quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Daniel Laguna - Friedrich Nietzsche: Guia de Leitura

por Daniel Laguna



Faremos aqui uma introdução da obra do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, visando a introduzir leitores interessados em iniciar uma leitura de sua obra, EM ORDEM RECOMENDADA, pedindo-se ao leitor que evite preconceitos comuns atualmente, como a reinterpretação perpetuada principalmente por autores marxistas, anarquistas e liberais, que tentam fazer de Nietzsche um hedonista, cuja visão dionisíaca nada mais é do que a afirmação dos prazeres fugazes e momentâneos; que tenta fazer de Nietzsche um inimigo de qualquer forma de Estado e política; que tenta fazer de Nietzsche um simples ateu materialista.

1. O Anticristo (Der Antichrist): Recomendada como primeira na lista por ser uma obra mais direta e linear, fazendo-a uma leitura mais simples para quem ainda não está acostumado com o estilo do autor. Nessa obra, identifica-se a falsificação na filosofia por parte do mundo moralista perpetuado pela moral cristã, que reverenciaria o fraco, feio e doente em lugar do forte, belo e poderoso. Essa moral judaico-cristã levaria o mundo ao nihilismo, já que se negaria a existência em troca de uma vida post mortem, e à ruína do poder artístico e cultural, como levou à queda do Imperium Romanum. É importante que se note, também, que se diferenciará uma forma de cristianismo ‘’hebreu’’ (de Paulo) e a figura solitária de Jesus (o último cristão morreu na cruz), abrindo a possibilidade de o cristianismo ter sido (ou poder ser) interpretado de formas diversas e adquirir facetas ambivalentes.

2. Genealogia da Moral - Uma polêmica (Zur Genealogie der Moral – Eine Streitschrift): Nessa obra se apresentará com clareza as diferenças entre a moral dos fortes (aristocrática) e dos fracos (escrava), fazendo-se uma crítica profunda sobre a segunda, que sempre busca a má-consciência e a culpa. A culpa, que em alemão (Schuld), é sinônimo de ‘’devedor’’, é apresentada como uma forma de dominação do sacerdote sobre o homem, que se torna o credor de todo um grupo de homens, que passa a ser um grupo de ovelhas.

3. O Nascimento da Tragédia, ou Helenismo e Pessimismo (Die Geburt der Tragödie, Oder: Griechentum und Pessimismus): Analisa a função da tragédia grega em sua sociedade. A catarse (καθαρός, purificar) da tragédia ateniense clássica servia aos gregos como uma forma de livrar-se do nihilismo, não por uma mentira, ou seja, com uma visão falsa e otimista da existência, mas propondo o olhar do homem sobre o abismo, fazendo-o olhar seu fundo e, assim, olhar para dentro de si mesmo, em uma situação atemporal, na qual o indivíduo sente seu poder e toda a sociedade, formada por diferentes seres olhando para o mesmo abismo, transcendam as dores e tornem-se heróis. É nessa obra, também, que se diferenciará o Apolíneo, vida e arte de imagens e palavras, do Dionisíaco, de sentimentos e música.

4. Crepúsculo dos Ídolos ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen-Dämmerung oder Wie man mit dem Hammer philosophiert): Depois de ler as obras anteriores, poder-se-á deleitar-se e mesmo divertir-se com o poder de ataque de Nietzsche. Aqui, atacar-se-ão várias figuras nos campos de filosofia, política, história, música... Com o conhecimento e o entendimento das leituras anteriores, o proveito será grande, o prazer também.

5. A Vontade de Poder (Der Wille zur Macht): Apresenta temas de todas as principais obras de Nietzsche em sua forma mais madura e completa. Embora tenha sido editada depois de sua morte, a idéia e o índice da obra foram feitas por ele próprio. Tendenciosamente se afirmou que essa obra fosse uma deturpação da irmã de Nietzsche, Elisabeth Föster-Nietzsche. Na introdução da nova edição (recomendada) da Editora Contraponto, o professor Gilvan Fogel (doutor em filosofia pela Karl-Ruprecht Universität e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro) que participou da preparação e tradução do texto, escreve:

É preciso que se enfatize: Os textos são autênticos. Todos são da cunhagem, da lavra de Nietzsche. Não foram, como já se disse e se insinuou, distorcidos ou adulterados pelos organizadores. Não. Seu ordenamento e sua publicação, porém, não seguiram rigorosos critérios crítico-filológicos. Confrontados com a edição crítica, hoje disponível, se vê tratar-se de textos genuínos, ainda que, aqui ou ali, com pequenos erros e pequenos cortes, lacunas, não por alguma pretensa má-fé, mas por deslizes naturais de uma publicação que não segue normas crítico-filológicas próprias na acribologia científica. Isso é decisivo: Os textos são autênticos e constituem uma rica coletânea de fragmentos da última década produtiva de Nietzsche.

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