segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Marx, Moisés e os Pagãos na Cidade Secular

por Tomislav Sunic

Com a conversão do Imperador Romano Constantino ao Cristianismo, o período da Europa pagã chegaria a seu fim. Durante o próprio milênio o continente europeu seria submetido à influência do Evangelho - às vezes pela persuasão pacífica, ou frequentemente por meio da conversão forçada. Aqueles que previamente foram oprimidos por Nero, Diocleciano ou Calígula, não duvidaram em aplicar a violência "criativa" contra os pagãos infieis. Ainda que nominalmente a violência estaria proibida pelos textos cristãos, foi usada contra aqueles que não pertenciam à comunidade dos "filhos escolhidos" de Deus. Durante o reinado de Constantino, a perseguição contra os pagãos tomou proporções análogas a aquelas com as quais as velhas religiões haviam perseguido anteriormente o novo culto, porém em um espírito ainda mais feroz. "Logo do Edito do ano 346 a.C., seguido dez anos depois pelo Edito de Milão, os templos pagãos e o culto às divindades pagãs foram estigmatizados como crime máximo. A pena de morte foi inflingida em todos aqueles que fossem encontrados participando nos antigos sacrifícios ou rendendo culto aos "ídolos" pagãos. "Com Teodósio, a administração embarcou em um esforço sistemático de abolição das várias formas sobreviventes do paganismo por meio da desestabilização e da proscrição dos cultos sobreviventes." (1) O período do obscurantismo havia começado.

A violência cristã e entre cristãos, ad majorem dei gloriam, não cessou até o começo do século XVIII. Junto às catedrais góticas de impressionante beleza, as autoridades cristãs construíram fogueiras que consumiram milhares de infelizes anônimos. Vista em retrospectiva, a intolerância cristã contra os hereges, judeus e pagãos pode ser comparada à intolerância bolchevique contra os inimigos de classe na Rússa e na Europa Oriental - com a exceção de que se estendeu por muito mais tempo. Durante a queda da Roma Imperial, o fanatismo cristão fez com que o filósofo pagão Celso escrevesse: "Eles (os cristãos) não argumentam sobre o quê creem - sempre respondem 'Não examine, mas sim creia'..." A obediência, a oração, e a anulação do pensamento crítico são considerados pelos cristãos como as ferramentas mais úteis para lograr a salvação eterna. Celso descreveu os cristãos como indivíduos com tendência ao sectarismo e a uma forma primitiva de pensamento, e que, ademais, demonstravam um grande desdém pela vida. (2) Um tom similar contra os cristãos foi usado por Friedrich Nietzsche no século XIX, que, em seu estilo virulento, descreveu os cristãos como indivíduos capazes de manifestar ódio por si mesmos e pelos demias, quer dizer "ódio por aqueles que pensam diferente, e a vontade de perseguição contra eles." (3) Indubitavelmente, os cristãos primitivos deviam acreditar que o final dos tempos se aproximava, e por seu otimismo histórico, assim como também por sua violência contra os "infieis", provavelmente merecem o nome de Bolcheviques da Antiguidade.

Como foi sugerido por muitos autores, a desintegração do Império Romano não resultou das invasões bárbaras, mas sim da "ruína de Roma pela ação das seitas cristãs, objetores de consciência, inimigos do culto oficial, perseguidos, perseguidores, elementos delitivos de todas as classes, e o caos total." Paradoxalmente, o deus judeu Jeová inclusive experimentaria um destino sinistro: "ele seria convertido, se tornaria romano, cosmopolita, ecumênico, gentil, mundialista, e finalmente antissemita."(!)(4) Não é surpreendente, que nos séculos posteriores, as igrejas cristãs na Europa tivessem dificuldade para reconciliar sua vocação universalista com o particularismo étnico.

Resíduos Pagãos na Cidade Secular

Ainda que o Cristianismo tenha removido gradualmente os últimos vestígios do politeísmo romano, também se apresentou como o herdeiro legítimo de Roma. De fato, o Cristianismo não pôde cancelar inteiramente o paganismo, herdou de Roma alguns aspectos que previamente havia considerado anti-cristãos. Os culos pagãos oficiais foram eliminados porém o espírito pagão permaneceu indomável, e por séculos reapareceu nas formas mais assombrosas e em múltiplos modos: durante o período do Renascimento, durante o Romantismo, antes da Segunda Guerra Mundia, e hoje, quando as igrejas cristãs reconhecem que suas ovelhas secularizadas estão distanciando-se de seus "únicos" pastores. Finalmente, o folclore étnico parece representar um exemplo notório de sobrevivência pagã, ainda que na cidade secular tenha sido reduzido a uma comodidade culinária efêmera ou a mera atração turística. (5) Com o passar dos séculos, o folclore étnico foi submetido a transformações, adaptações, e às demandas e circunstâncias de sua época, sem embargo, manteve seu arquétipo original de mito tribal fundador. Assim como o paganismo sempre foi mais forte nos campos, assim sucedeu com o folclore que tradicionalmente foi protegido pelas classes campesinas na Europa. A princípio do século XIX, o folclore jogou um papel decisivo na criação das consciências nacionais dos povos europeus, quer dizer, "em comunidades ansiosas para conhecer suas próprias origens e baseadas muitas vezes em uma história reconstruída, mais do que real". (6)

O conteúdo pagão foi removido, mas a estrutura pagã permaneceu igual. Sob o manto e a aura dos santos cristãos, o Cristianismo logo criou seu próprio panteão de divindades. É mais, inclusive a mensagem de Cristo adaptou seu significado especial segundo o lugar, a época histórica e o genius loci de cada Povo europeu. Em Portugal, o Catolicismo se manifesta de forma diferente do que em Moçambique; e os polacos rurais continuam venerando muitas das antigas divindades eslavas costuradas cuidadosamente na liturgia católica romana. Ao longo da Europa contemporânea, a influência da fé politeísta é poderosa. A celebração de Yule (ou Natal "cristão") representa o exemplo mais famoso da tenacidade dos resíduos pagãos.(7) Ademais, muitos antigos templos pagãos e locais de culto foram convertidos em lugares sagrados da Igreja Católica. Lourdes na França, Medjugorje na Croácia, rios ou montanhas sagradas, não assinalam a presença da Europa pagã pré-cristã? O culto da deusa mãe, alguma vez praticado intensamente pelos celtas, particularmente perto dos rios, ainda pode ser observado hoje na França one muitas pequenas capelas estão construídas perto das montanhas e dos rios.(8) E finalmente, quem pode disputar que todos somos herdeiros dos gregos e latinos pagãos? Pensadores como Virgílio, Tácito, Heráclito são tão modernos hoje como o eram durante os primeiros tempos da civilização europeia.

Pagãos Conservadores Modernos

Há evidência sólida de que a sensibilidade pagã pode florescer nas Ciências Sociais, na Literatura e nas Artes, não apenas como forma de narrativa exótica mas sim também como marco mental e ferramenta de análise. Numerosos nomes nos vêm a mente quando discutimos o retorno do politeísmo Indo-Europeu. Na primeira metade do século XX, os pensadores pagãos apareceram usualmente entre aqueles que se denominavam "Conservadores Revolucionários", "Niilistas Aristocráticos", "Elitistas" - em resumo, todos aqueles que não desejavam substituir Marx com Jesus, mas sim que rechaçaram tanto Marx como Jesus.(9) Friedrich Nietzsche e Martin Heidegger na Filosofia, Carl Gustav Jung na Psicologia, Georges Dumézil e Mircea Eliade na Antropologia, Vilfredo Pareto e Oswald Spengler na Ciência Política, acompanhados ademais por dezenas de poetas como Ezra Pound ou Charles Baudelaire - esses são alguns dos nomes que podem ser associados com o legado do conservadorismo pagão. Todos esses indivíduos tinham em comum a vontade de superar o legado da Europa cristã, e todos eles incluíram em sua bagagem espiritual o mundo dos celtas, eslavos, germanos e latinos pré-cristãos.

Em uma época que está sobrecarregada com a mensagem bíblica, muitos pensadores pagãos modernos, por sua crítica ao monoteísmo bíblico, foram atacados e estigmatizados como ateus impenitentes ou como portadores espirituais do Fascismo. Particularmente, Nietzsche, Heidegger e em tempos recentes, Alain de Benoist, foram atacados por difundir supostamente uma Filosofia que, para seus detratores contemporâneos, recorda as tentativas Nacional-Socialistas de "descristianizar" e "repaganizar" a Alemanha. Esses parecem ataques sem fundamento. Jean Markale observa que "o Nazismo e o Stalinismo, foram em um sentido, também religiões pelos atos que realizaram. Também foram religiões na medida em que implicavam um certo Evangelho, no sentido etimológico da palavra... O paganismo verdadeiro, ao contrário, sempre está orientado para o reino da sublimação. O paganismo não pode estar a serviço do poder temporal."(11) O paganismo parece mais bem uma forma de sensibilidade do que um credo político particular, e com o esgotamento do Cristianismo, quiçá possa florescer de novo na Europa.

O Paganismo Contra o Deserto Monoteísta

Dois mil anos de monoteísmo judaico-cristão deixaram sua pegada na civilização europeia. Em vista disso, não deveria ser surpreendente que a glorificação do paganismo, assim como a crítica da Bíblia e da ética judaico-cristã - especialmente quando vêm da Direita Política - sejam impopulares na cidade secular. É suficiente observar à sociedade norteamericana onde os ataques aos princípios judaico-cristãos são vistos frequentemente com suspeita, e onde a Bíblia e o mito bíblico do "Povo Eleito" de Deus ainda jogam um papel significativo no dogma constitucional norteamericano.(12) Ainda que agora a cidade secular seja indiferente à teologia judaico-cristão, alguns princípios morais que derivam da ética judaico-cristã tais como a "Paz Eterna", o "Amor", e a "Fraternidade Universal", não morreram e todavia mostram sinais de vida. Na cidade secular, muitos pensadores liberais e progressistas, ainda que tenha abandonado a crença na teologia judaico-cristã, não abandonaram a ética ensinada pela Bíblia.

Sem importar o que se possa pensar sobre a conotação obsoleta, perigosa, ou inclusive derrogatória do termo "Paganismo Europeu", é importante ressaltar que essa conotação se deve principalmente à influência histórica e política do Cristianismo. Etimologicamente, paganismo está relacionado com as crenças e rituais das vilas e campos europeus. Porém o paganismo, em sua versão moderna, poderia conotar também uma certa sensibilidade e uma "forma de vida" que permanece irreconciliável com o monoteísmo judaico-cristão. Em algum grau os povos europeus continuam sendo "pagãos" por sua memória nacional, suas raízes geográficas, e por, sobretudo, sua pertença à comunidades étnicas - que frequentemente contém alusões a mitos antigos, contos de fadas, e formas de folclore que incluem temas pré-cristãos. Inclusive o ressurgimento moderno do separatismo e do regionalismo na Europa aparece como um fruto de resíduos pagãos. Como observa Markale, "a ditadura da ideologia cristã não silenciou esses antigos costumes, apenas os suprimiu", e foi um dos provedores principais de imperialismo, colonialismo, e racismo no Terceiro Mundo.(14)

Na moderna cidade secular, a influência milenária e persuasiva do Cristianismo contribuiu significativamente para a noção de que a glorificação do paganismo, ou, a nostalgia do mundo greco-romano, é estranha ou na melhor das hipóteses, irreconciliável com a sociedade contemporânea. Sem embargo, recentemente, Thomas Molnar, um filósofo católico que parece simpatizar com o renascimento cultural do paganismo, nota que os aderentes modernos do neopaganismo são mais ambiciosos do que seus predecessores. Molnar escreve que o objetivo do ressurgimento pagão não é o retorno ao culto das antigas divindades europeias; mas sim em verdade, expressa uma necessidae de formar outra civilização, ou, melhor ainda, uma versão modernizada do "Helenismo científico e cultural" que outrora foi uma referência comum para todos os povos europeus. E com simpatia pela sensibilidade politeísta de alguns conservadores pagãos modernos, Molnar agrega: "O ponto não é conquistar o planeta mas sim promover uma ecúmene para os povos e civilizações que redescobriram suas origens. A ideia é que a dominação de ideologias sem Estado, notavelmente as ideologias do Liberalismo norteamericano e do Marxismo soviético, chegou a seu fim. Acredita-se em um paganismo reabilitado com o objetivo de restaurar as identidades dos Povos que existiram antes da corrupção monoteísta."(15)

Tal ponto de vista da parte de um católico também pode verter alguma luz sobre a magnitude da desilusão dos cristãos em suas cidades seculares. O mundo secularizado repleto de riqueza material não parece satisfazer as necessidades espirituais do Homem. De que outra maneira se poderia explicar o fato de que milhares de europeus e jovens norteamericanos prefiram buscar orientação espiritual em gurus indianos do que em seus próprios locais sagrados obscurecidos pelo monoteísmo judaico-cristão?

Os protagonistas contemporâneos do paganismo, enquanto ansiosos em refutar o mito do "anacronismo" pagão, e redefinir o paganismo europeu segundo o espírito dos tempos modernos, apresentaram seu significado de uma forma mais atrativa e acadêmica. Uma das figuras mais conhecidas, Alain de Benoist, resume o significado moderno do paganismo com as seguintes palavras:

"O neopaganismo não é um fenômeno de seita - como imaginam, não somente seus adversários, mas também os grupos pagãos, às vezes bem intencionados, às vezes torpes, frequentemente involuntariamente cômicos e perfeitamente marginais... O que deve temer-se hoje, não é tanto o desaparecimento do paganismo mas sim seu ressurgimento sob formas primitivas ou pueris, aparentadas com essa 'segunda religiosidade' que Spengler considerava uma das características mais notórias das culturas em decadência e sobre as quais Julius Evola escreveu que correspndiam geralmente a um fenômeno de evasão, alienação, compensação, confusão, sem nenhuma repercussão séria na realidade."(16)

O paganismo como sinônimo de cultos e seitas bizarras, não é o que os pagãos modernos tem em mente. Um século atrás, o filósofo pagão Friedrich Nietzsche já havia observado no Anticristo que "quando uma nação se torna demasiado degenerada ou desenraizada, aceita as várias formas de cultos orientais, e simultaneamente 'troca inclusive seu próprio Deus'"(979). As palavras de Nietzsche soam hoje mais proféticas do que nunca. As massas da cidade secular acometidas pela decadência e pela banalidade rampantes, estão buscando sua evasão nos gurus indianos ou na ajuda de um conjunto de profetas orientais. Porém mais além dessa paródia da transcendência, e do auto-ódio europeu acompanhado pela infatuação com os mascotes orientais, há mais do que apenas um esgotamento transitório do monoteísmo cristão. Quando os cultos modernos tentam descobrir um paganismo pervertido, fazem-no porque estão buscando o sagrado que foi eliminado pelo discurso judaico-cristão dominante.

Do Deserto Monoteísta à Antropologia Comunista

O monoteísmo introduziu na Europa uma "antropologia" alógena responsável pela legitimação da sociedade de massas igualitária e do totalitarismo, como alguns pagãos sugerem? Alguns autores parecem apoiar essa tese, argumentando que as raízes da tirania não estão em Atenas ou em Esparta, mas sim que são traçáveis, mas acertadamente, a Jerusalém. Em um diálogo com Molnar, de Benoist sugere que o monoteísmo mantém a ideia de que exista uma única verdade absoluta; é um sistema onde o inimigo é associado com o Mal Absoluto, onde o inimigo deve ser exterminado fisicamente (Deuteronômio 13). Em resumo, observa de Benoist, que o universalismo judaico-cristão, desde dois mil anos atrás, preparou o caminho para a chegada das aberrações igualitárias modernas e suas variações secularizadas, entre as quais se incluem o comunismo.

"Que existiram regimes totalitários 'ateus' é bastante óbvio, por exemplo, a União Soviética. Esses regimes sem embargo, são os 'herdeiros' do pensamento cristão no sentido em que Carl Schmitt demonstrou que a maioria dos princípios políticos modernos são princípios teológicos secularizados. Trouxeram à terra uma estrutura de exclusão; a polícia da alma cede seu lugar à polícia do Estado; as guerras ideológicas sucedem as guerras religiosas."(17)

Observações similares foram feitas antes pelo filósofo Louis Rougier e pelo politólogo Vilfredo Pareto, que representavam a "velha guarda" de pensadores pagãos cujas investigações filosóficas estiveram dedicadas à reabilitação do politeísmo político europeu. Tanto Rougier como Pareto concordavam em que o Judaísmo e sua forma pervertida, o Cristianismo, introduziram no marco conceitual europeu uma forma estrangeira de raciocínio que leva ao pensamento desejoso do utopismo, e que fica obcecado com um futuro estático.(18) De forma similar aos marxistas modernos, a crença cristã no igualitarismo espiritual deve ter tido um tremendo impacto nas massas empobrecidas do Norte da África e de Roma, na medida em que prometia a igualdade para os "infelizes da terra," para os odium generis humani, e todos os proletários do mundo. Rougier em um comentário sobre os proto-comunistas cristãos, remarca que o Cristianismo esteve desde o princípio sob a influência do dualismo iraniano e das visões escatológicas do Apocalipse judaico. Segundo isso, os judeus, e logo, os cristãos adotariam a crença de que os bons que atualmente sofrem seriam recompensados no futuro. Na cidade secular, o mesmo tema aparece nas doutrinas marxistas modernas que prometem um paraíso secularizado. "Há dois planos justapostos no espaço," escreve Rougier, "um governado por Deus e seus anjos, e o outro por Satã e Belial." As consequências dessa visão dualista do mundo, resultaram, após um período de tempo, na projeção cristã-marxistas de seus inimigos como totalmente equivocados, à diferença da atitude cristã-marxista que é sempre considerada correta. Para Rougier, a intolerância grecorromana jamais assumiu essas proporções totais e absolutas da exclusão religiosas; a intolerância por cristãos, judeus e outras seitas foi esporádica, provocada por certos costumes religiosos contrários à lei romana (tais como circuncisão, sacrifícios humanos, orgias sexuais e religiosas).(19)

Ao separar-se de suas raízes europeias politeístas, e aceitar o Cristianismo, os europeus gradualmente começaram a aceitar uma cosmovisão que enfatizava a igualdade das almas, e a obrigação de difundir a palavra de Deus a todos os povos, sem importar Raça, credo, cultura ou idioma (Paulo, Gálatas 3:28). Nos séculos seguintes, esse princípio igualitário, entrou primeiro, de forma secularizada na consciência do Homem europeu, e logo, no da humanidade inteira. Alain de Benoist escreve:

"Segundo o processo clássico do desenvolvimento e da degradação dos ciclos, o tema igualitário passou, em nossa cultura, do estado de Mito (igualdade perante Deus) ao estadio de Ideologia (igualdade entre os homens), logo ao estado de pretensão 'científica' (afirmação do fato igualitário): do cristianismo à democracia liberal, logo ao socialismo e ao marxismo. A grande censura que pode-se fazer ao cristianismo é ter inaugurado o ciclo igualitário, introduzindo no pensamento europeu uma antropologia revolucionário, com caráter universalista e totalitário".(20)

Sustentamos que o monoteísmo judaico-cristão, na medida em que implica universalismo e igualitarismo, também produz um exclusivismo religioso que diretamente emana da crença em uma verdade indiscutível. A consequência da crença cristã na unidade teológica, quer dizer, que já um só Deus, e por conseguinte uma só verdade - levou naturalmente, ao longo dos séculos, à tentação apagar ou desvalorar todas as outras verdades e valores. Quando uma seita proclama sua religião como a chave dos enigmas do Universo e se, ademais, essa seita tem aspirações universais, a igualdade e a supressão de todas as diferenças humanas são aspectos que aparecem automaticamente. Assim, a intolerância cristã pelos "infieis" pode ser justificada sempre como uma resposta legítima contra aqueles que não reconhecem a "verdade" de Jeová. Portanto, o conceito da "falsa humildade" cristã em relação a outras confissões, um conceito que é particularmente verdadeiro em relação à atitude cristã com os judeus. Ainda que sejam quase idênticos em seu culto a um único Deus, os cristãos nunca aceitaram o fato de que eles também veneram a mesma divindade daqueles a quem condenaram em um primeiro momento como povo deicida. Ademais, enquanto que o Cristianismo sempre foi uma religião universalista, acessível a todas as pessoas no mundo, o Judaísmo permaneceu como uma religião étnica do povo judeu.(21) Como aponta de Benoist, o Judaísmo sanciona seu próprio Nacionalismo, à diferença do Nacionalismo dos cristãos que é constantemente negado pelos princípios universalistas cristãos. Em vista disso, o "antissemitismo cristão", escreve de Benoist, "pode ser descrito com justiça como uma neurose." Poderia ser que o desaparecimento definitivo do antissemitismo, assim como do virulento ódio étnico, pressupõe primeiro o abandono da crença cristã no universalismo?

Conceito Pagão do Sagrado

Aos críticos que argumentam que o politeísmo é uma coisa da mente pré-histórica e primitiva incompatível com as sociedades modernas, poderíamos responder-lhes que o paganismo não é necessariamente "um retorno a um Paraíso Perdido" ou uma nostalgia pela restauração da ordem grecorromana. Para os conservadores pagãos, a lealdade ao "paganismo" significa a reconciliação com as origens históricas da Europa, assim como também reviver alguns aspectos sagrados da vida que existiram na Europa antes do Cristianismo. Poderíamos agregar, que em relação à suposta superioridade ou progresso do judaico-cristianismo frente ao "anacronismo" do politeísmo indo-europeu, as religiões judaico-cristãs, em termos de sua novidade, não são menos passadistas do que as religiões pagãs. Enfatizando esse ponto, de Benoist escreve:

"Assim como havia ontem que ver o espetáculo grotesco da denúncia dos 'ídolos pagãos' por missionários cristãos apaixonados pelos próprios totens, hoje é muito mais cômico ver denunciar o 'passado' (indo-europeu) pelos que não param de elogiar a continuidade judaico-cristã e de nos remeter ao exemplo de Abraão, Jacó, Isaque e outros beduínos proto-históricos."(22)

Segundo alguns pensadores pagãos, a racionalização judaico-cristã do tempo histórico impediu a valoração do passado nacional próprio e, ao fazê-lo, contribuiu significativamente para a "desertificação" do mundo. No último século, Ernest Renan observou que o judaísmo não tem noção de Sagrado, porque "o Espírito do Deserto é monoteísta."(23) Em um tom similar, Alain de Benoist en 'L'éclipse', citando a 'The Secular City' de Harvey Cox, escreve que a perda do sagrado, que é a causa do desencantamento da pólis moderna hoje, ocorreu como consequência da renúncia bíblica da História. Assim, o desencantamento da Natureza começou com a Criação; a dessacralização da Política com o Êxodo; e a desconsagração dos valores com a Aliança do Sinai; especialmente depois da interdição dos ídolos(29). Continuando com análise similar, Mircea Eliade, um autor influenciado pelo mundo pagão, agrega que o ressentimento judaico da "idolatria" pagã deriva do caráter ultra-racional das leis mosaicas que racionalizam todos os aspectos da vida por meio de uma infinidade de prescrições, leis e interdições:

"A dessacralização da Natureza, a desvaloração da atividade cultural, em resumo, o rechaço violento e total da religião cósmica, e sobretudo a importância decisiva que é conferida à regeneração espiritual por meio do retorno definitivo de Jeová, foi a resposta dos profetas às crises históricas que ameaçavam aos dois reinos judaicos."(24)

Alguns poderiam objetar que o Catolicismo teve sua própria forma do Sagrado e que, à diferença de algumas outras formas de judaico-cristianismo, desenvolveu sua própria transcendência espiritual. Porém há razões para pensar que o conceito católico do Sagrado não emergiu sui generis, mas sim como um fruto da amálgama cristã com o paganismo. Como de Benoist escreve, o Catolicismo deve sua manifestação do Sagrado (lugares sagrados, peregrinações, festividades de Natal, e o panteão de santos) à indomável sensibilidade pagã politeísta. Por conseguinte, parece que hoje o ressurgimento pagão não representa uma religião normativa, no sentido cristão da palavra, mas sim um certo equipamento espiritual que está em oposição à religião dos judeus e dos cristãos. Consequentemente, como alguns pensadores pagãos sugerem, a substituição da visão monoteísta do mundo pela cosmovisão politeísta não significaria somente o "retorno dos Deuses" mas sim também o retorno da pluralidade de valores sociais.

A coragem, a honra pessoal e a auto-superação física e espiritual são citadas frequentemente como as virtudes mais importantes do Paganismo. À diferença do utopismo cristão e marxista, o paganismo enfatiza o profundo sentido do trágico, o trágico como é visto nas tragédias gregas - que sustenta o homem em sua condição prometeica e que faz com que sua vida mereça o penhasco.(25)É o sentido pagão do trágico o que pode explicar o destno do Homem, que para os antigos indo-europeus significou "a ação ativa, o esforço, e a superação pessoal.(26) Hans Günther resume esse ponto nas seguintes palavras:

"A religiosidade indo-europeia não está baseada em nenhum tipo de medo, nem no temor da divindade ou da morte. As palavras do poeta dos últimos dias, nas quais se mantinha que o temor criou os Deuses (Statius, Thebais, 3:661: primus in orbe fecit deos timor), não podem ser aplicadas às formas verdadeiras da religiosidade indo-europeia, por onde quer que essa tenha se desenvolvido livremente, o "temor ao Senhor" (Provérbios, IX.10; Salmos XI, 30) não foi demonstrado como sendo a origem nem da crença, nem da sabedoria."(27)

Alguns sugeriram que as grandes civilizações são aquelas que mostraram um forte sentido do trágico e que não temem a morte.(28) No conceito pagão do trágico, o homem é motivado a tomar a responsabilidade perante a história porque somente o homem é quem dá à história um significado. Em um comentário sobre Nietzsche, Giorgio Locchi escreve, que, na cosmogonia pagã, somente o homem é considerado como o único forjador de seu próprio Destino (faber suae fortunea), isento de determinismos bíblicos ou históricos, "graça divina", ou mecanismos econômicos e materiais.(29) O paganismo propõe uma atitude heroica perante a vida oposta à atitude cristã da culpa do medo à vida. Sigrid Hunke escreve sobre a essencialização da vida, na medida em que a vida e a morte tem a mesma essência e esta está sempre contida em ambas. A vida, que é a todo momento um enfrentamento-à-morte e com a morte, torna permanente o futuro em cada instante, e a vida se torna eterna ao adquirir uma profundidade inescrutável, e assume o valor da Eternidade.

Para Hunke, junto a outros autores de sensibilidade pagã, para restaurar essas vritudes pagãs na cidade secular o homem deve em primeiro lugar abandonar a lógica dualista da exclusão religiosa e social, "uma lógica que foi responsável pelo extremismo não apenas entre os indivíduos, mas sim também entre partidos e povos, e que, ao difundir-se desde a Europa, disseminou no mundo uma divisão dualista que adquiriu proporções planetárias."(30) Para lograr esse ambicioso objetivo, o Homem europeu deve repensar o significado da História.

O Terror à História

Os pagãos modernos nos recordam que o monoteísmo judaico-cristão alterou substancialmente a atitude do homem para com a História. Por assignar à História um objetivo específico inerente, o judaico-cristianismo desvalorou todos os eventos passados, exceto aqueles que assinalam sinais de Jeová. Indubitavelmente, Jeová admite que o homem poderia ter uma história, porém somente se está subordinada a um objetivo assignado e específico. Não obstante, se o homem adere a um conceito da história que exalta a memória coletiva de sua tribo ou povo, ele corre o risco de ofender a Jeová e provocar a sua ira. Para judeus e cristãos, porém também para os marxistas, a historicidade não é a essência real do Homem; a essência verdadeira do Homem está mais além da História. Observamos que o conceito judaico-cristão do Fim da História implícito no Apocalipse é no que se inspiram as doutrinas igualitárias e pacifistas modernas, comumente sem sabê-lo, seguem o provérbio bíblico:"Morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará; o bezerro e o leão e a besta doméstica caminharão juntos, e uma criança os irá pastorear" (Isaías, 11:6). De Benoist nota em 'L'éclipse que, à diferença do conceito pagão de História que envolve a solidariedade orgânica e os laços comunitários, o conceito monoteísta da História cria divisões. Assim, Jeová deve proibir as "relações" entre o presente e o passado, entre o homem e o divino, entre o indivíduo e a comunidae, entre Israel e os gentis(31). Os cristãos, sem dúvida, rechaçaram o exclusivismo judaico - como seu proselitismo bimilenar amplamente demonstra - porém eles também mantiveram sua própria forma de exclusivismo ideológico contra os não-crentes muçulmanos, pagãos, ateus ou outros "infieis."

Frente ao dogma judaico-cristão que afirma que o tempo histórico começa com a ação de um único pai divino, no paganismo europeu não há traços do começo do tempo; mas bem, o tempo histórico é visto como um perpétuo começo, o "Eterno Retorno" que emana de pais múltiplos e diferentes, sem princípio nem final. Na cosmogonia pagã, como de Benoist escreve, o tempo é não-linear ou esférico, no qual o passado, o presente e o futuro não são percebidos como segmentos do tempo cósmico separados e opostos entre si, ou seguidos uns pelos outros em uma linha que progride. Ao invés, o presente, o passado, e o futuro são percebidos como dimensões da atualidade (L'éclipse 131). Na cosmogonia pagã é impossível que um povo ocupe o centro da história, a história é plural e cada povo tem um devir histórico diferente e contingente. Similarmente, assim como é errôneo falar da existência de uma única verdade, é igualmente equivocado manter que a humanidade inteira deve seguir a mesma direção histórica, como propõem o universalismo judaico-cristão e seu descendente secular "a democracia universal."

O conceito judaico-cristão da história sugere que o fluxo do tempo histórico é retilíneo, e por conseguinte, limitado por sua significância e significado. Daí em diante, para os judeus e para os cristãos, a história pode ser apreendida somente como uma totalidade governada pelo sentido de uma finalidade última e um propósito histórico. A história para os judeus e os cristãos aparece como um parêntese, um episódio horrível ou um "vale de lágrimas" temporal, que um desses dias finalizará e será transcendido pelo reino dos Céus.

Ademais, o monoteísmo judaico-cristão exclui a possibilidade do retorno histórico ou de um "novo começo"; a história se desenrola de uma maneira pré-determinada dirigindo-se para uma finalidade última. Na moderna cidade secular, a ideia da finalidade cristã será transposta no mito da sociedade "sem classes" que aparecerá ao fim da história ou a sociedade consumista ahistórica antipolítica do liberalismo. De Benoist escreveu o seguinte:

"A legitimação pelo futuro que substitui à legitimação pela Tradição autoriza todos os desenraizamentos, todas as 'emancipações' em relação à adesão em sua forma original. Esse futuro utópico que substitui o passado mítico é sempre incidentalmente gerador de decepções, porque o melhor do que promete deve ser constantemente adiado para um tempo cada vez mais distante. A temporalidade já não é mais um elemento fundacional do desdobramento do Ser que tenta entender o jogo da temporalidade do mundo; quando se segue uma finalidade se cria expectativa e não comunhão. Submeter o devir histórico a um significado obrigatório significa, de fato, desintegrar a história no reino da objetividade, que reduz as opções, as orientações e os projetos."(155-156)

Somente o futuro pode permitir aos judeus e aos cristãos "retificar" o passado. Somente o futuro assume o valor de redenção. Daí em diante, o tempo histórico já não é reversível para os judeus e os cristãos; desde agora cada fato histórico adquire o significado dado pela providência divina, do dedo de "Deus" ou sua teofania. Na cidade secular, essa forma de pensamento histórico linear deu nascimento à "religião" do progresso e à crença no crescimento econômico ilimitado. Moisés não recebeu os mandamentos em um certo lugar e em um tempo particular, desde então irrepetível, e Jesus não pregou, fez milagres e foi crucificado em um tempo particular, desde então irrepetível? Não começa o Fim da História para os comunistas com a Revolução Bolchevique, e para os liberais com o Século Americano? Essas intervenções "divinas" na história humana nunca poderão repetir-se. Eliade resume esse ponto com as seguintes palavras:

"Sob a 'pressão da história' e a experiência profética e messiânica, uma nova interpretação dos eventos históricos apareceu entre os Filhos de Israel. Sem renunciar totalmente ao conceito tradicional dos arquétipos e às repetições, Israel tenta 'salvar' os eventos históricos tomando-os como atos de Jeová... O messianismo lhes dá um novo valor, especialmente ao abolir a possibilidade de sua repetição ad infinitum. Quando o Messias venha, o mundo será salvo de uma vez por todas e a história cessará de existir."(31)

A História enquanto governada diretamente pela vontade de Jeová, funciona como uma série de eventos irrevogáveis e irreversíveis. Não só é descartada a história, mas sim que também luta-se contra ela. Pierre Chaunu, um historiador francês contemporâneo, observa que "o rechaço da história é uma tentação poderosa naquelas civilizações que emergiram do judaico-cristianismo."(32) Em um tom similar, Michel Maffesoli escreve que o totalitarismo ocorre naquelas Nações hostis à história, e agrega: "Entramos agora no reino da finalidade propício à escatologia política cujo resultado é o judaico-cristianismo e seus herdeiros profanos, o liberalismo e o marxismo."(33)

As observações anteriores necessitam alguns comentários. Se aceita-se a ideia do Fim da História, como foi proposta por monoteístas, marxistas e liberais, como pode ser explicado o sofrimento histórico? Como é possível, desde o ponto de vista do Marxismo e do Liberalismo "redimir" as opressões, sofrimentos coletivos, deportações e humilhações passadas que encheram a história? É suficiente dizer que esse enigma somente sublinha a dificuldade em relação ao conceito da justiça distributiva na cidade secular igualitarista. Se uma sociedade verdadeiramente igualitária emerge milagrosamente, será, inevitavelmente, uma sociedade de escolhidos - daqueles que, como notou Eliade, escaparam da pressão da história simplesmente por ter nascido no tempo e no lugar corretos. Paul Tillich notou, há algum tempo, que tal igualdade resultaria em uma imensa desigualdade histórica, na medida em que excluiria aqueles, que durante seu tempo de vida, viveram em uma sociedade desigual, ou parafraseando a Arthur Koestler "que pereceram no magma da eternidade."(34) Essas frases de Koestler e Eliade ilustram as dificuldades das ideologias salvacionistas modernas que pretendem "deter" o tempo e criar um paraíso secular. Não seria melhor em épocas de crises retomar a noção pagã do tempo cíclico? Esse parece ser o caso de alguns povos europeus do Leste, que, em tempos de crises ou catástrofes, frequentemente se refugiam no folclore popular e nos mitos, que lhes ajudam, em uma forma quase catártica, a superar sua situação. Locchi escreve:

"Um novo começo da história é possível. Não há uma verdade histórica. Se a verdade histórica existisse realmente não haveria história. A verdade histórica sempre deve ser obtida; sempre deve ser traduzida à ação. E esse é exatamente o significado da história para nós."(35)

Poderíamos concluir que para os cristãos é a fé em Cristo o que define o valor de um ser humano, para um judeu é o Judaísmo, e para a Marx não é a qualidade do homem que define a classe, mas sim a qualidade da classe que define o Homem. É assim que alguém se torna "escolhido" por virtude de sua afiliação a uma classe ou a uma religião.

Pagãos ou Monoteístas: Quem é mais tolerante?

Jeová, assim como seus sucessores seculares, enquanto portador exclusivo da verdade, se opõe à presença de outros Deuses e outros valores. Como reducionista, qualquer coisa que existe mais além de sua jurisdição deve ser proibida ou destruída. Observamos, que ao longo da história, os crentes monoteístas foram empurrados, em nome de uma verdade "superior", a castigar aqueles que não seguem a direção assignada por Jeová. Walter Scott escreve:

"Em muitas instâncias a lei mosaica da retaliação, do 'olho por olho, dente por dente,' foi invocada pelos israelitas para justificar as atrocidades que eles inflingiram em seus inimigos... A história das guerras israelitas mostra que os hebreus eram, geralmente, os agressores."(36)

Assim, em nome da verdade histórica, os antigos hebreus puderam justificar a matança dos cananeus pagãos e em nome da revelação cristã, os reinos cristãos legitimaram as guerras contra judeus, pagãos e "hereges." Sem embargo, seria impreciso, nesse contexto, negar a existência da violência nos pagãos. A destruição grega da cidade de Troia, a destruição romana de Cartago, claramente apontam a natureza frequentemente total e sangrenta das guerras conduzidas pelos gregos e pelos romanos. Porém, é importante assinalar que não encontramos entre os antigos a atitude arrogante perante suas vitórias que acompanhava as vitórias cristãs e judias. Os gregos e romanos nunca tentaram, após a derrota de seus oponentes, converter-lhes à sua religião e a seus Deuses. À diferença, tanto o Evangelho como o Velho Testamento contém relatos sobre atos de justiça auto-indulgente que, logo, justificaram a violência "redentora" contra os oponentes. Similarmente, na moderna cidade secular, a guerra pela democracia se converteu em um meio particularmente efetivo para destruir todas as diferentes entidades políticas que rechaçam a "teologia" do progresso universal e desconhecem o credo da "democracia universal". Para sublinhar esse ponto, Pierre Gripari escreve que o Judaísmo, o Cristianismo, e seus herdeiros seculares como o marxismo e o liberalismo, são doutrinas bárbaras que não podem ter lugar no mundo moderno.(60)

Frente a isso, aponte de Benoist que um sistema como o politeísta, que reconhece um número ilimitado de Deuses também reconhece a pluralidade de cultos oferecidos em sua honra, e acima de tudo, a pluralidade dos costumes, sistemas sociais e políticos, e cosmovisões das quais esses Deuses são expressões sublimes.(37) Como consequência disso, os pagãos ou crentes no politeísmo, são consideravelmente menos intolerantes. Sua relativa tolerância é atribuída principalmente à aceitação da noção do "terceiro excluído"("der ausgeschlossene Dritte"), assim como também de seu rechaço do dualismo judaico-cristão.

Para compreender o caráter da tolerância relativa dos pagãos, é interessante mencionar a atitude dos pagãos indo-europeus em relação a seus oponentes durante a confrontação militar. Jean Haudry remarca que a guerra para os pagãos era conduzida segundo regulações estritas; a guerra era declarada segundo os rituais que invocavam a ajuda dos Deuses e dirigiam seu desgosto contra o adversário. A conduta na guerra estava sujeita a regras bem definidas e consequentemente "a vitória consistia em romper sua resistência, e não necessariamente em destruir o adversário"(161). Em vista do fato de que o judaico-cristianismo não permite verdades relativas, ou verdades diferentes e contraditórias, frequentemente adota a guerra total contra seus oponentes. Eliade escreve que "a intolerância e o fanatismo característicos dos profetas e missionários das três religiões monoteístas, tem seu modelo e justificativa no exemplo de Jeová."(38)

Como a intolerância monoteísta transpira na cidade secular, supostamente tolerante? Quais são as consequências seculares do monoteísmo judaico-cristão em nossa época? Nos sistemas contemporâneos, são os indecisos - quer dizer, aqueles que não assumiram lado, e que rechaçam as escatológicas políticas modernas - que se converteram nos alvos do ostracismo ou perseguição: aqueles que hoje questionam a utilidade da ideologia dos Direitos Humanos, do mundialismo ou da igualdade. Em poucas palavras, aqueles que rechaçam o credo comunista e liberal.

Em conclusão, dizemos que, desde o primeiro momento, o judaico-cristianismo pretendeu desmistificar e dessacralizar o mundo pagão ao substituir lentamente os antigos credos pagãos com o reino da Lei Judaica. Durante esse processo bimilenar, o Cristianismo gradualmente removeu todos os vestígios pagãos que conviveram com ele. O processo de dessacralização e "Entzauberung" da vida e da política não parece ter resultado da separação dos europeus do Cristianismo, mas sim do desaparecimento gradual da concepção pagã do Sagrado que coexistiu durante muito tempo com o Cristianismo. O paradoxo de nosso tempo é que a Europa está saturada com a mentalidade judaico-cristã em um momento no qual a maioria das Igrejas e Sinagogas estão vazias.

Notas:
1. Charles Norris Cochrane, Christianity and Classical Culture (New York: Oxford UP, 1957), 254-55, 329.
2. T. R. Glover, The Conflict of Religion in the Early Roman Empire (1909; Boston: Beacon, 1960), 242, 254, passim.
3. Friedrich Nietzsche, Der Antichrist, in Nietzsches Werke (Salzburg/Stuttgart: Verlag "Das Berlgand-Buch," 1952), 983, para. 21.
4. Pierre Gripari, L'histoire du méchant dieu (Lausanne: L'Age d'Homme, 1987), 101-2.
5. Michel Marmin, "Les Piegès du folklore'," in La Cause des peuples (Paris: édition Le Labyrinthe, 1982), 39-44.
6. Nicole Belmont, Paroles paiennes (Paris: édition Imago, 1986), 160-61.
7. Alain de Benoist, Noël, Les Cahiers européens (Paris: Institut de documentations et d'études européens, 1988).
8. Jean Markale, et al., "Mythes et lieux christianisés," L'Europe paienne (Paris: Seghers, 1980), 133.
9. About European revolutionary conservatives, see the seminal work by Armin Mohler, Die Konservative Revolution in Deutschland, 1919-1933 (Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1972). See also Tomislav Sunic, Against Democracy and Equality: The European New Right (New York: Peter Lang, 1990).
10. See notably the works by Alfred Rosenberg, Der Mythus des 20. Jahrhunderts (München: Hoheneichen Verlag, 1933). Also worth noting is the name of Wilhelm Hauer, Deutscher Gottschau (Stuttgart: Karl Gutbrod, 1934), who significantly popularized Indo-European mythology among national socialists; on pages 240-54 Hauer discusses the difference between Judeo-Christian Semitic beliefs and European paganism.
11. Jean Markale, "Aujourd'hui, l'esprit païen?" in L'Europe paienne (Paris: Seghers, 1980), 15. The book contains pieces on Slavic, Celtic, Latin, and Greco-Roman paganism.
12. Milton Konvitz, Judaism and the American Idea (Ithaca: Cornell UP, 1978), 71. Jerol S. Auerbach, "Liberalism and the Hebrew Prophets," in Commentary 84:2 (1987):58. Compare with Ben Zion Bokser in "Democratic Aspirations in Talmudic Judaism," in Judaism and Human Rights, ed. Milton Konvitz (New York: Norton, 1972): "The Talmud ordained with great emphasis that every person charged with the violation of some law be given a fair trial and before the law all were to be scrupulously equal, whether a king or a pauper" (146). Ernst Troeltsch, Die Soziallehren der christlichen Kirchen and Gruppen (1922; Aalen: Scientia Verlag, 1965), 768; also the passage "Naturrechtlicher and liberaler Character des freikirchlichen Neucalvinismus," (762-72). Compare with Georg Jellinek, Die Erklärung der Menschen-und Bürgerrechte (Leipzig: Duncker and Humblot, 1904): "(t)he idea to establish legally the unalienable, inherent and sacred rights of individuals, is not of political, but religious origins" (46). Also Werner Sombart, Die Juden and das Wirtschaftsleben (Leipzig: Verlag Duncker and Humblot, 1911): "Americanism is to a great extent distilled Judaism ("geronnene Judentum")" (44).
13. David Miller, The New Polytheism (New York: Harper and Row, 1974), 7, passim.
14. Serge Latouche, L'occidentalisation du monde (Paris: La Découverte, 1988).
15. Thomas Molnar, "La tentation paienne," Contrepoint 38 (1981):53.
16. Alain de Benoist, Comment peut-on etre païen? (Paris: Albin Michel, 1981), 25.
17. Alain de Benoist, L’éclipse du sacré (Paris: La Table ronde, 1986), 233; see also the chapter, "De la sécularisation," 198-207. Also Carl Schmitt, Die politische Theologie (München and Leipzig: Duncker und Humblot, 1922), 35-46: "(a)ll salient concepts in modern political science are secularized theological concepts" (36).
18. Gerard Walter, Les origines du communisme (Paris: Payot, 1931): "Les sources judaiques de la doctrine communiste chrétienne" (13-65). Compare with Vilfredo Pareto, Les systèmes socialistes (Paris: Marcel Girard, 1926): "Les systèmes métaphysiques-communistes" (2:2-45). Louis Rougier, La mystique démocratique, ses origines ses illusions (Paris: éd. Albatros, 1983), 184. See in its entirety the passage, "Le judaisme et la révolution sociale," 184-187.
19. Louis Rougier, Celse contre les chrétiens (Paris: Copernic, 1977), 67, 89. Also, Sanford Lakoff, "Christianity and Equality," in Equality, ed. J. Roland Pennock and John W. Chapaman (New York: Atherton, 1967), 128-30.
20. Alain de Benoist, "L'Eglise, L'Europe et le Sacré," in Pour une renaissance culturelle (Paris: Copernic, 1979), 202.
21. Louis Rougier, Celse, 88.
22. Comment peut-on être païen?, 170, 26. De Benoist has been at odds with the so-called neo-conservative "nouveaux philosophes," who attacked his paganism on the grounds that it was a tool of intellectual anti-Semitism, racism, and totalitarianism. In his response, de Benoist levels the same criticism against the "nouveaux philosophes." See "Monothéisme-polythéisme: le grand debat," Le Figaro Magazine, 28 April 1979, 83: "Like Horkheimer, like Ernest Bloch, like Levinas, like René Girard, what B. H. Lévy desires is less `audacity,' less ideal, less politics, less power, less of the State, less of history. What he expects is the accomplishment of history, the end of all adversity (the adversity to which corresponds the Hegelian Gegenständlichkeit), disincarnate justice, the universal peace, the disappearance of frontiers, the birth of a homogenous society . . . "
23. Ernest Renan, Histoire générale des langues sémitiques (Paris: Imprimerie Impériale, 1853), 6.
24. Mircae Eliade, Histoire des croyances et des idées religieuses (Paris: Payot, 1976), 1:369, passim.
25. Jean-Marie Domenach, Le retour du tragique (Paris: édition du Seuil, 1967), 44-45.
26. Jean Haudry, Les Indo-Européens (Paris: PUF, 1981), 68.
27. Hans. K. Günther, The Religious Attitude of Indo-Europeans, trans. Vivian Bird and Roger Pearson (London: Clair Press, 1966), 21.
28. Alain de Benoist and Pierre Vial, La Mort (Paris: ed. Le Labyrinthe, 1983), 15.
29. Giorgio Locchi, "L'histoire," Nouvelle Ecole 27/28 (1975):183-90.
30. Sigrid Hunke, La vraie religion de l’Europe, trans. Claudine Glot and Jean-Louis Pesteil (Paris: Le Labyrinthe, 1985), 253, 274. The book was first published under the title Europas eigene Religion: Der Glaube der Ketzer (Bergisch Gladbach: Gustav Lubbe, 1980).
31. Mircae Eliade, The Myth of the Eternal Return or, Cosmos and History, trans. Willard R. Trask (Princeton: Princeton UP, 1965), 106-7.
32. Pierre Chaunu, Histoire et foi (Paris: Edition France-Empire, 1980), quoted by de Benoist, Comment peut-on être païen? 109.
33. Michel Maffesoli, La violence totalitaire (Paris: PUF, 1979), 228-29.
34. See Paul Tillich, The Eternal Now (New York: Scribner's, 1963), 41, passim. "Shrug of eternity" are the last words Arthur Koestler uses in his novel Darkness at Noon (New York: Modern Library, 1941), 267.
35. Georgio Locchi, et al., "Über den Sinn der Geschichte," Das unvergängliche Erbe (Tübingen: Grabert Verlag, 1981), 223.
36. Walter Scott, A New Look at Biblical Crime (New York: Dorset Press, 1979), 59.
37. Comment peut-on être païen? 157-58.
38. Mircea Eliade, Histoire des croyances, 1:194.




Tradução por Raphael Machado

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