sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A Esquerda e a Vitimização na História

por German Sainz

A histórica data que se aproxima é sem dúvida o referente máximo na configuração da psiquê da esquerda latinoamericana. É no mês de outubro em quê se põe em funcionamento todo o aparato cultural que se encontra há anos dirigido à reprodução desse estado psíquico e coletivo ao que podemos chamar vitimização. Não haverá muito lugar para o festejo, mas sim para o repúdio e para a lembrança de um "genocídio". Porém o Descobrimento e posterior conquista do continente americano são para a esquerda, únicamente o ponto de partida de uma longa história de abusos, crimes e despojos que fazem da vítima um elemento de continuidade ao longo dos séculos, criando um elemento social determinado ao sofrimento. Essa concepção da vitimização tocou fundo na mentalidade coletiva de nossos países graças ao acionar cultural dessa mesma esquerda latinoamericana que fez dela seu verdadeiro "leitmotiv".

A vitimização como recurso, a vingança como método

O conhecido jurista peruano Ariel Tapia Gómez sustenta que a contextualização sociológica da vitimização desentranha a mesma como processo social de segregação, marginalidade e vulnerabilidade, onde as leis darwinistas são a regra comum, no sentido de que a escolha das vítimas é sempre no âmbito dos mais fracos e menos avantajados. Porém, essa relação - continua Tapia - não é sustentável desde o ponto de vista moral: não pode o abuso ser a chave do êxito. E, ao contrário, as vítimas resultam ser o referencial ético do tipo de sociedade. Uma sociedade pretenderá ser menos ou mais justa segundo seja sua forma de trato com suas vítimas. Não por isso, os grandes líderes do irenismo, pacifismo e similares, fincam sua moral em sua condição de vítimas: Mahatma Gandhi, Luther King, os povos indígenas, as mulheres, as crianças, os pobres do mundo, etc. Do estudo conceitual histórico-analítico podemos estabelecer que a esquerda latinoamericana estabelece e aplica o modelo utilitário da vitimização. É o da vítima sacrificial que deve se resignar e superar sua dor em razão do grupo social que se beneficiará das vantagens dessa posição (o Império espanhol primeiro, a Igreja, os grupos dirigentes, etc.). Nessa categorização cabe à perfeição a descrição tão pouco histórica tão ideologizada do Descobrimento do Novo Mundo.

Porém o quê sucede quando a vitimização é encarnada desde o plano ideológico? As vítimas passam a ser sinônimo de vingança. Poderíam enumerar-se um sem fim de exemplos que nos levam a estabelecer esse comportamento estandartizado ao qual estamos tão acostumados e do qual o conhecido "As veias abertas da América Latina" (1971) de Eduardo Galeano é a representação máximo no imaginário progressista. Seja no Uruguai, Argentina, Venezuela ou América Central, o padrão é sempre o mesmo. Se estabelece uma penúria estendida no tempo à qual deverá inevitavelmente chegar uma solução, ou melhor dito, uma liberação. Ante o jugo, não sobre outro recurso além da violência, daí que observemos como essa ideologização da vítima desemboca irremediavelmente na vingança. O espírito de vingança foi sempre estranho ao sentir da longa trajetória valorativa ocidental. Ele mesmo não foi um tema comum nem recorrente da literatura anglo-saxã nem hispânica, e quando esta tem surgido, tem sido de maneira anedótica. A esquerda estabelece então, uma fundação valorativa sobre esse espírito inovador e consequente: o valor da vingança.

Uma justificativa e mil defeitos. A Teoria do 'bom selvagem'.

Não é novo nem inovador que a história de nosso continente seja interpretada e escrita a partir de fora do âmbito acadêmico. Desde muito cedo no tempo, tem sido o jornalismo ou as iniciativas pessoais de alguns aventureiros os agentes aos quais tem sido brindada a possibilidade de escrever a história. Em países como os nossos nos quais o investimento estatal em investigação é um "gasto desnecessário", o espaço é coberto imediatamente pelos sempre oportunos franco-atiradores. Se por si mesma, essa realidade pouca luz arroja aos dados necessários para enfrentar uma análise profunda e veras dos fatos, menos ainda colaboram a tendenciosidade e a falta de dados em mãos de pessoas comprometidas com o ativismo ideológico, sempre destinados a serem os portadores da hegemonia cultural.

Se de vitimização se trata, a esquerda nos recorda geralmente, os abusos dos conquistadores a um limite imprevisto de crueldade e ambição econômica. Porém omite por completo descrever a férrea estratificação social da vida pré-colombiana nessas terras e suas consequências brutais. No plano da vitimização, o discurso progressista anula as responsabilidades levando a discussão ao que Francisco Pestanha define como dispositivo de transferência, tendente a inverter a condição de vitimizador na de vítima.

Muito apesar de que a historiografia atual tenha chegado ao consenso de que as cifras estrondosas de perdas humanas posteriores à conquista do continente se deveu à propagação das enfermidades vindas do Velho Continente, nada dizem disso os analistas do sistema hegemônico. Nada se menciona na escatologia esquerdista acerca das incontáveis alianças de Hernan Cortés com populações mexicanas - Totonacas, Tlascaltecas e outros -, que logo das fatídicas "Guerras Floridas" iniciadas pelos Aztecas, encontram nos recém-chegados do mar, uma possibilidade de liberação do jugo imperial. Quando se realizam referências aos povoadores da América pré-hispânica se enumeram engenheiros, arquitetos, escultores, cirurgiões, astrólogos e "selvagens da idade da pedra" como se esse último lhes incorporasse o atributo daquele "bom selvagem" tão caro à literatura iluminista. Porém brilham por sua ausência a exploração sistemática das minas de metais preciosos por parte dos impérios pré-colombianos e a utilização de mão-de-obra escrava para tal fim, a busca incessata de tribos vizinhas para escravizar e as negociações dos imperadores americanos com povos vizinhos. Menos ainda se catalogam os milhares de sacrifícios humanos e a morte de centenas de crianças nas mãos dos sacerdotes pré-colombianos. Um século de império inca e outro azteca parecem ter sido forjados tendo como base o trabalho de uma longa lista de humanistas, filantropos e pacifistas. A idealização do americano, produto da teoria da vitimização é o ponto de partida de todo discurso.

A Memória como História?

Segundo afirmações do próprio Eduardo Galeano: "sou um escritor que queria contribuir para o resgate da memória sequestrada de toda América, porém acima de tudo da América Latina, terra desprezada e íntima." O recurso à memória para escrever história nos é cada dia mais familiar. Porém, apesar das pretensões de fonte confiávei que se queria atribuir a essa função cerebral sujeita a erros incomensuráveis, a história não pode ser jamais a acumulação de "memórias" mas sim o resultado final da constatação de fontes empíricas e dados concretos através de uma metodologia precisa. Daí se desprende que por mais onírica que resulte a proposta memorística, carecerá da mais mínima seriedade acadêmica - ou dito de outro modo - de toda confiabilidade.

E é que certa esquerda quer simplesmente deseja pontificar, daí que em suas análises e investigações não haja o menor indício de problematização da história nem objetividade mínima, nem repartição de responsabilidades, porquê sua intenção não é conceitualizar mas sim compilar "memórias" todas elas convenientes a seus interesses ideológicos.

O melhor antídoto contra a vitimização e toda desvirtualização da história se encontram em primeiro lugar no apego dessa disciplina como atividade intelectual, metódica e procedimental; em segundo lugar reconhecer o exercício das responsabilidades coletivas, sem desconhecer como é justo, a possibilidade da injustiça sempre presente, porém sem que essa chege a trabalhar como legitimação da imobilidade e da vitimização, propensas sempre a negar a prioridade da coerência.

Tradução por Raphael Machado

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