quarta-feira, 20 de outubro de 2010

À Beira de um Caminho do Sul da Alemanha

Trecho do livro "A Corte de Lúcifer" de autoria do SS-Obersturmführer Otto Rahn

É verão, e voltei a terras alemães. Caminho por solo alemão. Sob tetos alemães me estico para descansar. Por minha alma afortunada soa o "Tandaradei" do senhor Walther von der Vogelweide. Passarei esta noite em Tübingen, onde Hölderlin viveu, sofreu e escreveu poesias. Os homens o tiveram por louco. Certeza que havia sido golpeado por Apolo...

Sentando à sombra de uma macieira, através de seus ramos e folhagem, dou uma piscada na direção do céu luminoso. Zumbem abelhas, vespas e mosquitos; os grilhos chilreiam. Uma calandra alça voo, jubilosa, na direção da luz. Retiro pena e papel de minha mochila. Quem me repreenderia porque escrevo? Devo fazê-lo, porque poetizo a minha maneira. Devo fazê-lo, porque a poesia ferve demasiado poderosamente dentro de mim.

Em Espírito, vejo homens dos séculos XII e XIII ir andando pelo caminho. Um depois do outro vão passando...

"Como te chamas?", perguntei a um homem. Já não é jovem. Seu pêlo é cinza e suas bochechas pálidas. Leva uma vestimenta comprida e negra, empoeirada e com as bordas corroídas. Seu passo é elástico.

"Me chamo Bertran e sou do país de Foix."

"Aonde queres ir?"

"Ao Reno e mais além." Respondeu sucintamente.

"És herege?"

"Sou." O homem me olhou assombrado.

"Foges de alguém?"

"Sou um proscrito e fujo dos romanos."

"Conheço tua pátria."

"Bem o sei, porém não a conheces o suficiente." O homem seguiu falando-me em meu idioma: "Fui Cavaleiro. Certa vez passastes pelos restos do meu burgo sem olhá-los profunda e respeitosamente porque justamente ias lendo um livro. Deverias ler menos e olhar e aguçar mais o ouvido. Meu castelo está próximo de Foix, sobre uma colina. De frente para Montségur. Os inquisidores queimaram meu irmão e a sua mulher e seus filhos, enquanto eu estava longe. Celebrava o Solstício de Inverno sobre as alturas de Ornolac, não longe daquela igreja subterrânea que vistes nos Pirineus, no monte Lujat, à beira do caminho dos heregres. Nadal, chamamos a essa festa: Natal."

O interrompi para perguntar-lhe: "No ofício divino e na festa, haveis celebrado o Nascimento de Jesus de Nazaré?"

"Não! O nascimento do Sol Salvador. Muitos dos nossos o chamaram tal como os gregos anteriores a Cristo o chamavam, Christus. Christus não é Jesus. Jesus era de Jerusalém, era romano. Seus adeptos apenas depois de morrer o proclamaram como Redentor Solar."

"Razão pela qual o bispo Melito da cristandade primitiva, oriundo da cidade de Sardes, da Ária Menor, com toda razão pode dizer que a doutrina de Christus não era nenhuma revelação religiosa, mas sim uma filosofia, primeiro, somente conhecida pelos bárbaros, que começou a se expandir de forma modificada sob o Imperador romano Augusto e foi ao mesmo passo que o crescimento do Império Romano, dito em outras palavras, Jerusalém e Roma. Se apropriaram da doutrina de Christus e, reformada a puseram ao serviço de seus fins!"

"Sim. A doutrina da vida terrena e morte na cruz de Jesus Cristo é antidivina."

"Como assim antidivina?"

"É antidivino representar a divindade como ser pessoal."

"O quê é Deus?"

"Deus é Espírito e Luz e Força."

"Há também um Anti-Deus?"

"Sim. É a fraqueza que trabalha nos homens como mentira e dúvida. O é também o espírito da anarquia e destruição."

"Portanto, para ti, Lúcifer, que chamas Luzbel, não é o Diabo? Quem é ele?"

"Lúcifer é a natureza tal como tu a vês em ti, ao redor de ti e sobre ti. Tem um duplo caráter: terra carente de luz e vivificador céu luminoso."

"É Lúcifer vosso Deus?"

"Por quê não falas da divindade? Vossa denominação 'Deus', 'o Deus', compreende a representação do pessoal em si. Meus contemporâneos alemães chamam à divindade, tu deves sabê-lo, 'o Deus'. As representações bíblicas, entretanto, deformaram-no, queirais ou não reconhecê-lo."

"Então, Lúcifer é vossa divindade?"

"Não. Ele é um intermediário."

"Como assim o homem forte requer um intermediário?"

"Sim. Mas não um mediador que a ele, ao homem, o redima, mas sim que o preceda dando exemplo e sendo exemplar. Lúcifer é também o Sol. Tu o necessitar para querer viver. Tu não o necessitas menos para dever morrer."

"Como assim?" Perguntei, ainda que imaginasse a resposta.

"No inverno morre o Sol e na primavera ressurge de novo. Traz a luz da vida e da certeza, que é o oposto da dúvida."

"A certeza de nascer de novo?"

"Se assim quiseres chamá-lo, sim. Melhor dirias de vitória sobre a vida, de eternidade."

"O homem é imortal?"

"Tu mesmo tens que encontrar a resposta. Olha ao teu redor."

Vejo o tronco da macieira sob o qual estou sentado. O tronco é velho e está podre. Qualquer dia desabará sobre si mesmo por decomposição. Mas todavia, dá flores. Estas serão fecundadas, crescerão até chegarem a ser fruto, cairão, se fincarão na terra, ressurgirão como árvores novas. E vejo perante mim, o homem. Já não é jovem. Seu cabelo é cinza. Pergunto: "És pai?".

"Fui. Me queimaram quatro filhos em Toulouse em um auto-de-fé. Enquanto ardiam permaneci erguido, disfarçado em meio a esses homens que pretendem estar em posse da crença correta e que fundamentam e desculpam todas as suas atrocidades com passagens do Antigo Testamento..."

"Como continuarás vivendo depois de tua morte?"

"Pelo exemplo. Pelo fato de quê até meu último alento, apesar de tudo, permaneci forte e orgulhoso e graças a isso cumpri com a lei. E..."

"De quê lei falas?"

"Tens que encontrar a resposta por ti mesmo. Olha ao teu redor. E vejo o Sol. Me deslumbra. Ainda assim reconheço: em todos os anoiteceres ele deve ir-se do mundo. Todas as manhãs tem que erguer-se sobre o horizonte. Todos os anos tem que baixar e logo levantar sua órbita diária prescrita. Vivifica a terra, presenteia sua luz a outros astros, que se poderia presumir que também fossem sóis. Generosa e cavalheirescamente permite que sóis maiores e mais luminosos, que somente aparentam ser menores, tenham o direito de produzir luminosidade segundo sua própria maneira de proceder. Ele é forte, triunfa sobre as nuvens escuras, a noite negra e o inverno morto. É orgulhoso, já que não permite que se impeça o direito do dia e do ano de sua vida...

"Olha dentro de ti." Assim fala o homem. Eu obedeço e escuto em mim duas vozes que discutem. "Guardas silêncio", diz uma à outra, "tu és a aceitação da vida e confias, míope, no teatro bufonesco da vida, do mundo, das coisas. Quê é a vida? Esforço e trabalho, enfermidade e morte. Quê é o mundo? A cornucópia da miséria, vale das lamentações, campo de batalha das paixões. Quê são as coisas? Matéria imperfeita, variável efêmera, desde um princípio inserida na decadência. Os próprios astros, com os quais tu te recreias, alegria de viver, um dia já não serão mais. Também a vós aguarda a morte. Nada do quê tu compreendes com os sentidos é duradouro ou divino, porquê Deus é permanência Eterna. Somente há uma única certeza: a morte. Sobre estas pedras levantarás teu templo!" A esta voz seguiu-se outra. "Eu sou o Sim! Tenho a vontade de seguir sendo o forte e valente Sim! Ele criou a divindade, não por casualidade o mundo, a todas as coisas visíveis e também a mim. Disso estou certo. E essa certeza torna-me tudo sagrado: o firmamento, a terra, os elementos, e acima de tudo aquilo em que a divindade universal permitiu-me abrir os olhos para a luz: minha Pátria e minha Estirpe. A divindade me deu a vida e eu construo sobre a vida. Eu sou eu. Porém não poderia sê-lo sem minha estirpe; não existiria minha estirpe se minha pátria não existisse e minha pátria não viveria se não houvesse divindade." "A divindade não tem a ver com tua pátria mais do quê com a pátria de qualquer outro homem, porquê, para a divindade todos os homens e todos os povos são iguais." Assim contradisse a primeira voz. A segunda calou.

Por isso me disse o homem: "Minha Pátria já não existe. A transformaram em um monte de ruínas e por mandato do Papa a prepararam para uma nova estirpe. Fomos exterminados por não reconhecer ao Deus de Roma. Jeová, nem a Moisés e os profetas. A alma de meu povo foi muito diferente. Nosso Deus era luminoso e claro e cavalheiresco. Em perfeição foi o quê nós como homens fomos imperfeitos".

"Razão pela qual os chamaram hereges, a vós que havíeis aceitado a consagração herética, vós perfeitos? É por isso que os auto-qualificáveis de puros? Não é, por acaso, ousadia qualificar-se assim por si mesmos?!"

"Nós assim nos designávamos, a diferença de Roma, que a todos os homens indiferentemente do Sangue que possuam, considera igualmente vis e corrompidos e impuros. Como netos de nossos antepassados, os helenos e os godos, nos sentíamos nobres, e não vis, perecedouros e ainda distantes de Deus, mas não corruptos nem ímpios! Não necessitávamos do Deus de Roma já que sabíamos que tinhamos um Deus! Não necessitávamos dos mandamentos de Moisés, porque desde nossos ancestrais portávamos os nossos, mandamentos dentro da alma! Moisés foi imperfeito e impuro; não fosse assim não teria permitido a seu Deus que matasse com lepra a seus irmãos, carregados de reprimendas. Nós, ocidentais de sangue nórdico, nos chamávamos cátaros como os levantinos de sangue nórdico se chamaram parsis: Puros. Terias que me compreender, ou também teu sangue é impuro!"

"Parsis...?"

"Sim os parsis e os arianos e nós, os cátaros, não traímos nosso sangue. Esse é o enigma das 'ligações entre eles' que tu buscas e buscas! Observa: Quando meditas sobre Parsifal, sabes desde então que esse nome representa uma palavra iraniana. Essa palavra significa: Flor Pura. E quando tu buscas o Graal, buscas a sagrada pedra Gral dos parsis. Ao Graal somente será chamado aquele que seja conhecido nos Céus, assim você leu em Wolfram von Eschenbach. Nosso Céu não é o céu de Jerusalém ou o céu de Roma. Nosso Céu só fala aos puros."

Ergo a vista. Eu estou sozinho...

Tradução por Raphael Machado

Nota: as referências a 'Roma' e 'romanos' no texto em questão, remetem à Igreja Católica, e não aos antigos romanos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário