sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Fernando D. González Grueso - El Cid e Aragorn: Dois Herois da Lenda

por Fernando D. González Grueso



As semelhanças entre a figura do Cid como heroi épico medieval e um dos herois mais famosos do mundo literário ocidental do século passado e Aragorn, rei herdeiro do mundo criado por J.R.R. Tolkien em seu "O Senhor dos Aneis", são mais que evidentes e, quiçá, não de todo casuais.

Se bem que o Cid não seja o heroi arquetípico da épica medieval europeia como o possam ser Carlos Magno, Orlando ou Guilherme, compartilha de fato de muitas de suas características. Se determinou que seja o Cid o ponto de partida porque o personagem está mais caracterizado psicologicamente que os mencionados anteriormente. Trata-se de um personagem que aporta muitos elementos à estrutura da obra e não se sujeita quase exclusivamente ao plano bélico.

OS DOIS HEROIS

Tal e como explica Ian Michael: um heroi é um homem que "na ação se mostra superior aos outros". Partindo dessa premissa e seguindo a tradição literária a respeito, foi selecionado um heroi como ponto de partida do estudo: o Cid, e um heroi da primeira metade da literatura do século passado: Aragorn, rei de Gondor.

O primeiro heroi é o Cid. Rodrigo Díaz de Vivar teria nascido em 1043 e morrido em 1099. Foi um fidalgo castelhano imortalizado em um cantar épico, "El Poema del Mio Cid", escrito em princípios do século XIII por um autor "anônimo".

O cantar narra os feitos do heroi para recobrar o status perdido por seu desterro. Um status que alcança com vitórias, conquistas, dons, e que perde novamente pela injúria dos Infantes de Carrión a suas filhas. Ao final, nas Cortes de Toledo, recupera esse status e o poema termina com sua exaltação, agregando que:

"Oy los reyes d'España sos parientes son,
a todos alcança ondra por el que em buen ora naçió."

Desse modo a figura do Cid se coloca em uma posição superior à dos reis, já que estes tem a honra de ter seu Sangue.

Aragorn pertence à atualmente muito famosa trilogia de literatura fantástica "The Lord of the Rings", criada por John Ronald Rewel Tolkien e editada em 1954.

Aragorn durante uma viagem em busca da destruição das forças do Mal é elevado à posição de rei a qual lhe correspondia por direito e a qual havia renunciado por amor. Sua entronização é o resultado de um esforço e da demonstração de uma série de aptidões que se vão revelando ao longo do livro. É um personagem que vai criando a si mesmo como rei. Esse tipo de heroi continua com a tradição franco-anglo-saxã do ciclo arturiano, que apresenta pequenas divergências com a tradição medieval épica francesa. A isso se acrescentam pequenas sutilezas da concepção romântica dos herois medievais.

DOS HEROIS MEDIEVAIS AOS HEROIS CONTEMPORÂNEOS

Assinala Ian Michael que a superioridade que os herois manifestam sobre os outros não se manifesta apenas no plano combativo e físico, mas também em outra série de qualidades que são, a saber: "excelentes dotes de mando militar", "devoção religiosa", "preocupação com seus deveres familiares", "vassalagem", "conhecimento e observância dos procedimentos jurídicos", "generosidade", "cortesia", "astúcia" e "discrição".

Parece deduzir-se que essa lista de qualidades se refere ao heroi cidiano e não aos herois em geral, tampouco aos herois medievais. O Cid não é um heroi convencional medieval, por sua motivação prática e sua humanidade realista; é positivo, frente ao pessimismo generalizado dos herois dos cantares de gesta; é grave e austero, frente aos impetuosos jovens como Orlando.

A partir das qualidades, desde agora, será feita uma pequena análise comparativa entre os dois herois:

1. Qualidades combativas e físicas

- O Cid mostra ser um grande guerreiro nos combates face-a-face:

"Mio Çid Ruy Díaz por las puertas entrava,
en mano trae desnuda la espada,
quinze moros matava de los que alcançava" (vv. 470-472)

"...atantos mata de moros que non fueron contados," (vv. 1723)

"En las azes primeras al Campeador entrava,
abatió a siete e a cuatro matava" (vv. 2396-2397).

Vence um exército de trinta mil soldados com seus homens:

"Fata dentro en Xátiva duró la arrancada,
en el passar de Xúcar i veriedes barata,
moros en arruenço amidos bever agua" (vv. 1227-1229).

E não somente era mostrado como um grande guerreiro pelo número de inimigos que mata, mas sim também pela maneira de fazê-lo:

"...diol' tal espadada con el so diestro braço
cortól' por la çintura, el medio echó en el campo" (vv. 750-751).

"...arriba alçó Colada, un grant colpe dádol' ha,
las carbonclas del yelmo tollidas ge las ha,
cortól' el yelmo e, librado todo lo ál,
fata la çintura el espada llegado ha" (vv. 2421-2424).

- Aragorn é um grande guerreiro da Terra Média. Faz frente a hordas de guerreiros orcs:

"Os que vinham atrás fugiram gritando, e Aragorn e Boromir acometeram contra eles".

Lidera um exército junto a Éomer que resiste um ataque colossal das forças de Saruman:

"Atacando de costado, se precipitaram sobre os selvagens".

Seus golpes são tremendamente vigorosos e sangrentos, continuando com a tradição épica:

"Ainda estava o orc deixando cair a lança, e sacando a cimitarra, quando Andúril lhe caiu sobre o elmo. Houve um estrondo com uma fagulha, e o elmo se abriu em dois. O orc caiu, a cabeça partida".

Ademais, é um heroi de literatura fantástica, razão pela qual também se enfrenta com monstros, espectros e uma multidão de seres malignos.

Sua força e resistência ficam patentes na corrida que iniciam no capítulo "Os Cavaleiros de Rohan" e que dura vários dias. Para isso, Aragorn anima a seus companheiros da seguinte forma;

"...Porém avante! Com ou sem esperança, seguiremos as pegadas do inimigo. E ai deles, se provamos que somos mais rápidos!"

2. Devoção religiosa

- O Cid é um heroi medieval católico e muito religioso, como demonstram os seguintes fragmentos:

"...llegó a Sancta María, luego descalgaba,
fincó los inoios, de coraçón rrogaba" (vv. 52-53).

"...fabló Mío Çid de toda voluntad:
'Yo rruego a Dios e al Padre spritual,..." (vv.299-300).

Quando parte para uma viagem solicita uma missa:

"...en San Pero a matines tendrá el buen Abbat,
la missa nos dirá, ésta será de Sancta Trinidad;
la missa dicha, pensemos de cabalgar,..." (vv. 318-320)

Nomeia a Dom Jerônimo como bispo de Valência, adquirindo uma posição muito mais alta do que seu título nobiliárquico indica:

"...en tierras de Valençia fer quiero obispado
e dárgelo a este buen christiano;" (vv. 1299-1300).

Recebe a "institucionalizada" missa antes de um combate na Idade Média:

"A mediados gallos, antes de la mañana,
el obispo don Ierónimo la missa les cantava;
la missa dicha, grant sultura les dava:" (vv. 1701-1703).

Há que mencionar que o heroi cidiano sente certa inclinação pela Virgem Maria em suas orações, uma característica comum em muito da literatura da época:

"¡válanme tus vertudes, gloriosa Sancta María!…
¡Vuestra vertud me vala, Gloriosa, en mi exida
e me aiude e me acorra de noche e de día!" (vv. 218-222).

A tão alto grau chega a religiosidade do Çid que recebe uma mensagem em sonhos do Arcanjo São Gabriel. Lhe é outorgada desse modo a benção de Deus para suas façanhas futuras:

"¡Cabalgad, Çid, el buen Campeador!
Ca nunqua en tan buen punto cavalgó varón;
mientra que visquiéredes bien se fará lo tó" (vv. 407-409).

- Aragorn é um homem religioso que cumpre com seus deveres perante seus Deuses, ainda que não seja mostrada nenhuma cena na qual seja visto oficiando alguma cerimônia. Tolkien nos permite entrever a isto ao longo do livro e em seus Apêndices.

3. Preocupação com os deveres familiares

- A preocupação que expressa o Cid com seus deveres para com sua família é enorme, chegando a chorar ao deixar sua mulher e filhas. Essa característica não é própria dos herois medievais.

"Enclinó las manos la barba vellida,
a las sus fijas en braço´ las prendía,
llególas al coraçón, ca mucho las quería;
llora de los oios, tan fuertemientre sospira:" (vv. 274-277).

"Llorando de los oios que non viestes atal,
assís´ parten unos d´ otros commo la uña d ela carne" (vv. 374-375).

Envia dinheiro ao mosteiro de Burgos para que cuidem de sua família:

"Evades aquí oro e plata,
una huesa llena, que nada nol´ mingua;
en Sancta maría de Burgos quitedes mill missas,
lo que rromanesçiere dando a mi mugier e a mis fijas" (vv. 820-823).

Trata de levá-las consigo a Valência:

"… enviaré por ellas e vós sabed el mensaje: ç
la mugier de Mio Çid e sus fijas las infantes" (vv. 1278-1279).

O Cid quer casar suas filhas, porém a primeira escolha que se realiza escapa de suas mãos pois é o rei Alfonso quem decide o casamento, frente ao qual, o heroi expressa seu receio:

"Metívos en sus manos, fijas amas a dos,
bien me lo creades que él vos casa, ca non yo" (vv. 2203-2204).

Como grande mostra do ataque a sua honra pessoal ao terem sido desonradas suas filhas pelos infantes de Carrión, o Cid pede justiça ao rei e jura vingar a afronta:

"Plega al Criador, que en çielo está,
que vos vea meior casadas d´aquí en adelant.
¡De míos yernos de Carrión Dios me faga vengar!" (vv. 2892-2894).

- Aragorn é órfão de pais na obra. Sua mãe o levou para Elrond, o Meio-Elfo e ele lhe ofereceu seus cuidados quando ela faleceu. Desde esse momento, Elrond foi como seu pai, e a filha dele, Arwen, com o tempo, passou a ser sua prometida. É um dos principais defensores da ideia de que o Anel deva ir-se de Valfenda, local de repouso de Elrond, e não esquece de seu amor por Arwen quando a tentação se apresenta sob a forma de Eowyn, uma guerreira humana e aliada.

4. Vassalagem

- O Cid é um heroi encravado na tradição medieval, o rito da vassalagem era fundamental nessa sociedade e o heroi não está excluído disso. Daí que renda vassalagem a seu rei e seja rendida vassalagem a ele por parte de muitas outras pessoas.

Nega-se a enfrentar seu rei apesar de saber que é injusta a sentença de desterro:

"…cras a la mañana pensemos de cabalgar,
con Alfonso mío señor non querría lidiar." (vv. 537-538).

No que se refere ao envio de presentes a seu rei, bem se poderia interpretar como um pagamento pelo perdão:

"…enviarvos quiero a Castiella, dó avemos heredades,
al rrey Alfonso mío señor natural" (vv. 1271-1272).

Quando o rei Alfonso perdoa o Cid, este se mostra repleto de alegria:

"Dixo el rrey: `Esto feré d´alma e de coraçón;
aquí vos perdono e dovos mi amor…´
`… gradéscolo a Dios del çielo e después a vós…´" (vv. 2033-2037).

Por seu senhor e sem ousar contradizê-lo, permite o casamento de suas filhas com os infantes de Carrión:

"… pedidas vos ha e rrogadas el mío señor Alfonso
atan firmemientre e de todo coraçón
que yo nulla cosa nol´ sope decir de no" (vv. 2200-2202).

Uma vez acertados os duelos para restabelecer a honra perdida, o Cid pede permissão a seu rei para que lhe permita casar suas filhas com os futuros reis de Navarra e Aragão:

"… afé mis fijas, en vuestras manos son;
sin vuestro mandado nada non feré yo," (vv. 3407-3408).

Por sua vez lhe rendem cortesia várias pessoas. Martín Antolinez une-se a ele após abastecer os homens do Cid de "pão e vinho":

"Esta noch y[a]gamos e vay[á]mosnos al matino,
ca acusado seré de lo que vos he servido,
en ira del rrey Alfonso yo seré metido" (vv. 72-74).

Numerosos anônimos por onde quer que passasse também se uniram a ele:

"Vino Mio Çid iazer a Spinnaz de Can,
grandes yentes se le acoien essa noch de todas partes" (vv. 394-395).

"… a la Figueruela Mio Çid iva posar;
vánsele acogiendo yentes de todas partes." (vv. 402-403).

- Aragorn, apesar de ser rei de Gondor por direito próprio, não ousa enfrentar a Denethor, o Senhor de Minas Tirith. No Conselho de Elrond, Aragorn, ou como é conhecido até esse momento, Passolargo, arroja a espada dos reis de Gondor sobre a mesa do Conselho, e Boromir, filho de Denethor pergunta:

" - E quem és tu e que relação tens com Minas Tirith?...

- Ele é Aragorn filho de Arathorn -explicou Elrond-, e através de muitas gerações descende de Isildur, o filho de Elendil...

- Então ela pertence a ti e não a mim".

Aragorn não recupera o trono até que o Senescal e Senhor de Gondor comete suicídio.

Por sua vez, quando Gandalf desaparece, ele é o líder da Sociedade do Anel, e depois todos se unem a ele ao saberem que é o herdeiro do trono de Gondor.

5. Conhecimento e observância dos processos jurídicos

- O Cid é um heroi singular que conhece os processos jurídicos de sua época, é um grande letrado em Direito. Por isso, antes de exigir a reparação total dos danos causados pelos infantes de Carrión, pede suas duas espadas. Se a ordem tivesse sido outra não as teria podido recuperar:

"… diles dos espadas, a Colada e a Tizón,…
denme mis espadas quando míos yernos non son" (vv. 3153-3158).

Depois exige a devolução de três mil marcos de ouro e prata que lhes havia presenteado:

"… en oro e en plata tres mill marcos les di [y]o,
yo faziendo esto, ellos acabaron lo so;
denme mis averes quando míos yernos non son" (vv. 3204-3206).

Em continuação realiza a principal acusação e para poder vencer no juízo incita a Pedro Bermúdez para que entre em duelo com o infante Fernando, único modo de poder conseguir justiça segundo as leis vigentes na época:

"¡Fabla, Pero Mudo, varón que tanto callas!
Yo las he fijas e tú primas cormanas;
A mí lo dizen, a ti las dan oreiadas.
Si yo rrespondier, tú non entrarás en armas" (vv. 3301-3305).

Aragorn é um firme defensor das leis estabelecidas, como mostra no capítulo "O Conselho de Elrond": participa ativamente em todos os momentos do Conselho e acata a decisão deste. Ademais, é ele o que guia a seus companheiros no bosque de Lothlórien para que as leis internas desse reino não choquem demasiadamente a seus companheiros estrangeiros, como se pode ver no capítulo "Lothlórien".

6. Generosidade

- O Cid é um heroi muito dadivoso. Os presentes que outorga lhe fazem elevar-se como o mais amado e respeitado entre os amigos e inimigos. Já desde o momento no qual deixa a suas filhas e a sua mulher em San Pero de Cárdena, o Cid promete al abade dobrar o dinheiro para a manutenção de sua família, coisa que cumprirá ainda além:

"…mas porque me vo de tierra dovos çinquaenta marcos,
si yo algún día visquier ser vos han doblados” (vv. 250-251)."

Logo promete a todos os homens que o acompanhem que serão recompensados por seu sacrifício:

"… vos que por mí dexades casas e heredades,
enantes que yo muera algún bien vos pueda far,
lo que perdedes doblado vos lo cobrar" (vv. 301-303).

Posteriormente, com as sucessivas conquistas, reparte muito equitativamente todos os frutos das vitórias, como na tomada de Castejón, por exemplo.

Porém a generosidade do Cid não é apenas monetária, envia três presentes ao rei Alfonso, ou deixa em liberdade seu inimigo o conde Dom Remont, devolvendo-lhe todos os seus pertences. A generosidade é inclusive excessiva quando dá a seus dois genros três mil marcos de ouro e prata junto com numerosos presentes, entre os quais se incluem as duas espadas: Colada e Tizón. Depois do juízo e dos duelos recuperará tudo.

- Aragorn compartilha tudo o que tem durante a longa viagem, que não é muito, porém no momento em que recupera seu trono faz alarde de sua generosidade acolhendo a todos os aliados, outorgando cargos e dando presentes, como se pode ver nos capítulos "O Regente e o Rei" e "Numerosas separações", e que Tolkien resume nas seguintes palavras:

"E numerosos soldados foram conduzidos perante ele, para receberem elogios e recompensas,..."

E a Beregond, soldado do rei Théoden, o perdoa e lhe diz:

"- E assim há de ser, porque fostes destinado à Companhia Branca, a Guarda de Faramir, Príncipe de Ithilien, e será seu capitão,..."

Desse modo se reflete também o cargo que dá a Faramir, herdeiro do antigo Regente de Minas Tirith

7. Cortesia

- A cortesia no Poema del Mio Çid se faz presente em todos os diálogos desde o princípio até o final: cortesia perante seus súditos, sua família, seu rei e inclusive seus inimigos.

- O personagem de Tolkien representa a cortesia palaciana da Baixa Idade Média, tanto com seus amigos e familiares, como com os inimigos, apesar de odiá-los profundamente.

8. Astúcia

- O Cid é um personagem que, junto a sua inteligência, faz alarde de uma grande astúcia. Esse fato não é normal nos herois medievais épicos, nos quais sua astúcia é nula ou irrelevante. Essa característica e o modo de proceder, pode-se relacionar com o próprio gênero espanhol: a Picaresca. Trata-se portanto de um antecedente desse "hábito" espanhol do engano e da astúcia cujas origens mais próximas se podem rastrear na literatura latina. O heroi engana a uns judeus com o jogo das duas arcas cheias de areia, se apodera de Alcocer fingindo uma retirada e aparecendo logo de surpresa, se serve dos mouros como serventes ao não ser rentável vendê-los e não obter lucro com sua morte, deixa sem pão os habitantes de Valência e assim se rendem, etc, ademais de todos os ardis realizados no juízo e que foram explicados anteriormente.

- Aragorn se serve de sua astúcia para salvar os Hobbits dos Espectros do Anel na estalagem do Pônei Saltitante, como se pode confirmar no capítulo "Uma faca na escuridão". Ademais, se serve de uma argúcia muito valorosa, e consegue levar um exército muito singular à grande batalha no capítulo "A Batalha dos Campos de Pelennor". Nessa batalha vencem os aliados graças a sua ajuda e à surpresa que provoca o seu estranho retorno. Não obstante, sua astúcia se reflete ao longo de todo o livro em incontáveis situações.

9. Discrição

- A discrição do Cid se mostra, por exemplo, em suas palavras para convencer o conde Dom Remont de que deve romper o jejum, ou quando toma medidas para evitar as deserções entre os seus. Todo o discurso do Cid está cuidadosamente carregado de discrição. Se poderia dizer que essa característica o aproxima de Carlos Magno. - Aragorn é muito similar ao Cid nesse aspecto.

Todo seu discurso está carregado de discrição perante todos os personagens do livro exceto seus inimigos.

10. Empatia

- O Cid é um heroi que recruta consciente ou inconscientemente as pessoas por onde passa, um exemplo são os seguintes versos:

"Por Castiella oyendo van los pregones
cómmo se va de tierra Mio Çid el Campeador;
unos dexan casas e otros onores.
En aqués día a la puent de Arla[n]çón,
çiento quinze caballeros todos iuntados son,
todos demandan por Mio Çid el Campeador" (vv. 287-292).

Sua capacidade empática ultrapassa sua própria presença, as façanhas chegam antes dele mesmo.

- A mera menção do nome Aragorn a partir da metade do livro, ou de seus ascendentes desde os primórdios, auxilia ao herói na busca de aliados, como se pode observar no capítulo "O Conselho de Elrond". Seu "poder" empático chega a tal extremo que por ser o herdeiro de Gondor, Aragorn é capaz de levantar um exército do Caminho dos Mortos e usá-lo na grande batalha dos Campos de Pelennor.

A todas estas qualidades dos herois de Ian Michael, talvez seria possível acrescentar outras como as seguintes:

a) Justiça

O Cid é um heroi que pede conselho a seus vassalhos, como quando organiza o conselho de guerra ao ser sitiado em Alcocer (vv. 665-681).

Aragorn é um heroi que necessita do conselho de outros. Em um princípio segue os ditames de Gandalf, porém ao desaparecer este no capítulo "A Ponte de Khazad-Dûm", ele se transforma no líder da Sociedade e continuamente consulta seus companheiros para tomar decisões.

b) Valor

No Poema del Mio Çid há inúmeras mostras de valor, porém a que mais se destaca é uma na qual se aproxima a um fugitivo e o domina com sua mera presença (vv. 2278-2310).

Aragorn faz mostras de seu valor continuamente em todas as contendas, pondo-se à cabeça das batalhas e não duvidando de arriscar sua vida para salvar o portador do Anel quando é necessário, como no capítulo "Uma Faca na Escuridão", onde se enfrente sozinho com vários Espectros do Anel, o pior inimigo possível na Terra Média à exceção de Sauron, o Senhor do Escuro.

c) Indulgência

O Cid mostra sua grande indulgência, por exemplo, quando perdoa a covardia de seus genros e lhes permite permanecer fora do combate no cerco a Valência.

Aragorn é quiçá o mais indulgente dos dois herois a estudar, já que nos dias seguintes à coroação:

"E o rei perdoou aos Homens do Leste que se haviam rendido, e os deixou partir em liberdade, e fez a paz com os povos de Harad;"

d) Dotes cavalheirescos

O Cid é um grande cavaleiro, como mostra quando faz alarde disso frente a sua família ao recebê-la com Bavieca (vv. 1578-1591).

Aragorn é grande arqueiro, cavaleiro e inclusive montanhista. Em um princípio, Aragorn se mostra como Passolargo, um monteiro do norte. Ao que parece, nesse mundo o uso do arco tampouco era desonrado. Ainda assim, Aragorn é um grande cavaleiro e prefere o uso da espada: "Vamos! - disse Aragorn -. Chegou a hora das espadas!"

e) As Espadas

O Cid consegue as duas grandes espadas: a Colada e a Tizón em combates.

Aragorn herda, no capítulo "O Conselho de Elrond", a espada Andúril que uma vez havia vencido o Senhor do Escuro. A reconstrução da espada representa a união dos povos da Terra Média e a nova esperança para o mundo.

f) Os apelidos

O Cid, como todo heroi medieval tem muitos apelidos: o Campeador, o que em boa hora nasceu, o bom de Bivar, o que em boa hora cingiu espada,...é o chamado epíteto épico.

Aragorn é denominado: Aragorn filho de Arathorn, o Senhor Aragorn, herdeiro de Elendil, Senhor de Gondor, etc.

CONCLUSÕES

A conclusão, a que se pode chegar seguindo o fio do que foi explicado até agora, é que J.R.R. Tolkien era um grande estudioso de toda a épica europeia, e é de se supor que conhecia o Poema del Mio Çid. Se bem tenha sido escrito muito sobre a influência do Ciclo Arturiano em Tolkien, talvez devesse fazer-se uma possível reflexão: não estaria por acaso mais próximo Aragorn de Rodrigo Díaz de Vivar que do Rei Artur? Não apresenta por acaso uma preocupação com os deveres familiares, um conhecimento e observância dos processos jurídicos, uma devoção religiosa, uma vassalagem por seus superiores em cada lugar e uma astúcia mais própria do heroi cidiano? Foi o heroi cidiano uma possível inspiração no momento da criação de Aragorn, ou será que o Cid tem uma série de valores mais próximos do ideal romântico que do medieval?

(...)

Tradução por Raphael Machado

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