domingo, 10 de outubro de 2010

Os Melhores

por Juan Pablo Vitali

Os melhores são os primeiros a cair.

Eles arrojam seu sangue sobre o rosto tenebroso do mundo, e ingressam em um Olimpo que não é de paz nem de prazer. Eles não querem o prazer nem a paz, porque foi outro o sentido de suas vidas.

Se tivessem desejado, teriam podido permanecer mais tempo nesse mundo, ainda assim, se anteciparam ao esquecimento, atravessaram a ponto sobre os abismos, e sentiram em seus ossos o frio do universo. Se arrojaram desnudos sobre o gelo, tomaram um atalho ao supramundo.

Eles, conquistaram a palavra e a matéria, açoitaram a superfície da terra com seus versos, esculturas e canções. Açoitaram a chuva com fogo, e se puseram primeiros na fileira, para chegarem antes ao Sol interior, o que iluminou um dia as pedras negras caídas do escuro céu estelar.

Eles, nos miram com olhos flamígeros, não para nos dizerem o que temos que fazer, nem para nos castigar por nossos pecados. Somente nos observam e nos dizem: eu não sou como tu, eu não duvidei, me queimou a atmosfera, e os Deuses reconheceram minhas cinzas. Eu me arrojei de frente ao medo dos homens, e eles me rechaçaram de suas fileiras. E tive que subir sozinho, em meio ao ódio terrestre até os cumes nevados, onde os Deuses fazem água da neve.

Os melhores não necessitam a palavra, nem o mármore, para criar; simplesmente buscam uma espada, e entregam generosos, seu sangue feito de outra luz, ao homem que virá depois do último, a aquele que se anuncia por eles.

Os melhores observam, desde o mais além, a anarquia do mundo que já não pode tocá-los. Vivem em um paraíso de sucessivas vitórias, que compartilham com gloriosas amantes combatentes.

Poderia dizer-se sem temor ao pecado, que eles mesmos são o paraíso, ao qual brindam sua luz feita de cinzas.

Eles são o furioso paraíso da coragem.

Eles cantam e festejam, terem sido os primeiros a cair, cantam desde o interior escuro da rocha, riem e observam as criaturas temerosas, que dormem escondidas sem reconhecer a vasta noite, com seus corações afundados no silêncio, porque não suportam sua própria pequenez.

Pratiquemos o culto dos que chegaram primeiro, intactos, ao outro Sol, ao verdadeiro.

Sonhemos através de suas vidas, de seu sangue e de seu exemplo, que eles são nossos Deuses, através de suas obras, e do sentido de sua ausência, nos reencontraremos com a verdadeira altura do homem.


Tradução por Raphael Machado

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.