sábado, 13 de novembro de 2010

Os Métodos da Neopolícia do Pensamento

por Alain de Benoist




Vê-se que a sociedade atual coloca o pluralismo no princípio de seus discursos, apenas para fazê-lo desaparecer quando alcança sua meta. Vê-se ademais que certa esquerda, que ontem enfrentava à sociedade burguesa e criticava sua ordem moral, hoje põe-se à cabeça do reformismo político e do conformismo moral, porque suas consignas se converteram em lugares-comuns. Isso é um fenômeno chamativo que deveria fazer refletir sobre o caminho percorrido pela esquerda. Era necessária coragem para atacar na África do Sul o apartheid, para lutar na França com as armas nas mãos contra a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial.

Porém, em quê consiste hoje essa coragem? Uma resistência contra o nazismo hoje não arrisca nada, a não ser o próprio ridículo. E os slogans, que ontem podiam significar para seus autores prisão ou morte, hoje são fórmulas mágicas, sortilégios produtores de boa consciência e mesmo passes no mundo da mídia e dos editoriais. Com idéias que somente são expressão da época porquê podem ser ditas sem perigo, não desperta essa "coragem" admiração alguma.




Em todos os tempos houve censura e a tendência à intolerância é um componente do espírito humano. Houve no passado ideologias dominantes e todos os governos, com diferença gradual, saudaram a oportunidade de unificar a sociedade e afogar opiniões disconformes. O fato de que a censura hoje retorne é justamente surpreendente, porque o retorno sucede em uma sociedade que pretende reconhecer e garantir a liberdade de expressão. O artigo XI da Declaração dos Direitos Humanos proclama como um dos direitos mais preciosos o livre intercâmbio de idéias e opiniões. Na França a lei da liberdade de imprensa de 29 de julho de 1881 estabelece em seu primeiro artigo: "imprensa e livrarias são livres", porém isto deixou de ser verdade. Enquanto na maioria dos países liberados do jugo soviético há liberdade de palavra, enquanto nos EUA o First Amendment da constituição permite a livre expressão de todas as opiniões, a França atual é, junto com a Alemanha, a região ocidental em que a liberdade de opinião está mais limitada. [Nota do tradutor: o Brasil não está muito atrás]




"Não há liberdade para os inimigos da liberdade" é um velho álibi, que sempre provoca a pergunta, como se define a liberdade e, acima de tudo, quem possui a capacidade de determinar quem é o inimigo da liberdade. Quando no século XIX os socialistas revolucionários denunciaram a exploração econômica, foram levados perante os tribunais de justiça por "incitação do ódio". Hoje faz-se o mesmo com aqueles que não se curvam perante a ideologia dos direitos humanos. Se fôssemos acreditar em certas pessoas a liberdade de opinião estaria limitada às opiniões toleráveis. Porém justamente mais além é onde começa a liberdade; e foram sempre os que tiveram que lutar por ela, por seu triunfo, quem definiram essa liberdade. A liberdade de opinião não teria nenhum valor se somente a desfrutassem os que opinam aquilo que qualquer um considera justo e razoável. Por ser a liberdade de opinião o primeiro pressuposto para o livre desenvolvimento das idéias e para a existência de um debate democrático, ela só tem sentido quando até as opiniões mais absurdas, mais chocantes e mais ofensivas gozam de liberdade. Pela simples razão de que, se não fosse assim a proclamação desse princípio de liberdade de opinião teria sido supérfluo.




A verdade é que a liberdade de opinião é indivisível; ela cessa de existir apenas se lhe colocam limites. A verdade é que a censura é insuportável, não importa que motivos persiga, não importa quê identidade possuam as vítimas dessa liberdade, não importa sob quê condições se exerça. Não há censura que se possa defender intelectualmente e ademais, nenhuma é eficaz. Hoje em dia aqueles que condenam a censura são acusados de ser cúmplices dos censurados. Essa acusação, praticamente uma extorsão, é igualmente insofrível. Entre as idéias que hoje estão proibidas há seguramente algumas que são absurdas ou abomináveis. Porém se há opiniões abomináveis, então as leis que as querem proibir são mais abomináveis. Não se trata aqui em primeira linha de defender os censurados - aqui trata-se de atacar a censura. O macarthismo e o sistema soviético desapareceram, porém seguem estando presentes os herdeiros de um Zadanov ou de um McCarthy. Somente que sob Stalin ou McCarthy os delatores estavam obrigados à denúncia se queriam conservar sua vida ou seu trabalho. Hoje em dia vemos delatores que realizam essa tarefa sem que nada os obrigue. Se levam à boca a expectoração de McCarthy sem que isso lhes produza nenhum asco. Eles estão muito ocupados confeccionando listas negras para pronunciar excomunhões e descarregar anátemas. Eles se escandalizam por aquelas denúncias cujas vítimas eram os judeus na época da ocupação alemã na França, porém eles mesmos, denunciando a todos aqueles que a ideologia dominante põe no INDEX, comportam-se de maneira pior. Tudo em um clima que Cornelius Castoriadis caracteriza muito bem como o "avanço da banalidade" e tudo isso - observe-se bem - sob pretextos morais.

Na sociedade de controle em que vivemos, que dispõe de meios de vigilância da vida pública e privada nem se mesmo possuíram os regimes totalitários, todos os motivos são bons para excluir, empurrar às bordas e marginalizar. Nomeio as razões mais profundas dessa intolerância: os remorsos de consciência dos penitentes e arrependidos, a precariedade cultural dos incapazes de responder, daqueles que em vez de refutar, difamam, o medo de uma classe cujos membros foram escolhidos há muito tempo e não porquê possuíssem verdadeiras capacidades, mas sim pela capacidade de se fazerem escolher. Sem méritos, apartados do povo, vivem em contínnuo temor de perder seus postos e privilégios. Nomeio também as metas da censura: ela quer criar bodes expiatórios para impedir que se lhes peça justificativas de suas afirmações, para desviar a atenção sobre as monstruosidades no sistema atual, para pôr à opinião pública uma argona no nariz e conduzí-la a seu gosto, para impôr uma abjuração de todos os pensamentos perigosos antes de outorgar o reconhecimento midiático e social.




Esse sistema de censura vai durar tanto como possa. Tenho a sensação de que será derrubado por seu próprio peso, como uma consequência de sua própria dinâmica. Vai chegar um dia no qual - como já começa a observar-se - aos delatores não sobrará remédio além de se denunciarem uns aos outros. Porém nós, nós não temos nada do quê nos arrepender. Por isso há em nosso país e também em outras regiões, um grupo de intelectuais que possui a coragem de empreender uma iniciativa comum contra a nova Polícia do Pensamento. Enquanto vivamos, seguiremos dizendo palavras divergentes, seguiremos cooperando com o trabalho do pensar. No momento em que o conformismo se encontra no ápice trata-se uma vez mais de apelar à união dos espíritos livres e dos corações rebeldes. Abaixo a censura! Viva a liberdade!


Tradução por Raphael Machado


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