terça-feira, 5 de outubro de 2010

Magnus Carlsen vs. o Mundo ou as deficiências da democracia representativa

por Dienekes Pontikos

Eu participei na G-STAR RAW World Chess Challenge na última sexta-feira, na qual o excelente enxadrista Magnus Carlsen jogou contra o "Mundo", eventualmente vencendo o jogo após 44 movimentos.

O jogo começou a descer ladeira a baixo para o "Mundo" logo cedo, e, como eu estava esperando para ver como o inevitável 1-0 se desenrolaria, me ocorreu o quão próximo toda a experiência se aproximava do que ocorre em uma democracia representativa moderna.

Carlsen (C): um "desafio" encarando o público; a crise, ou problema, que precisa ser resolvido.
Lagrave, Nakamura, Polgar (LNP): os "políticos", sugerindo o quê precisa ser feito para resolver C, um movimento por vez.
O público (P): o "eleitorado", escolhendo dentre os movimentos sugeridos por LNP.
Kasparov & Ashley (KA): a "mídia", fazendo comentários a respeito de C, LNP e P.

O jogo em si foi boa evidência em favor de duas asserções a respeito da democracia:

1. A soma de mentes medíocres não gera um gênio.
2. Multidões não planejam a longo prazo, e não são consistentes.

1) A soma de mentes medíocres não gera um gênio.

Em muitas situações, combinar elementos medíocres produz um resultado superior. Isso é verdade quando tarefas podem ser repartidas em componentes que são fáceis de lidar. Uma pessoa normal morreria de tédio antes de conseguir somar mil números, mas uma centena de pessoas poderia fazê-lo realizando um punhado de adições cada.

Isso também ocorre quando participantes medíocres são completamente neutros e independentes, E há um modo simples de combinar as contribuições de cada um. Por exemplo, eu não posso advinhar a altura de uma pessoa com grande precisão, mas se vinte pessoas derem cada uma um palpite, a média de seus palpites poderá muito bem se aproximar da verdade.

Na partida Carlsen vs. o Mundo nenhuma dessas duas condições estava presente: indivíduos diferentes não pensavam diferentes aspectos do jogo. Resumidamente, não havia cooperação, não havia força nos números. O resultado foi que o Mundo não jogou como uma máquina massivamente paralela, mas sim como um jogador amador escolhendo entre alternativas apresentadas por três jogadores fortes. Nem eles combinaram seus pensamentos de qualquer modo interessante, mas simplesmente com a regra básica de voto majoritário.

2) Multidões não planejam a longo prazo.

Planejamento a longo prazo com muitos participantes é difícil de se alcançar. Isso não se deve apenas à imprevisibilidade do futuro, ou à inabilidade das pessoas em antecipar o futuro exceto nos termos mais vagos, mas também devido à dificuldade de se manter um consenso.

Considere um grupo de pessoas decidindo como chegar ao fim de um labirinto. Cada pessoa tem uma ideia de como alcançar esse objetivo, mas há modos diferentes por meio das quais cada pessoa pode alcançar seu objetivo:

Em uma democracia há um voto a cada intersecção, em uma monarquia a multidão segue um líder, na anarquia cada um segue seu próprio caminho, enquanto na aristocracia (no sentido original da palavra, que é "governo pelos melhores") a multidão segue líderes escolhidos por sua habilidade em passar por labirintos.

Na partida Carlsen vs. o Mundo poderia ser dito que há elementos aristocráticos em atuação (já que LNP, que lideravam o povo, eram indubitavelmente excelentes enxadristas) mas também um princípio democrático, já que os líderes não decidiam, mas sim o povo.

Se alguém (um dos LNP, por exemplo) viessem com um bom plano, ele não poderia efetivá-lo, porque no meio do caminho para a execução para a execução do plano, o público, que não entenderia o plano, e os outros dois líderes, que podem não tê-lo imaginado, ou poderiam preferir outro, mudariam de rumo.

Movimentos que foram sugeridos desde cedo, acabaram sendo realizados tarde demais, quando sua eficácia já inexistia. A multidão alternava entre demonstrações de bravatas e contra-ataques prematuros, seguidos rapidamente por movimentos super-defensivos que criavam uma posição desconfortável e completamente indefensável.

Os paralelos com a democracia

A falha do "Mundo" é impressionante, porque ela tinha muitas vantagens: os "líderes" eram parta da elite do xadrez, e tanto eles, quanto o público tinham um interesse comum claramente definido: vencer o jogo.

Em uma democracia real, não apenas políticos e cidadãos tem objetivos conflitantes (p.ex., aumentar ou reduzir impostos, aumentar ou reduzir a imigração, regular ou liberalizar mercados, etc.) mas a qualidade dos políticos é geralmente baixa: LNP foram selecionados principalmente por mérito, colocando seus planos sob escrutínio democrático; em uma democracia representantiva real, tanto líderes quanto planos são sujeitos a voto.

Isso sem mencionar a mídia, composta majoritariamente de ignorantes repletos de opinião que tem que descer ao menor denominador comum do populacho de modo a alcançar circulação ou audiência, ao invés de informarem o público sobre questões relevantes, e sobre os diferentes planos dos partidos políticos.

Poderia ser dito que Carlsen era inteligente demais, então não deveríamos nos importar muito com a falha do "Mundo" em derrotá-lo; porém, também pode ser dito que os desafios do mundo real que são encaradas pela sociedade são ainda mais complexos, quer sejam as mudanças climáticas, a organização dos mercados financeiros, a decisão de ir à guerra, inimigos domésticos e estrangeiros; etc.

Conclusão

A principal vantagem da democracia, comparada com outros sistemas políticos é sua adaptatividade. Em uma monarquia, você ou tem um bom governante ou um mal governante, por longos períodos de tempo. Você tem a vantagem de ter planejamento a longo prazo, mas a desvantagem de que o plano a longo prazo pode levar à ruína. Em uma democracia representativa típica, você tem uma série de governantes medíocres. Constância e planejamento a longo prazo são jogados pela janela, mas a correção do rumo faz parte do sistema.

Experiências como a partida Carlsen vs. o "Mundo" deveriam, porém, chamar nossa atenção sobre o quão sub-óptimo como sistema de governo a democracia representativa realmente é. É difícil prever como a democraciap oderia evoluir em uma direção mais eficiente, mas definitivamente vale a pena pensar.

Tradução por Raphael Machado


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