domingo, 3 de outubro de 2010

Josep Maria Hidalgo Garrido - Defesa das Humanidades Clássicas

por Josep Maria Hidalgo Garrido



Para ser homem - afirma Fernando Savater - não basta nascer, mas também há que aprender. Apenas através da educação e da convivência social conseguiremos sê-lo... A educação te transmite que não somos únicos e que não somos os iniciadores de nossa linhagem, aparecemos em um mundo onde já está vigente a pegada humana de mil modos distintos e existe uma tradição da qual vamos fazer parte e na qual também vamos nos formar". A educação, apesar de tudo, não é uma prática livre, mas sim orientada. E o é porque, paradoxalmente, não partimos da liberdade, mas sim chegamos a ela através do conhecimento. Somente com o saber conseguiremos ser nós mesmos, e somente dessa maneira chegaremos a ser verdadeiros cidadãos livres. Já os clássicos - como não? - compreendiam isso claramente, e assim afirma Horácio a respeito: "Quisnam igitur liber? Sapiens, sibi qui imperiosus". É livre, em efeito, aquele que, tendo alcançado a sabedoria, é capaz de governar a si mesmos. O homem não chega a ser homem mais do que pela educação. Não é mais do que a educação faz dele. Por esse motivo, de acordo com Immanuel Kant, afirmamos que deve estabelecer-se uma educação que desenvolva de maneira final e proporcionada todas as disposições naturais do homem, para que assim alcance e compreenda seu destino.

Não há dúvidas de que a sociedade mudou. Ninguém duvida hoje em dia que o entorno não é o que era, que estamos imersos em uma cultura da imagem, dos meios audiovisuais e multimídia, e que a pessa que, às portas do século XXI, não os domine será, definitivamente, analfabeta. Porém também é verdade que aquele cidadão ou cidadã que somente entenda o mundo das imagens, que não conheça a linguagem da palavra, que não saiba ler nem tampouco compreeender um mínimo texto, também o será: a pessoa alfabetizada dominará a aqueles que não sabem ler, os quais serão vítimas manipuláveis. A sociedade - não havemos de nos enganar - necessita de cidadãos formados, que saibam decidir entre diferentes opções. E que formação há melhor do que aquela que nos proporcionam as humanidades em seu conjunto, porém também o latim e o grego? Que formação há mais excelente do que aquela que nos podem proporcionar os livros? A leitura é sempre surpresa, descobrimento, vida. Desse modo assevera Sêneca: "Otium sine litteris mors est et hominis uiui sepultura".

Formar a pessoa

Educar não deve ser únicamente instruir ou informar, mas sim também formar a pessoa, formar espíritos críticos. Acaso o ensinamento há de contemplar somente o que é prático, aquilo que é útil, aquilo que só serve para o próprio instante? O ensinamento há de ensinar a viver; não deve ser uma agência de emprego, que é no que, em nome de um excessivo utilitarismo, se converteu. O sistema educativo há de formar homens completos, que sejam capazes de viver um presente muito mais rico e vasto, um presente onde a solidariedade, a justiça e a tolerância sejam moeda corrente em nossa sociedade. Negaremos também que foram precisamente (para o bem ou para o mal) as línguas e cultura clássicas as que formaram nossa civilização ocidental? Seremos capazes de interpretar a partir de agora, e com o desaparecimento prático das humanidades clássicas nos novos planos de estudo, as produções mais elevadas do espírito humano ocidental ou os acontecimentos e manifestações da cultura popular, sabendo como sabemos que muitas delas provém direta ou indiretamente da cultura greco-romana?

O homem de hoje há de saber mais que nunca compaginar as duas coisas: tecnologia e humanismo. O sistema educativo deve potencializar ambas e não discriminar uma em favor da outra. Em nome de um pseudo-progressismo pedagógico e de uma falsa modernidade quer-se negar nosso passado, nossa razão de ser, a perspectiva histórica... Se quer-se poupar-nos a verdade, aquilo que nos tornou quem somos, que tipo de educação poderemos oferecer às novas gerações? Ninguém duvida de que a inteligência artificial se alimenta da lógica matemática, porém também o faz - não podemos esquecê-lo - da linguística. E precisamente por isso, porque havemos operar mais do que nunca com a língua, devemos conhecê-la e aprender com o máximo rigor seus sistemas e códigos; somente assim seremos capazes de chegar a dominar a máquina. A verdade, a razão, a sabedoria estão, sem dúvida, em nossas raízes, nesse descartado mundo clássico que parece que esquecemos. Por acaso temos de recordar também que as humanidades, em especial as que fazem referência ao mundo clássico, são o território da palavra? Mais do que nunca o latim é importante. Mais do que nunca deve recuperar esse papel vertebrador que teve, quando todavia a cultura da imagem não havia desterrado a cultura da palavra, quando nos comunicarmos entre as pessoas não pretendia ser outra coisa mais que um ato afetivo e humanizante.

Cada dia vemos em nossa prática diária como docentes, como as novas gerações, sem que elas mereçam culpa alguma, desconhecem as manifestações do pensamento mais comuns, não sabem expressar-se e, quando o fazem, o fazem com uma baixa fluidez verbal; diariamente comprovamos em nossas aulas, como nossos alunos não entendem o que leem, que não mesmo são capazes de compreender, em linhas gerais, um pequeno texto com um mínimo de conteúdo; vemos também como, uma grande maioria de vezes, fracassam e disciplinas como matemática ou física e química, porque não entendem os enunciados dos problemas. Um estudo realizado pela Universidade de Girona em 1996-97 mostra como 25% do alunato de 15 anos não entende o que lê; que é, definitivamente - e afirmamos isso com o máximo respeito -, analfabeto funcional. Será que a Administração tampouco pensa em fazer algo a respeito, ou é que considera que esta é uma simples estatística e como tal merece uma credibilidade relativa? Será que já ninguém crê no professorado, profissional do ensino, quando diariamente denunciamos este fato na imprensa?

O sistema educativo, em efeito, há de oferecer o que a sociedade demanda. Que setores da sociedade foram, de fato, os que propuseram a supressão da língua latina na ESO (Educação Secundária Obrigatória) e no bachalerado da LOGSE (Lei Orgânica Geral do Sistema Educativo)? Será que não deve-se levar em conta os distintos escritos que desde todos os âmbitos apareceram na imprensa, a favor das línguas clássicas nos planos de estudo? Por acaso não formam parte da sociedade as duzentas assinaturas de diversos intelectuais de nosso país, na mesma linha? Não é isso um indicador da vigência das línguas clássicas? Apesar de tudo, a decisão dicotômica entre um ensino practicista ou formativo parece ser que já foi tomada. O Ministério da Educação optou por um tipo de educação onde o latim e o grego cada vez contam menos. Se optou por um ensino de todo practicista ou utilitarista... por um ensino onde só tem espaço o presente. Se optou, definitivamente, por uma educação onde a cultura do negotium se enfrenta, dominando-a, à do otium... onde o negotium convertido e interiorizado já pela sociedade em uma nova filosofia de vida, é mais do que nunca contrário ao otium.

Saber Ser e Saber Estar

A sociedade é evidente que é plurar e, como tal, deve ser respeitada, porém dentro dessa pluralidade, e merecedoras também desse respeito, estão as humanidades clássicas. A modernidade não respeita o tradicional, coisa que fazem as humanidades clássicas que convivem com ela, e aprendem dela e avançam com ela. Não queremos com essa ideia a supressão do modeno, porém que eles tampouco queiram a nossa. É por esse saber ser e estar que nos proporcionam as humanidades, por essa carga, por essa perspectiva e experiência milenares que dão (e assim já se demonstrou) as línguas e cultura clássicas, que devem ser respeitadas e inclusive recuperadas nos novos planos de estudos de nossos adolescentes: as novas gerações devem conhecer mais do que nunca seu passado, devem saber de ondep rocedem, quem são, e para onde, definitivamente, vão. As humanidades clássicas são a maneira de entender e compreender o mundo. E é precisamente por esse saber ser e estar que nos proporcionam, por essa ingente carga que nos aportam, que não devem ser esquecidas.

Que não se utilize uma língua em grande escala não quer dizer que essa língua esteja morta. Pode servir, de forma alternativa, para transmitir e receber mensagens. O latim não há de ser uma língua para ser falada. Tampouco o pretendemos. O latim deve ser uma língua de cultura e reflexão, uma língua que há de servir para reforçar as próprias do país (castelhano, catalão, galego) [*no nosso caso, o português], onde empobrecimento e perda de rigor em seu vocabulário hoje em dia já é uma constante. O latim segue sendo falado em catalão, em castelhano, em galego [*em português]... Não é, ainda que se queira demonstrar o contrário, uma língua morta. Não é ocmo outras (celta, etrusco, sumério...) que efetivamente desapareceram apesar de que possam sobrar alguns restos. A língua é a ferramenta, o instrumento básico de pensamento que conforma e explica um país. Se o latim segue sendo falando em catalão, em castelhano, em galego, por que esse empenho por parte dos distintos Ministérios de Educação em considerá-la morta? Por que esse empenho em querer fragmentar e considerar duas coisas distintas a língua e a cultura? Será que os néscios se hão conjurado contra nós? A língua, nesse caso a latina, é cultura. Com a cultura não se tem acesso à língua. Ninguém negará que o processo é o inverso. O fato de fragmentar e considerar duas coisas distintas a cultura e a língua nos fez perder o norte e, definitivamente, a visão de conjunto.

A educação é uma condição necessária e é uma conquista, sem dúvida, ter sido estendida sua obrigatoriedade até os 16 anos, porém a solução não está, para assim poder simular e dissimular o fracasso escolar, em um igualitarismo intransigente e simplista, sempre nivelado por baixo, em que se converteu o ensino na ESO e no bacharelado denominado LOGSE. A solução está na diminuição das ratios, no aumento do professorado e na diversificação curricular de nossos alunos (distintos itinerários, pelo menos desde o segundo ciclo da ESO) segundo os interesses, capacidades, atitudes e motivações de cada um deles, prevendo, evidentemente, que o aluno possa se equivocar, e que assim possa ter ele a opção de modificar seu itinerário através de diversas pontes e convalidações.

O sistema educativo que se está implantando não fez mais do que transmitir uma problemática de fracasso escolar (que há existia na antiga EGB) à secundária obrigatória, o que provocou um duplo fracasso escolar: por um lado, os alunos que já se perdiam, por uma série de razões, no antigo sistema, e por outro, o os alunos com uma boa motivação, capacidades e interesses, que agora, com o novo sistema, ficam misturados com os que, por uma ou outra causa, já fracassavam no anterior sistema educativo de 1970. A igualidade em sentido ético, segundo Victoria Camps, é equidade, porém não uniformismo: "Como somos capazes de igualar na escola, evidentemente por baixo, quando existem outras desigualdades - econômicas, sociais, familiares, individuais - que desbaratam a presumida igualdade escolar?".

Os estudos clássicos são aquilo que cada nova geração pode ler e da qual podem tirar conclusões novas: por isso são clássicos: "Toda releitura de um clássico é uma leitura de descobrimento como a primeira. Nunca termina de dizer o que tem de dizer. É, em realidade uma releitura". Para respeitar, há que conhecer, saber..., do contrário se perdem horizontes, objetividade... e a mente, consequentemente, se estreita e não evolui. A educação humanística não é apenas uma educação no saber, mas sim também no ser, ou melhor, como muito bem diz o filósofo J. Luís Molinuevo, "no saber ser e estar". Utinam hic scholam sic habeamus!... uma scholam onde as humanidades clássicas, sempre sugestivas e reveladoras, fossem novamente, nesse ser e estar que nos proporcionam, o ponto de luz que mostra ao homem o seu verdadeiro destino.

*Tradução e observações por Raphael Machado

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