxista, tem essencialmente natureza e origens liberais, iluministas e maçônicas. Refere-se às ideologias do Terceiro Estado, que apenas serviram para preparar o terreno aos movimentos radicalizantes de esquerda, já que os seus fundamentos são essencialmente anti-tradicionais. Uma historiografia de Direita espera ainda a vez de ser escrita: o que constitui um sinal de inferioridade em relação às ideologias e à ação agitadora das esquerdas. De modo mais particular, nem mesmo a história corrente, de orientação patriótica, pode suprir esta lacuna, pois, fora dos seus possíveis cambiantes nacionais e das evocações comovidas de acontecimentos e de figuras heróicas, ela própria se ressente, e em larga conta, das sugestões de um pensamento que não é de modo algum o pensamento de uma Direita, e, sobretudo, porque não pode suportar a comparação, quanto à largueza de horizontes, com a historiografia de esquerda. 

Eis o ponto fundamental.

De fato, somos obrigados a reconhecer que a historiografia de esquerda soube abranger as dimensões essenciais da História: para lá dos conflitos e das perturbações políticas episódicas, para lá da história das nações, soube descobrir o processo geral e essencial que se realizou durante os últimos séculos, no sentido da passagem de um tipo de civilização e de sociedade a outro. Que a base da interpretação tenha sido, a esse respeito, constituída pela economia e pelas classes, isso nada tira à amplitude do programa que foi traçado por esta historiografia, a qual, como realidade essencial para lá do contingente e do particular, nos indica, no curso da História, o fim da civilização feudal e aristocrática, o aparecimento da civilização burguesa, liberal, capitalista e industrial, e, depois desta, o anúncio e o começo da realização de uma civilização socialista, marxista e, finalmente, comunista. Aqui, a revolução do Terceiro Estado e a do Quarto Estado são reconhecidas no seu encadeamento natural, causal e tático. A idéia de processos pré-estabelecidos, para os quais, sem querer nem saber, contribuíram os egoísmos mais ou menos “sagrados” dos povos, as rivalidades e as ambições daqueles que pensaram “fazer a história” sem sair do domínio do particular, tal é a idéia que devemos tomar em consideração. Por isto estudamos as transformações de conjunto e a estrutura social e da civilização, que são o efeito direto do jogo das forças históricas, relegando com exatidão a história das nações para a simples fase “burguesa” do desenvolvimento geral: com efeito as nações só apareceram na história, como sujeito desta, a partir da revolução do Terceiro Estado, e como sua consequência. 

Comparada à historiografia de esquerda, a historiografia que é própria a outras tendências aparece pois superficial, episódica, de duas dimensões, até mesmo frívola. Uma historiografia de Direita deveria abranger os mesmos horizontes que a historiografia marxista, com a vontade de apreender o real e o essencial do processo histórico, que se desenrolou no curso dos últimos séculos, fora dos mitos, das superstruturas e também da crónica vulgar. Isto, naturalmente, invertendo os sinais e as perspectivas: isto é, vendo, nos processos essenciais e convergentes da história mais recente, não as fases de um progresso político e social, mas as de uma subversão geral. É evidente que as premissas econômico-materialistas deveriam ser igualmente eliminadas, reconhecendo como simples ficções o homo oeconomicus e o presumível determinismo inexorável dos diversos sistemas da produção.

Forças bem mais vastas, profundas e complexas, agiram e agem na história. Quanto aos detalhes, o mito do “comunismo primordial” é também ele rejeitado por aí opor, para as civilizações que precederam as de tipo feudal e aristocrático, a ideia de organizações, de preferência baseadas num princípio de pura autoridade espiritual, sacral e tradicional. Mas, à parte isto – repitamo-lo –, uma historiografia de Direita reconhecerá, não menos do que a de esquerda, a sucessão ou o encadeamento de fases distintas gerais e supranacionais, as quais conduziram regressivamente até à desordem e às perturbações atuais: tal será, para ela, a base de interpretação dos fatos particulares e das mudanças, sem nunca deixar de estar atenta aos efeitos produzidos por estes últimos no quadro social. 

É impossível indicar aqui, nem mesmo à força de exemplos, toda a fecundidade de um tal método e a luz insuspeitada que projetaria sobre muitos acontecimentos. Os conflitos político-religiosos da Idade Média imperial, a constante ação cismática da França, as relações entre a Inglaterra e a Europa, o verdadeiro sentido das “conquistas” da Revolução Francesa, e assim por diante, até episódios de interesse particular, a Itália como o rosto efetivo da revolta das comunas, o duplo aspecto do “Risorgimento” italiano, enquanto movimento nacional, acionado no entanto por ideologias do Terceiro Estado, o significado da Santa Aliança e os esforços de Metternich – o último grande europeu –, o significado da primeira guerra mundial com a ação de contra-golpe das suas ideologias, a discriminação entre o positivo e o negativo nas revoluções nacionais, que se afirmaram ontem na Itália e na Alemanha, e assim por diante, até chegar, finalmente, a uma visão conforme à realidade nua das verdadeiras forças, hoje em luta pelo domínio do mundo: eis uma escolha de argumentos sugestivos, entre tantos outros, aos quais se poderá consagrar a historiografia de Direita, para assim revolucionar os pontos de vista que o maior número está habituado a ter em tudo isto pelo efeito de uma historiografia de orientações opostas, e para agir de modo esclarecedor.

Uma historiografia assim concebida, e visando portanto o universal, encontrar-se-ia de modo muito particular à altura dos tempos, se é verdade que, por efeito de processos objetivos irreversíveis, cada vez se perfilam mais, hoje em dia, agrupamentos que não são apenas constituídos por unidades étnicas e políticas, particulares e fechadas. Infelizmente, esta historiografia desejada corresponderia unicamente a um aumento de conhecimentos. 

No estado atual das coisas, só dificilmente poderíamos esperar dela uma eficácia também prática, na perspectiva de uma ação decidida, de uma luta global e inexorável contra as forças que estão quase a derrubar o pouco que resta da verdadeira tradição europeia. Seria preciso, com efeito, que existisse, como contrapartida, uma Internacional de Direita, organizada e munida de um poder comparável ao da Internacional comunista. Ora sabe-se infelizmente que, devido à carência de homens dotados de uma grande elevação espiritual e de uma autoridade suficiente, devido ainda à prevalência de interesses partidários e de pequenas ambições, devido também a uma falta de verdadeiros princípios, e sobretudo de uma falta de coragem intelectual, não foi possível, até agora, constituir um governo unitário de Direita, nem mesmo só na Itália, e só nos tempos recentes foi possível ver anunciarem-se iniciativas neste sentido. 
 

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