terça-feira, 24 de agosto de 2010

William Adolphe Bouguereau - Nymphes et Satyre

Por Felipe Angelim

Bouguereau é inquestionavelmente um dos maiores gênios das artes visuais; e, na opinião do autor deste texto, é o maior deles. Suas representações da manifestação mais bela da natureza - o corpo humano - vêm à vida, e nos transmitem todo o espírito da verdadeira arte.

O maior argumento dos modernistas contra a arte visual do século XIX é justamente o excesso de técnica, o que eles chamam de academicismo, como se o conhecimento acadêmico fosse algo negativo. Bouguereau era certamente o mestre da técnica, e isso pode ser comprovado por qualquer leigo mesmo com a mera observação despretensiosa de suas pinturas. O que os modernistas não conseguem ver é que o artista capturava os mais sutis nuances de personalidade e humor; retratava a juventude - sua eterna paixão - em todo seu frescor, brilho e pureza. O culto à beleza, que herdamos de nossos antepassados clássicos, atinge com Bouguereau seu ápice. Os valores indo-europeus estão presentes em todas as suas obras.

É claro que o século XX não poderia suportar tal herança, e os modernistas fizeram um trabalho muito eficiente em apagar Bouguereau dos livros de história da arte: hoje, um estudante de artes pode graduar-se sem nunca ouvir seu nome. Não é agradável para uma zeitgeist degenerada que obras exaltadoras dos nossos valores raciais sejam admiradas. Bouguereau, quando abordado nos cursos supracitados, o é apenas como exemplo do que não deve ser seguido: culto à técnica; falta de expressividade e originalidade; derivacionismo. Não posso me alongar demais, e portanto não haverá tempo para que eu redargua as críticas feitas a Bouguereau e à arte do século XIX em geral. Ao certo, o farei em em próximo post, pois a temática de artes visuais será abordada toda terça feira neste blog.

Cabe apenas um questionamento: onde está o problema em ser derivativo? Um dos principais focos deste blog é justamente salientar que nada somos sem nossa tradição, sem nossa cultura herdada. Nada podemos fazer de profundo sem ela e nada pode tocar nossas almas com maior precisão do que aquilo que se fundamente nos princípios que norteiam nosso pensamento e que vieram do âmago de nossa expressividade. Não é por se apropiar do passado que se perde a originalidade; sendo assim, todos os trabalhos sérios de sociólogos, filósofos, historiadores e muitos outros cientistas seriam descartados como igualmente derivativos. Por que com a arte deve ser diferente? Por que a ciência pode se apropriar do conhecimento prévio e a arte deve ser sempre ''totalmente original''? Diferentemente do que as avant-gardes modernistas estabeleceram, a originalidade não está em obter algo do completo vácuo, e sim de poder usar do que é anterior de forma eficiente e criativa de modo que o novo trabalho tente sempre superar os anteriores. Vejo muito mais originalidade em qualquer pintura de Bouguereau ou de muitos outros - os quais certamente exporei aqui no blog - do que nos inúmeros e idênticos retratos de seres humanos deturpados feitos por ''artistas'' como Picasso ou Paul Klee, com sempre a mesma explicação de terem ''capturado a natureza interior da pessoa, não a beleza externa''. Desculpas para a própria inabilidade e falta de cultura.

O valor máximo que uma pintura de Bouguereau atingiu ao ser vendida foi $3.520.000. Ressalto que o pintor produziu 826 obras, feitas com muito sacrifício e dedicação durante toda a sua vida, com trabalho diário de aproximadamente 8 horas, o que o dá o mérito de ter sido o artista acadêmico mais profílico de toda a história. Picasso produziu 80.000 ''obras'', as quais vendem por algo em torno de $25.000.000 dólares cada. Em média, na década de 60, as pinturas de Bouguereau vendiam entre $500 e $1000. Eis o que o establishment modernista conseguiu fazem com a verdadeira arte.

Sem mais delongas, procedo à análise de uma de minha pinturas favoritas: Nymphes et Satyre (As Ninfas e o Sátiro).



Aqui belíssimas ninfas tentam puxar um sátiro para o lago. Sátiros, por natureza, sendo aparentados aos bodes, não gostam muito de água. Uma das ninfas acena para três outras em segundo plano, possivelmente as chamando para participar da brincadeira. Pela sua expressão, vemos que o sátiro tenta resisir, mas pouco pode fazer contra quatro ninfas que o puxam, ainda mais por estar - como todas as bestas o ficam - rendido por sua beleza.

Primeiramente, é nítida a associação de brancura e delicadeza à beleza. A diversão, o lúdico, se liga ao belo, criando uma imagem de exaltação da juventude eterna das ninfas, a qual representava para os gregos - como podemos ler no diálogo ''Hípias maior'' de Platão - o espírito da estética, imutável, uno e eterno, como uma divindade. Elas submetem um sátiro às suas vontades: um ser semibestial, um intermediário entre o homem e os brutos: a atitude é simbólica em mostrar como os seres inferiores são subordinados à beleza antropomórfica e como os seres a meio caminho entre o homem e o animal - incluo aí, como Aristóteles e Propércio o faziam, alguns membros de nossa própria sociedade - nada podem quando confrontados com nosso espírito estético.

Por sua vez, a água do lago simboliza a limpeza, a renovação e acrisolamento aos quais apenas a estética pode guiar o bruto para que mude sua natureza; ela é alegre e elevada, acompanhada pelos risos das ninfas. É claro que a besta, o ser inculto, resiste à tentativa, mas por hora é forçado a ceder, pois a estética sublime submete a todos. Destarte, cabe aqui uma mensagem implícita na pintura:

Renovai-vos, camaradas incultos, néscios e desprovidos de senso estético. Banhai-vos no lago de nossa arte; rendei-vos à divina beleza; desprendei-vos do instinto sexual primitivo dos sátiros para adquirir a sensualidade sublime de vossa tradição, de vossa natureza interior. Sede belos por dentro para que vosso mundo externo se acrisole.

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