domingo, 17 de outubro de 2010

O Hedonismo Como Estilo de Vida

por Antonio Marco Mora Hervás

"Terem muitos particulares aplanado montes e nivelado mares, gente em minha opinião a quem as riquezas não serviram senão para desprezo e brincadeira, porque podendo-as gozar honestamente, apressavam-se a perdê-las por modos vergonhosos. Nem era menor o excesso na lascívia, na glutonaria e demais prazeres do corpo. Prostituíam-se infamemente os homens; expunham as mulheres ao público sua honestidade; buscava-se excelentemente tudo por mar e terra para excitar a gula; não se esperava o sonho para o repouso na cama; sem fome, sem sede, sem frio, nem cansaço; tudo era antecipado pelo luxo. Essas desordens inflamavam a juventude, depois que já havia dissipado suas propriedades, para todo gênero de maldades. Seu ânimo envolto em vícios, dificilmente deixava de ser caprichoso; e tanto com maior desenfreio se entregava ao roubo e aos excessos".
(Suetônio)

O relaxamento moral que emana das cidades cosmopolitas é quiçá o símbolo mais visível que delata a corrupção espiritual de nossa Cultura.

O hedonismo se assenta definitivamente na sociedade, e não são poucos os que adotam essa filosofia como um autêntico estilo de vida, como uma "via de fuga" para evadir-se de um mundo que já não interessa porque já foi perdido interiormente. Desenraizados, esses indivíduos pululam pelas ruas com a esperança de encontrar uma nova fonte de prazer com a qual saciar sua alma viciada. Seus componentes já não são os clássicos alcoólatras ou "pessas de má reputação", mas sim a crescente massa de jovens semi-vagabundos, consumidores de toda classe de drogas e outras perversões. Em casos concretos, essas tendências alcança um setor cada vez maior da população, o qual é inclusive justificado e até fomentado pela explícita demagogia de políticos, artistas e intelectuais de nova geração.

Sem embargo, não é a primeira vez que semelhantes infâmias se fazem presentes na História; podemos rastrear esses mesmos fenômenos na Roma decadente, aquela cidade mundial cujo ocaso cultural Mommsen soube descrever tão detalhadamente.

Enquanto os jogos de apostas e espetáculos públicos iam ganhando terreno dia após dia, "o horror ao trabalho e a vagabundagem cresciam a olhos nus", assinala o prestigiado historiador alemão. Mais aidante conta a significativa anedota na qual "Cato propôs que se pavimentasse o Forum com pedras bem afiadas para obrigar os vadios a aprenderem um ofício".

Sem dúvida, essas inclinações encontraram sua apoteose na conhecida fórmula imperial do Panem et Circenses, medida com a qual os Imperadores pretendiam manter ociosa a plebe urbana. Nessa situação, é compreensível que àquela época se considerasse que "o homem rico que vive do trabalho de seus escravos é necessariamente um homem respeitável, enquanto que o homem pobre que vive do trabalho de suas mãos se tem necessariamente por um homem vil", crença que ao menos demonstra uma maior franqueza do que a que se pode experimentar em nossos dias.

"No que concerne a ociosidade, nada tinha que invejar o aristocrata ao proletário; se esse se virava folgadamente sobre o pavimento, aquele dormia entre suas plumas até bem tarde no dia. A dissipação reinava nesse mundo com tanta falta de medida como sobra de mal gosto". Desse modo resume Mommsen o vazio espiritual que empeçonhava o coração de um povo próximo a se consumir, de uma raça atrofiada em espera de tempos melhores, de tempos nos quais o descanso anuncie o crepúsculo ante a irreversibilidade de seu próprio Destino.

Tradução por Raphael Machado

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