sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Americanismo e "Confortismo"

por Ernst Niekisch


O esgotador economicismo burguês, não condicionado por uma tradição feudal-estamental prévia, vinculous-e rapidamente com a figura da "aristocracia" da Técnica. As figuras do sacerdote e do filósofo foram unicamente tomadas como apêndices rudimentares. O impulso econômico mundialmente açambarcador se fundiu com o empuxo técnico de dominação da Natureza: O resultado foi uma força política e econômica triunfal. Não havia nenhuma coisa da qual não se pudesse tirar proveito nem existia nenhuma dificuldade para cuja superação não se buscaram todos os meios e caminhos possíveis. A esse respeito, alguém podia se encontrar na terra das oportunidades sem limite, na que aquilo que pôde alguma vez parecer impossível foi tornado realidade. A velha Europa tinha um constante apego pelas fronteiras e pelas particularidades entretecidas dentro de cada uma dessas fronteiras. Definitivamente, pelas qualidades. A jovem América, por sua vez, não conhece fronteiras. As qualidades não interessam, elas são desperdícios de valor, consolo para os que se afundam no diminuto e que se vêem forçados a descobrir seu estímulo no irrisório. Onde não há fronteiras, somente se pode ter visão para as quantidades, por trás do distante somente se esconde o ainda mais distante, por trás do grande o imenso, o gigantesco. O pequeno e o estreito para eles são apenas desprezíveis. Deve-se guardar suas energias para não se deixar-se esmagar pelas imensidões.

O domínio das grandes extensões por um lado, e da massiva industrialização pelo outro, deram crédito ao jovem americanismo. O homem de negócios e o engenheiro trabalham ombro a ombro, um financia e o outro constrói e onde se abre a perspectiva para um novo labor, em seguida aparece o técnico com uma nova idéia preparada. Devido a que não existe inclinação pela quietude, não se chega nunca a um verdadeiro enraizamento. O trabalhador se vincular tão pouco com a terra que trabalha como o industrial com sua produção. O financista, o plutocrata puro, toma aqui as rendas. Ele impõe indústrias ao solo naqueles lugares que crê convenientes, e as traslada sem mais conforme o considere conveniente. A burguesia financeira que se origina, alcança um poder inconcebível. Porém ela não faz ostentação de sua riqueza, ela não quer provocar. Ela se veste com a simplicidade e faz participar às massas no imenso negócio. Forma-se um sistema muito particular de suborno das massas, consistente em uma espécie de divisão de placebos terrenos e bençãos prosaicas. É o "Confortismo".




O "Confortismo" é certamente a mais evidente e sincera forma de realização do liberalismo democrático. Com ele se pagam as passagens para o paraíso terreno que prometeram a todos nós. Cada cidadão deve ter seu lar equipado com forno elétrico, chuveiro elétrico e tantos outros supérfluos utensílios próprios de nossa época. As precauções higiênicas tem sido levadas até o extremo em padarias, açougues e leiterias, como se tratasse de religião. Cada trabalho, também o de dona de casa, é executado mecânicamente. E por cima de tudo: cada um tem seu próprio automóvel com seu combustível barato. Até o mais insignificante empregado tem a oportunidade de se converter com ele em dominador das grandes extensões americanas. O conforto é tudo. A medida do conforto que se desfruta, é o grau de cultura que se possui. A confortabilidade da existência externa leva ao paraíso. Os valores pessoais, interiores, são totalmente ignorados, já ninguém pergunta deles. Personalidade, aqui, é o tomar banho e trocar de roupa diariamente, atender a todas as premissas higiênicas e dirigir carro próprio. Toda injustiça social se afunda no mar do conformismo. O revolucionário é aquele que não tem nada a perder além das cadeias que o escravizam. Quem vive no conforto se cuida muito mais de não ser radical; quando se desfruta das comodidades, tende-se a se acomodar.

O "confortismo" é o substituto mais efetivo da religião. Ele modera as populações na medida em que outorga felicidade. É para a ordenação social existente, a garantia mais eficaz. Cria uma comunidade de todos os beneficiários do conforto resolutamente contrária a todos aqueles que se atrevam a colocá-lo em dúvida. E não por casualidade floresce o meio de apaziguamento e de suborno de massas que é o "confortismo" com total prosperidade na América. O "confortismo" pressupõe o emprego da plenitude das riquezas naturais das que "a terra bendita por Deus" dispõe, assim como de seu imenso desenvolvimento técnico-industrial. O desenvolvimento da técnica contribui de modo decisivo para esse imenso nível de produção, o qual é necessário e deve ser constantemente mobilizado para poder levar a cabo o completo suborno das massas, no qual se baseia até agora a imperturbável ordem democrática norteamericana. O genuíno orgulho liberal, que nunca se esquece de recordar a si mesmo o quão longe chegou, é alimentado pelo "confortismo": Quem, quando é levado aos mais alto por uma escada rolante, não se sentiria superior aos demais povos e pessoas incapazes de apresentar um progresso semelhante? Um homem é superior na medida em que possui o conforto. Isto é, em definitivo, o resumo do conceito cultural norteamericano.


Tradução por Raphael Machado


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