segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Hans F.K. Günther - Goethe e a Religiosidade Indo-Europeia

por Hans Friedrich Karl Günther



As maiores ideias da humanidade foram concebidas nas terras entre a Índia e a Germânia, entre a Islândia e Benares (onde o Buda começou a ensinar) entre os povos de língua indo-europeia; e essas ideias foram acompanhadas pela atitude religiosa indo-europeia a qual representa a maior realização do espírito maduro. Quando em janeiro de 1804, em conversa com seu colega, o filólogo Riemer, Goethe expressou a opinião de que ele considerava "notável que o todo do Cristianismo jamais havia gerado um Sófocles", seu conhecimento sobre religião comparativa estava restrito pelo conhecimento de sua era, porém ele havia inequivocamente escolhido como o precursosr de uma religião indo-europeia o poeta Sófocles, "típico do ateniense devoto...em sua forma mais elevada e inspirada", um poeta que representava a religiosidade do povo, antes que povo (demos) de Atenas tivesse degenerado em uma massa (ochlos). Mas onde senão entre os indo-europeus, o mundo produziu um homem mais devoto e com tão grande alma quanto o ateniense Sófocles?

Onde fora do domínio indo-europeu surgiram religiões, as quais combinaram tamanha grandeza de alma com tão elevados vôos da razão (logos, ratio) e tão ampla visão (theoria)? Onde os homens religiosos alcançaram as mesmas elevações espirituais quanto Spitama Zarathustra, como os professores dos Upanishads, quanto Homero, quanto Buda ou mesmo quanto Lucrécio, Wilhelm von Humboldt e Shelley?

Goethe queria que as canções de Homero se tornassem nossa Bíblia. Até mesmo antes da descoberta das alturas e poderio espiritual do teutão pré-cristão, mas especialmente após Lessing, Winckelmann e Heinrich Voss, o tradutor de Homero, a perspectiva indo-europeia foi renovada na Alemanha, reclamando um mundo do Espírito o qual foi aperfeiçoado pelos grandes poetas e pensadores alemães durante o final do século XVIII e início do século XIX.

Desde a morte de Goethe (1832), e desde a morte de Wilhelm von Humboldt (1835), o tradutor da devota obra indo-europeia Bhagavad Gita, esse Espírito indo-europeu, o qual também se revelava no teutão pré-cristão, desapareceu.

Goethe teve uma premonição desse declínio do Ocidente: mesmo em outubro de 1801 ele observou em conversa com a condessa von Egloffstein, que o vazio espiritual e a ausência de caráter estavam se espalhando - como se ele tivesse previsto o que hoje caracteriza a mais celebrada literatura do Ocidente livre. Pode ser que Goethe tenha até mesmo previsto, no futuro distante, a vinda de uma era na qual escritores fariam grandes lucros pela retratação do sexo e do crime para as massas. Como Goethe disse a Eckermann, em 14 de março de 1830, "a representação do porte e ação nobres começa a ser considerada tediosa, e esforços estão sendo feitos para retratar todos os tipos de infâmias".

Previamente em uma carta a Schiller de 9 de agosto de 1797, ele havia indicado pelo menos uma das causas do declínio: nas maiores cidades os homens viviam em um constante frenesi de aquisição e consumo e tinham, portanto, se tornado incapazes da própria atmosfera da qual a vida espiritual surge. Mesmo então ele se torturava e angustiava, ainda que ele pudesse ver apenas os primórdios dessa tendência, a visão do sistema mecanicista adquirindo supremacia; ele previu que ele viria e atacaria (Wilhelm Meisters Wanderjahre, Livro Terceiro, Capítulo 15). Em uma carta a seu velho amigo Zelter, em 6 de julho de 1825, ele pronunciou como sendo de sua opinião que o mundo educado permanecia enraizado na mediocridade, e que havia se iniciado um século para "cabeças competentes, para homens práticos com um domínio fácil das coisas, que [...] sentiam sua superioridade sobre as massas, mesmo que eles mesmos não fossem suficientemente talentosos para as maiores realizações"; a simplicidade pura não podia mais ser encontrada, ainda que houvesse uma suficiência de coisas simples; os jovens se excitavam cedo demais e então eram devorados pelo vortex do tempo. [...]

Em grau cada vez maior desde aproximadamente meados do século XIX, poetas e escritores, bem como jornalistas - os descendentes das "cabeças competentes" por conta dos quais Goethe estava alarmado já em 1801 - transformaram a necessidade uma virtude pela representação da falta de caráter como um fato. Com Thomas Mann essa falta de caráter impiedosa ganhou renome mundial pela primeira vez. Mann usou seu talento para ocultar sua desolação espiritual por artifícios os quais tem sido proclamados por admiradores contemporâneos como insuperáveis. Mas o talento dos escritores imitando Thomas Mann não era suficiente nem mesmo para ocultar sua vacuidade espiritual, ainda que muitos de seus leitores, eles mesmo espiritualmente empobrecidos, não notassem isso.

A liberdade da imprensa, a qual foi introduzida através da constituição de maio de 1816 no Ducado de Weimar e que já havia sido demandada por Wieland com seu juízo superficial iria, Goethe declarou, não fazer mais do que abrir caminho a autores com um profundo desprezo pela opinião pública (Zahme Xenien, Goethes Sämtliche Werke). Nos Annalen de 1816, ele observou que todo homem bem-pensante, de cultura, no mundo previa as consequências diretas e incalculáveis desse ato com temor e remorso. Então, mesmo em seu tempo, Goethe deve ter refletido sobre quão pouco os homens da imprensa eram capazes de combinar liberdade com dignidade humana.

Quando os descendentes das cabeças competentes do início do século XIX ergueram-se, através dos seus talentos, às classes superiores, onde graças a uma baixa natalidade suas famílias finalmente foram extintas, o processo eliminatório do alpinismo social na Europa tomou as cabeças menos capazes e os devorou no vortex do tempo. Sua cultura foi impiedosamente descrita por Friedrich Nietzsche em seus escritos de 1871-72: Sobre o Futuro de Nossas Instituições Educacionais. Nietzsche acima de tudo se concentrou em escritores contemporâneos famosos, "a produção vã e apressada, a manufatura desprezível dos livros, a falta de estilo aperfeiçoada, a ausência de forma e de caráter ou a lamentável diluição de suas expressões, a perda de cada cânone estético, a luxúria pela anarquia e pelo caos" - o que ele descreve como se ele tivesse realmente visto a literatura mais celebrada do Ocidente Livre, cujos autores mais famosos não mais dominavam suas próprias línguas mesmo na medida demandada por professores escolares nos idos de 1900. Esses arautos vociferantes da necessidade de cultura em uma era de educação universal foram rejeitados por Nietzsche que nisso demonstrou visões verdadeiramente indo-europeias - como opositores fanáticos da verdadeira cultura, à qual se apega firmemente a natureza aristocrática do Espírito. Se Nietzsche descreveu a tarefa do Ocidente como sendo de encontrar a cultura apropriada a Beethoven, então o observador sério hoje reconhecerá bem demais a situação que Nietzsche previu e descreveu como motivo de risos e vergonha.

No ano de 1797, Friedrich Schiller compôs um poema: Deutsche Grösse. Repleto de confiança no Espírito alemão ele expressou a visão de que a derrota em guerra por adversários mais fortes não poderia afetar a dignidade germânica, a qual era uma grande força moral. A posse preciosa da língua germânica também seria preservada. Schiller (Das Siegfest) certamente conhecia o que os povos tinham a esperar da guerra:

"Pois Pátroclo jaz enterrado
e Thersites retorna"


Mas ele deve ter imaginado que a perda dos melhores na luta poderia ser compensada. A extinção de famílias de dignidade e estatura moral (megalopsychia e magnanimitas), ainda não havia começado na Europa."

No ano de 1929, apenas uma década após o término da Primeira Guerra Mundial, aquela Guerra do Peloponeso dos povos teutônicos, que causou na Inglaterra e na Alemanha perdas excessivamente pesadas de jovens inteligentes, de oficiais e de aristocratas, Oskar Walzel (Die Geistesströmungen des 19. Jahrhunderts, 1929, p.43), Professor de literatura alemã na Universidade de Bonn, deu a opinião de que após essa guerra a tendência da desespiritualização da Alemanha havia se fortalecido muito mais rapidamente do que até então: "Há na história alemã em geral tamanha falta de profundidade nos homens a ser observada como no presente?". Mas para os alemães é uma pobre consolação que essa "desespiritualização" seja também evidente em outros países ocidentais. Outro sinal dessa tendência é que hoje muitos escritores famosos não são mais capazes de preservar a posse preciosa da língua alemã. Outras línguas ocidentais também estão negligenciando sua forma e literatura, mas isso também é pouco consolador para os alemães. Tamanha negligência é considerada por muitos escritores hoje como característica da, e parte do processo de aquisição da liberdade e da liberação de todas as posturas tradicionais. Goethe criticou isso como uma falsa ideia de liberdade (Máximas e Reflexões) nas seguintes palavras:

"Tudo que libera nosso Espírito, sem elevar nosso domínio de nós mesmos, é pernicioso."

Assim, por liberdade Goethe também entendia a dignidade dos nascidos livres, não a natureza e modo de vida dos escravos libertos.

Tradução por Raphael Machado

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