segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O apego burguês à segurança

"Entre os signos da época na qual nós entramos pertence a crescente intrusão do perigo na vida diária. Não há acidente ocultando-se por trás desse fato mas uma mudança compreensiva do mundo interior e exterior.

Nós vemos isso claramente quando nos lembramos que importante papel havia sido assignado ao conceito de segurança na época burguesa apenas passada. A pessoa burguesa é talvez melhor caracterizada como uma que coloca a segurança entre os valores mais elevados e conduz sua vida de acordo. Seus arranjos e sistemas são dedicados a garantir seu espaço contra o perigo que às vezes, quando escassamente uma nuvem aparece para escurecer o céu, aparece à distância. Porém, ele está sempre ali: ele busca com constância elemental romper as represas com as quais a 'ordem' cercou a si mesma.

A peculiaridade da relação burguesa com o perigo reside em sua percepção dela como uma contradição insolúvel com a ordem, ou seja, como desprovido de sentido, irracional. Nisso ele se coloca à parte de outras figuras como, por exemplo, a do guerreiro, do artista, e do criminoso, que se atribuem uma relação elevada ou baixa em relação ao elemental. Assim a batalha, aos olhos do guerreiro, é um processo que se completa dentro de uma ordem superior; o conflito trágico, para o escritor, é uma condição na qual o sentido mais profundo da vida deve ser compreendido muito claramente; e a cidade em chamas ou tomada pela insurreição é um campo de atividade intensificada para o criminoso. Por sua vez, os valores burgueses possuem tão pouca validade para o crente, posto que os Deuses aparecem nos elementos, como a sarça em chamas não consumida pelo fogo. Através dos infortúnios e perigos o mortal é atraído à esfera superior de uma ordem mais elevada."
(Ernst Jünger, Trecho de "Sobre o Perigo")

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